quinta-feira, dezembro 30, 2004

Um Conto de Natal (3)

Barnabé tinha razão. Todos sabiam qual era a causa das suas desgraças. Silveira, farto de tanta hesitação exclamou, com as faces púrpuras de ira e de vinho: "Temos de acabar com a maldita fábrica!" Animados com a ideia, começaram de imediato a conspiração! "Talvez sabotagem!" alvitrou Alfredo, "Mas tinha de ser coisa bem feita", rematou. "É muito brando. Há que dar o exemplo, para que outras fábricas não venham depois a colmatar o que nesta se estragar" respondeu Barnabé.

Aquela tarde terminava com Lucinda pelas ruas, de recipiente cheio de azevias na mão, rumo à pastelaria que lhas compraria. Pensando no pago e nos filhos e no marido e na vida e em tudo o que pensa quem pelas ruas anda, há dez anos havia aqui uma fonte encanada, agora está aqui este prédio, enfim, antes não existia aquela maldita fábrica, que lhe atormentava a vida, e nestes pensamentos ia Lucinda quando chegou a quem lhas comprou e pagou as azevias. Negócio feito, saíu Lucinda e foi para casa. E porque os nomes importam, chama-se a pastelaria onde vende Lucinda os seus fritos "O Rei da Lícia".

Os conspiradores sairam da tasca do Chico com o desígnio firme de trazer no dia seguinte ideias concretas e sóbrias de acção e mais gente para a causa. Não havia tempo a perder e antes do Natal tinha que estar resolvido o problema. Se, de alguma forma, se conseguisse neutralizar a fábrica, talvez ainda se aumentasse a clientela e melhorar o negócio. Só assim.

Alfredo encontrou Lucinda à porta de casa. Cheirava um pouco a vinho mas trazia nos olhos a esperança e a alegria dos determinados. Contagiada, Lucinda esqueceu o hálito etílico de Alfredo e perguntou-lhe pelo dia. O homem disse à mulher: "Isto agora é de vez!" Entraram em casa e Lucinda, preocupada mas entusiasmada, adivinhou, "Vão à fábrica?". Três meneios de cabeça disseram que sim.

(Continua)

terça-feira, dezembro 28, 2004

Um Conto de Natal (2)

Sentados na mesa de madeira riscada, tinta do tinto e polida do vidro dos copos, estavam Macário e Barnabé, sócios gerentes da firma "Mabé" de pintura de automóveis. Estavam quase falidos, como Alfredo. Cumprimentaram-se e ficou Alfredo a saber que era de alguma criação e de uma pequena horta que tirava Macário o sustento e que Barnabé se governava com o salário da mulher. Sempre a mesma história, pensou Alfredo e pensamos nós. Trocadas desgraças faladas, surgiram as rodadas de vinho, para isso que não faltasse, e subia a alegria e a coragem, não tanto como o tom de voz nem como a sede, mas subiam.

Pela porta surgiu Silveira, homem corpulento e revolucionário, habituado a lutas fabris, ele que fora em tempos operário e que agora era outro falido bate-chapas. Saudou os presentes com vigor, puxou o mocho que sobrava na mesa dos que já conhecemos, pediu para ele e para eles mais do mesmo e troou: "Temos que dar a volta a isto, rapazes!". Cedo se ouviram Alfredo e os da firma Mabé, "Pois temos, mas como?". Terão acrescentado, mas não ouvi: "Falar é fácil, ainda mais com um grãozinho na asa!". Hoje já não era, seguramente, a primeira paragem de Silveira em estabelecimentos de comidas e bebidas.

Lucinda fritava, desconhecedora, claro está, das andanças do marido, mais um alguidar de azevias, que boas eram, estas só com açucar, aquelas levam também canela, não fosse a vesícula já falsa e, se calhar, nem metade chegava à pastelaria. Ainda renderiam alguns trocados, até os hipermercados as compravam, e, mesmo desconhecendo as mais elementares leis do mercado, Lucinda sabia ser isso sinal de melhores preços.

"Parece que vocês não sabem quem são os verdadeiros culpados desta nossa situação!", vociferou Silveira, "Andarão ceguinhos de todo?", acrescentou perguntando. "Não temos trabalho porque não há acidentes de automóvel! Essa é que é a dura realidade!". Alfredo pousou os cotovelos na mesa, pintando a ganga do casaco de tinto, e com as mãos segurou a cabeça, pensativo como sempre fica quem esta pose faz. Macário, após breve período de meditação perguntou: "Mas e isso é culpa de quem?". Com ar sábio, Barnabé disse: "Tu sabes muito bem quem é o culpado. Todos sabemos."

(Continua)

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Um Conto de Natal (1)

[Aviso prévio: A história que se vai contar surgiu de um almoço em família, nesta quadra festiva. A ideia não é, portanto, de minha exclusiva autoria. Só o que farei com ela.]


A poucos dias do Natal, Alfredo mal tinha dinheiro para as despesas correntes da casa, quanto mais para comprar a "playstation" ao mais novo e o telemóvel à mais velha. Era realmente deprimente não poder dar aos rapazes aquilo que lhes traria tantos momentos de alegria. Mas a sua profissão, bate-chapas, estava realmente em decadência. A menos de pequenas amolgadelas e um ou outro toque insignificante, não havia trabalho. E sem trabalho, não havia prendas, nem, muito menos, alegria.

Em casa, a mulher, que em tempos trabalhara numa loja de peças de automóvel, afadigava-se na fritura de azevias que venderia em pastelarias da vizinhança, sempre aproveitava o tempo e talvez conseguisse juntar algum dinheiro. O Alfredo, coitado, andava tão desorientado com a falta de trabalho e as crianças eram ainda tão novas, havia que trabalhar e Lucinda fá-lo-ia. Pena que não fosse na loja de peças de automóvel, mas nessa já não podia ser, falira: Já ninguém precisava de peças de automóvel.

Nessa tarde, tendo Alfredo terminado uma pequena reparação, que lhe rendera magra recompensa, dirigiu-se à taberna do Chico, onde sabia pararem irmãos de ofício e, claro está, de destino. O Chico trabalhara há alguns anos no negócio, mas apercebera-se da grande mudança que aí viria e mudara de arte, agora era taberneiro e, por amor aos que foram dele, fiava-lhes uns "penáltis". Eles precisavam e ele não.

(Continua)

sábado, dezembro 25, 2004

Patrulhamento Natalício da Blogosfera

Sendo este o primeiro Natal do Meia Livraria, e nesta época em que blogues catalogam blogues, neste, sempre de espírito nataleiro e reverente, patrulha-se a rede em busca de sinais da quadra.

A Aba de Heisenberg recorda-nos um dos mais belos contos que alguma vez alguém terá escrito: O "Natal" de Torga trazido pela Isabel Prata.

Daquele que para sempre sentaram na Brasileira, vem o Almocreve trazer um poema. O "Natal" de Fernando Pessoa, que é mais de dúvida e de espanto que de paz e esperança. Como sempre é. E, talvez, como deva ser.

A Guida traz-nos a brilhante Ladaínha dos póstumos Natais de Mourão-Ferreira.

O Homem Neves, do Sob a Estrela do Norte mostra-nos uma imagem da fresca Finlândia, e transmite-nos algumas palavras em "nori", seguramente muito agradáveis.

Um belíssimo poema, tirado do Natal dos Hospitais, pode ser lido n'O Cidadão do Mundo. É um poema que alimenta a alma, que dá que pensar.

Original é o cartaz natalício mostrado pelo muito atento e muito elegante Substrato.

Por último, mais uma referência à nossa grande literatura, com um enlace para "O Suave Milagre" do Eça, num natalíssimo artigo d'O Velho da Montanha.

Boas Festas a todos!

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Humores (3)

A relação directa que tem o humor com a inteligência torna o tema por vezes embaraçoso. De tal forma que, no tal debate televisivo da passada semana, todos se engasgaram quando se falou da grande cisão de "humores". Não se trata de novo humor nem de velho humor. Trata-se da grande e intransponível barreira cultural e intelectual. A alguns, aos da revista e do "eles querem todos é poleiro", está para sempre vedada a compreensão de formas de humor mais avançadas, mais puras, limpas do folclore trauliteiro e boçal do piscar de olho revisteiro. Piscar de olho que também é de Solnado e de Nicolau.

O humor do Gato Fedorento não só é bastante diferente do "outro" humor, como lhe é diametralmente oposto. Parodia muitas vezes os Solnados e os que se riem dos Solnados. Daí o constrangimento de Ricardo Araújo Pereira quando confrontado com a pergunta: "Como se sente no meio destes monstros da comédia?". Seria pergunta matreira não fosse a manifesta ignorância de quem perguntou, Fátima Campos, em matérias de humor. Coisas de quem se leva demasiado a sério.

Tal como a esmagadora maioria dos espectadores televisivos, Fátima não conhece ou não compreende o excerto da rábula "O homem a quem parece que aconteceu não sei o quê". Para ela, o entendimento da rábula resume-se ao directo "Eles falam e não dizem nada" como paródia parquemayerense da suposta e muito gasta vacuídade dos políticos. No fundo, essa paródia directa quase desresponsabiliza na totalidade aquilo que retrata, banalizando a tal ineficiência, colmatada com o piscar de olho cúmplice e solnadesco de quem encolhe os ombros resignado. Não se aborrecem pela incompetência de quem os governa, aborrecem-se por não saberem como o fazem e porque o fazem os políticos.

Quem o Gato Fedorento retrata no anúncio do Montepio é um tipo que se ri com Solnado. Que lhe achará, seguramente, muita graça. E nós, que sabemos o que são blogues, ao contrário de Nicolau, riríamos, não fossem tão trágicas as suas figuras, deles: De Solnado e de Nicolau.

sábado, dezembro 18, 2004

Humores (2)

Outra das figuras em destaque, representando o velho humor, foi Nicolau Breyner. O esforço mental empregue na tentativa de me lembrar que raio de humor terá feito Nicolau revelou-se infrutífero. Não me lembro. Sei que fez umas "sitcom", que não vi, mas humor penso que não. Talvez aquele vetusto programa, "Eu Show Nico", fosse humorístico. Novamente, não me lembro. Mas tanto faz. Breyner é um tipo simpático e, pelo menos, não me leva às lágrimas nem à extrema amargura quando o vejo. Valha-lhe isso.

Almeida Santos, como homem inteligente que é, lá debitou as suas larachas, episódios da vida parlamentar, e até disse algo que merece reflexão: Em Portugal, toda a gente quer ter piada, mesmo no Parlamento, ou em especial no Parlamento. Eu diria que todos querem seguir a tradição queiroziana de fina ironia e farpa aguçada. Mas a quase todos falta a argúcia e esplendor argumentativo, bem como a necessária velocidade de raciocínio. A Almeida Santos não. Foi, no entanto, esmagado pelo seu boneco, o "Almeida Secas" numa das mais brilhantes rábulas de sempre do Contra Informação.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Humores (1)

No "Prós e Contras" da passada segunda-feira, debateu-se o tema do humor. Sentados no palco estavam representantes do "novo" e do "velho" humor, capitaneado o velho pelo velho Solnado e o novo pelo novo RAP, nome pelo qual, irritantemente, insistiu Fátima Campos em chamar ao visivelmente incomodado Ricardo.

Nesse debate, deliciosos aspectos trouxeram à discussão contornos de elevada comicidade, sendo um dos mais notáveis a manifesta ignorância que a moderadora demonstrou à saciedade no que respeita ao Gato Fedorento. A apresentadora, que se revelou verdadeira humorista, teve ainda oportunidade de baralhar aquilo que seriam as opiniões de Solnado, que, segundo julgo ter percebido, disse algo sobre Bruno Nogueira, que a Fátima confundiu com Ricardo Araújo Pereira, o que Solnado prontamente negou, mas que era do Gato Fedorento na mesma, insistiu Fátima, o Bruno, deve ser, disse Solnado, é capaz, pensou Fátima e com lágrimas de riso na assistência e um esgar de desconforto na cara do desgraçado Ricardo se findou este grande momento de televisão.

E já que falo no Solnado, o mais trágico de todos os humoristas, o mais triste dos palhaços tristes, lembro-me que, desde há vários anos, sempre que o vejo fico constrangido com tanta injustiça, com tanto esquecimento, com tanta melancolia. Sempre que vejo Solnado, fico deprimido e mal seguro as lágrimas, tal é a tragédia que emana daquela alma penada.

domingo, dezembro 12, 2004

Obviamente

Algures no Palácio de Belém, um destes dias.

Jorge Sampaio _ Obviamente, demito-o!

Santana Lopes _ Porquê?

JS _ Mais sabe você!

SL _ Não compreendo, explique-me isso três vezes.

(Três vezes explicou JS e três vezes ficou por compreender. SL tinha a compreensão lenta)

JS _ Ó homem, você está demitido e pronto!

SL _ Não senhor. Eu é que me demito!

JS _ De acordo... mas olhe que perde o subsídio de desemprego!

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Garrett

Ontem comovi-me com os preparativos das comemorações do 150º aniversário do desaparecimento de Almeida Garrett. Foi com mal disfarçado orgulho em ser português que assisti a algo só comparável ao "Bloomsday" em Dublin. Bastou-me ver a Rua Garrett tão brilhante, tão bonita, tão cheia de luzes, com saltimbancos, enfim, vestida de gala para a grande homenagem!

Infelizmente não pude hoje estar presente nas cerimónias, a profissão obriga-me por ora a afastar-me da capital. Mas estou, tal como você, afortunado leitor que assistiu em plena Rua Garrett à justíssima homenagem ao nosso máximo expoente do Romântico, se não em corpo, em muita alma com todos quantos admiram o escritor e o homem Almeida Garrett.

Que ufano ficaria o já de si tão ufano Garrett se, saindo do seu Grémio, pela Ivens, desse com o espectáculo de luz e de alegria em que se transformou a sua Rua!

Mais espantado ficaria se desse com uma interpretação da "Leitaria Garrett" de Vitorino pelo grupo de canto gregoriano que há algum tempo editou um belíssimo álbum de "covers" de música da moda!


Almeida Garrett

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Mitos

Nem sempre é fácil encontrar mitos para descascar. Tal como um escultor que necessita de um pedaço de mármore incorrupto e uniforme para que faça nascer David, precisa quem escreve de mitos gordos e de pata larga.

O mito da Sopeira e do Magala calça 48.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Duplas Famosas - Um Desafio

Sempre me entusiasmaram as duplas famosas!

Batman e Robin (1),
Portas e Santana (2),
Douala e Liedson (3),
Paulo Madeira e Ronaldo (4),
Pinto da Costa e Reinaldo Teles (5),
Sócrates e Vitorino (6),
Dom Quixote e Sancho Pança (7),
Manuela Moura Guedes e Miguel Sousa Tavares (8),
Mickey e Pateta (9),
Chitãozinho e Xóróró (10),

são apenas 10 exemplos de duplas genuinamente famosas. Muitas mais existem e sendo assunto tão interessante, propunha aos leitores do Meia Livraria que enviassem pacotes de 10 duplas famosas (na janela de comentários) para que pudéssemos elaborar um top 100. Que tal?

Alegrias

Há fases boas e más na vida das pessoas. Há chavões ainda piores que este. Há também alegrias que só a arte sabe exprimir. Regressando ao chavão, também nos países haverá uns dias melhores e outros piores. E na história de Portugal, poucas serão as semanas com a excelência desta.


"Onde estás tu, meu maroto?"

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Humilde Vénia

Após estes quatro inacreditáveis meses, a decisão de Sampaio de terminar o triste espectáculo da governação santanenta, foi balsâmica. Com Lázaro fez Jesus o que Sampaio fez a si mesmo.

Portugal perdeu o seu pior Primeiro-Ministro de sempre e recuperou o seu melhor Chefe de Estado. Perdeu a ameaça censória e fascista de Morais Sarmento, perdeu a arrogância paternalista de Bagão Félix e das suas sinceridades, ninguém lhas pediu, perdeu o sinistro tachista Chaves e a restante corja favorecida, perdeu o seu pior governo de sempre.

Mais importante ainda, Portugal recuperou um grande Estadista e um grande Presidente da República. Homem que deixou à beira de um ataque de nervos a sua mais fiel base de suporte, ao manifestar o que se julgou ser falta de coragem e até de interesse nos destinos do país, mas, com efeito, se tratou de uma decisão alicerçada na profunda visão sobre a realidade de Portugal, só ao alcance dos grandes estadistas. E o Senhor Presidente Jorge Sampaio mostrou ontem que não anda aqui a brincar. Mostrou ainda que, quando penso que já ninguém esperava, não permitiria que se fizesse de Portugal coutada de gente parva.

Aliás, a escolha do momento da decisão foi absolutamente oportuna, ainda que inesperada! Paradoxalmente, aquilo por que, pouco antes de ser pública a dissolução em curso da AE, ninguém estava genuinamente à espera, ou de ser "razão para tanto" revelou-se, logo após a boa nova, fonte de consenso. Poucos, ou nenhuns, após curta ponderação, terão ficado fora de sintonia: Sampaio decidira bem.

E é pela exactidão, pela inteligência e pelo autêntico amor pela Pátria que o Meia Livraria quer deixar aqui uma humilde vénia ao Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio. Obrigado.

(Ainda bem que a severa campanha de pressão levada a cabo por este blogue sobre o PR surtiu algum efeito!)

segunda-feira, novembro 29, 2004

Negro Cenário

A pandilha anda aflita. O Chaves zangado com a desconsideração, lava a roupa suja em público, suja de clientelismo e de favorecimentos. O mais sinistro é que Chaves tem a lata de afirmar que se sente ofendido por não ter sido suficientemente favorecido. Nem pôs em causa se é ou não capaz para o cargo que ocupava ou para o que não quis ocupar. Isso não tem importância: Santana é seu amigo, deve-lhe favores e não lhe deu cargo à altura. E acontece sempre que se lida com gente desta, mais tarde ou mais cedo estala o verniz, há denúncias, ataques pessoais, enfim, a luta canina da escumalha.

Sampaio chama a casa o Santana, o Santana explica, o gajo é fraquinho mas é amigo, tinha um ministério que não funcionava, quis pô-lo a funcionar, tirei-o de lá e queria encostá-lo ao futebol, que é coisa de meninos, eu até já fui presidente do Sporting. Percebe, Sampaio? Ele não é grande coisa, mas safou-me em tempos, uma mão lava a outra, não é Sampaio?

Compreensivo como sabemos ser o Presidente, deu dois dias a Santana para emendar a mão. Para corrigir a situação. Para aligeirar o estrago. Para quê? Pronto, o Presidente deu dois dias a Santana para se poder recompôr de mais uma senhora trapalhada, sinistro sintoma do governo à paraguaia que ele ajudou a formar.

sexta-feira, novembro 26, 2004

A Doutora Ursolina

Às quintas, era dia de atendimento da Doutora Ursolina, a tal da filha que era drogada mas que, ao invés de se acanhar em vergonha, sabedora da desgraça da filha que era dela, filha e desgraça, se dava ares de ensinadora de virtudes e de modos de viver. Assim era esta Doutora. Amiga de dar conselhos agora quando os não soube dar a quem devia!

Hoje, a Dona Escolástica até nem se sentia mal, menos ciática mais cruzes vergadas, a coisa ía. Faltava pouco para que fossem seis da manhã, o Sol nasceria nada tardava e hoje a Dona Escolástica não iria para a bicha do Centro de Saúde! Não estava para aturar aquela Doutora Ursolina! Hoje, a Dona Escolástica iria para o Tribunal da Boa Hora! Era dia grande, havia julgamento de pedófilos famosos! Valeria a pena!

Para o TIC sabia ir, de Corroios lá. A pé um bocadinho, comboio um bom pedaço, sai-se em Sete Rios, onde passa um autocarro que pára mesmo em frente ao tribunal. Nada mais fácil e cómodo.

Para a Boa Hora seria ainda mais fácil, pensou Escolástica, o autocarro até ao barco, o barco até ao Terreiro do Paço e daí lá esticaria as pernas, haveria apenas que subir um pouco.

Lá chegada encontrou muita gente conhecida. E não foram só jornalistas e técnicos do audio-visual que Escolástica reconheceu e cumprimentou. Também Gertrudes, Isolino e o Sr. Santos da mercearia lá estavam. E todos concordaram, aquela Doutora Ursolina não lhes enchia as medidas. Tinha um bocado a mania.

sábado, novembro 20, 2004

Ficção

Monteiro chegou mais cedo ao serviço. Sentou-se na secretária do colega, treze anos mais novo e muito irritante: o Mendonça. Sacara-lhe a "password", era a do costume, "12345678", e agora tiraria tudo a limpo. O computador demorou algum tempo a arrancar, dois ou três minutos, mas esperou com calma, havia tempo. Só se pegava às nove e ainda nem oito eram. Monteiro era um homem tranquilo. Além disso, nada havia que temer: Mendonça era um fala-barato e depressa seria desmascarado!

Finalmente! O computador estava agora a postos, Monteiro pegou com a mão direita no rato que não tem qualquer mão, mas que tem botões, movimentou-o pela mesa e carregou-lhe na tecla esquerda com o dextro apontador. Mexeu uma vez mais no rato e novamente lhe apertou os botões: O que viu no monitor deixara-o absolutamente transtornado!

Saíu do escritório com largas passadas. Determinado, abriu a porta por onde entrara e, com um salto, imagine-se, um homem com quarenta e dois anos aos saltos, com um salto chegou à porta do elevador. Chamou-o, carregando em novo botão. Ele, o elevador, já lá estava, entrou, desceu e chegou à garagem. Já a correr, chegou ao seu automóvel e por momentos hesitou. Parou de seguida. Encostou-se, arfando, à porta do condutor. Monteiro não estava em si. Eram agora oito e pouco, e dez, talvez. Abriu a porta e sentou-se no banco, já mais calmo. Recostou-se no assento e, acto quase contínuo, pôs o carro a trabalhar. Arrancou.

Ainda não eram oito e trinta e já Monteiro estava perto de casa, novamente. Entrou no café onde costumava pedir galão e bolo de arroz e pediu café baixo e whiskey alto. Dito e feito, o Jorge do café não fez perguntas, nunca fazem estes tipo dos cafés, de um trago bebeu Monteiro o café e de outro o whiskey, mais um, exigiu, Jorge, experiente, não guardara a garrafa e botou nova carga em copo velho, bebida esta segunda como foi a primeira. Mais uma, pigarreou Monteiro e outra se aviou, mas esta, demorou mais a ser emborcada. Eram oito e três quartos.

De volta ao carro, pagas as bebidas, Monteiro rumou ao serviço. Determinado e forte, tinha outra vez vinte e cinco anos! Faltavam dois minutos para as nove, entrou na garagem, chiante, e, sem hesitar apontou ao FIAT de Mendonça! A centímetros do embate, puxou com a direita o travão de mão e guinou o carro para a esquerda. Ouviu-se um estrondo: a traseira direita do Ford de Monteiro rebentara as duas portas esquerdas do FIAT de Mendonça! Rodopiou e, embalado, embicou para o Volvo do chefe: era dia de ajustar contas! Desta feita, de frente, enfiou as portas esquerdas do carro sueco para dentro, detectará o leitor mais atento um padrão, irremediavelmente perdidas. Esticou a necessária marcha-atrás para além do necessário e destruiu parcialmente a bagageira do estupor do paquete, que tirava fotocópias a toda a gente, menos a ele! O Palhaço!

Entretando, tanto barulho e destruição atraíram atenções várias e até telefonemas para centos e dozes e PSP. Mas tanto fazia. Afinal, sempre era verdade. Mendonça batera o record que há dez anos pertencia a Monteiro. Que deixara de ser o Rei do Tetris. E a quem já nada mais restava.

Eram agora nove e doze.

terça-feira, novembro 16, 2004

Canetas

Sobre a secretária, a caneta que há muito repousava, de bico tapado com plástica tampa, esboçou um movimento. Dir-se-ia que mexera sózinha, não soubéssemos nós que se não mexem assim canetas, sem que nada aparentemente o provocasse. Mas, ei-la novamente, agora vi, tenho a certeza, a caneta mexeu-se. Sacudiu, decidida, a cauda, parece que se quer livrar da tampa! E tal foi a violência do gesto que a tampa saltou mesmo! Caiu desamparada no chão e dela não se apiedou a caneta que, resoluta e de um só pinote, rodopiou sobre si própria saltando com agilidade para cima de uma folha de papel timbrado, ainda por encetar. No timbre da folha lia-se "Explosex - Explosivos Industriais" e mesmo abaixo da morada do paiol escreveu a caneta, na sua bizarra dança, "Pum!". Espantado com semelhante espectáculo, só tive tempo de fugir. Já na rua, ouvi um estalido seco, mandei-me para o chão, tapei como pude a cabeça e ouvi "Pum!". Assustado, virei a cabeça, levantei-me e voltei ao escritório. A explosão abrira apenas um pequeno buraco no tampo da mesa. Não havia estragos de maior. Experimentei o telefone, funcionava, liguei para casa e disse: "Hoje chego mais tarde. Vou trabalhar mais um pouco aqui na repartição."

segunda-feira, novembro 15, 2004

Portugal

Agora:

Santana decreta fim de austeridade. Sampaio rega uma margarida. Portas encontra-se secretamente com Gomes da Silva. Sampaio bebe chá de camomila sem açúcar. Rodrigues dos Santos demite-se da RTP. Sampaio compra pijama de flanela quentinho. Evidente processo de instrumentalização dos media em curso, pondo em causa funcionamento da democracia. Sampaio visita homólogo italiano.

Ainda Falta:

Santana vende todos os edifícios públicos, incluindo o Palácio de Belém. Sampaio paga renda ao novo senhorio. Santana decreta pena de morte para quem evoque o sagrado nome de Sá Carneiro em vão. Sampaio deixa de comer Carneiro. Santana faz aprovar, com os votos a favor da coligação e com o apoio da facção mais socratiana do PS, nova revisão constitucional que determina ser o cargo de PM vitalício. Sampaio visita Marcelo na cadeia e é chamado à atenção publicamente por Gomes da Silva. Sampaio vem à RTP responder a Mogais Ságuemento, sendo obrigado a efectuar auto-crítica. Não contente, Santana manda Gomes da Silva calar Sampaio. De vez.

sexta-feira, novembro 12, 2004

Celebridades

Um tipo, nascido e criado em Soalheira, disse-me: Antigamente respondia, a quem me perguntasse, que era de Castelo Branco. Agora, quando me perguntam, respondo apenas: Fundão.

Magustos

Em noite de São Martinho, uma dúzia de cabouqueiros, gente de muita força e pouco mimo, acotevela-se na mesa do tacho, os mais antigos com os costados virados contra o lume da lareira, os outros, mais novos, aguentam melhor o fresco. Vivazes, bebem jeropiga, anunciada em letras bem visíveis desenhadas sobre um alvo papel de mesa, Temos "geropiga", e comem castanhas assadas. Recordam divertidos aquela vez em que o Lopes disse ao Caetano que a colher de pedreiro não engata numa Komatsu WS 150! E riem alto, comem mais castanhas e bebem mais "geropiga". Muita força e pouco mimo.

terça-feira, novembro 09, 2004

O Novo "Notícias"

Eu gosto muito do novo Diário de Notícias! Faz-me rir. E eu gosto muito de rir. Por isso, gosto muito do novo Diário de Notícias.

"Menezes acena com eleições antecipadas"

Faz-me rir. E eu gosto muito de rir. É aqui, no DN, que podemos acompanhar as tropelias de Menezes e Santana, de Gomes Silva e Jorge Borrego. E que divertidas são as suas aventuras!

sábado, novembro 06, 2004

Já ninguém esperava!

Os de Canhas de Cenorim fizeram o que já ninguém esperava: Lembraram-se do Jorge Sampaio! Levaram o costumeiro folclore para a porta do ex-Presidente, a sua afamada cegada lá regressou a Lisboa: traziam pandeiro e o iam tocando mui aflitas as mulheres que esganiçavam e mui afoitos os homens que acartavam a grande custo o andor e os mais velhos da terra iam atrás empurrando um carro com muitas pipas de vinho que mui alegres todos, eles e elas, velhos e novos, bebiam sempre como sofressem de mui grande secura e como se fosse a última pingada de uva da beira alta. Mas desta vez, os de Canhas de Cenorim ainda se superaram! Ignorantes da reforma antecipada do Sampaio, trouxeram, contando que ele ainda contasse, barris de vinho que encheram de terras do volfrâmio que agora parece que é urânio, ou guisa ou gusa ou lá o que é, enfim, em vez de encherem essas pipas com a tal pomada que vinha na carroça, foi com aquilo que as encheram!

E despejaram as terras, essas canhestras gentes que julgam ainda estar Salazar vivo e Sampaio no poleiro, e cantando junto ao pandeiro, sentindo o cheiro da febra assada e da broa de centeio, com as faces bem rosadas esganiçaram mais ainda as mulheres e vociferaram risonhos os homens e os gaiatos! Canhas voltou à cidade!

Entretanto, lá, não se sabe bem onde, Sampaio verteu mais uma das suas costumeiras lágrimas: Estes, ao menos, ainda me respeitam, ainda me levam a sério, terá pensado, olha, parece que trazem um boneco com a minha figura! E que o vão queimar! Com os olhos rasos de água, comovido, Sampaio sentiu-se como se ainda fosse o Presidente. E, naquele momento, à sua maneira, ainda o era.

(Procurei por todas as páginas de informação nacional da internet e já todas haviam retirado a notícia. Não arranjei assim a desejada fotografia. Parece que já se esqueceram de si outra vez, senhor Sampaio!)

quinta-feira, novembro 04, 2004

E o segundo pior vai para...

Confirma-se a pior das espectativas para o povo americano. Têm o pior Chefe de Estado do Mundo: O Bush ganhou outra vez. Pior Chefe de Estado? Isto não me soa bem... Não! Que cabeça a minha! Os EUA têm, isso sim, o segundo pior Chefe de Estado do planeta!

segunda-feira, novembro 01, 2004

Israel

Hoje, em Tel Aviv, um bombista suicída matou pelo menos três pessoas num mercado apinhado de gente.



Há muitos anos que vemos imagens semelhantes a estas. Há demasiado tempo. Mas não há maneira de nos habituarmos a elas. Por mais que se repitam, ano após ano, década após década. Nunca será, nem poderá ser, algo de normal: Já estamos em Novembro e aquela gente ainda anda de manga curta!

sexta-feira, outubro 29, 2004

Aniversários

Poucas coisas serão tão patetas como comemorar aniversários. Poucas. E, por isso mesmo, não tenho o hábito de assinalar aniversários de blogues aqui no Meia Livraria. E, novamente por isso mesmo, não direi palavra sobre o aniversário do brilhante Rua da Judiaria. Ainda que por estes últimos tempos tenha passado as semanas por terras de Sabugal e de Belmonte.

E não direi como por lá se diz: Bem Haja, Nuno Guerreiro!

A Sibéria

Numa mina de carvão siberiana houve, esta semana, um tenebroso acidente que matou, pelo menos, treze pessoas e feriu mais de vinte. Vi as imagens desta catástrofe na televisão e, por mais que se repitam episódios deste tipo, não pude deixar de ficar surpreendido com o que vi: Ainda estamos em Outubro e já cai neve na Sibéria!

segunda-feira, outubro 25, 2004

Alinhamento

Aqueles que têm TV Cabo em casa, terão recebido na semana passada uma carta da TV Cabo, pois claro, com a inevitável continha. Mas, desta vez, trazia também uma pérola disfarçada de folheto informativo.

Essa circular visava o assunto: "Novo ALINHAMENTO de Canais no Serviço Analógico". Ao lê-la fica-se a saber que por estas razões e por aquelas, se altera o ALINHAMENTO dos canais, e por aí fora. E onde está então a pérola? Leia-se a última frase: "Continuamos a investir para lhe oferecer mais e melhor serviço. Por si, vamos ALINHAR com o futuro."

E assina: M. Cunha.

Não é preciso ninguém para ajudar o Meritíssimo Senhor Juíz? Leve o M. Cunha, da Direcção Geral de Marketing da TV CABO! E obrigue-o a ALINHAR!

sábado, outubro 23, 2004

Porque não?

E se o Presidente da República, nos seus tempos mortos, que ainda serão alguns, auxiliasse, no que fosse necessário, Luís Delgado? Sampaio seria valiosíssimo na laboriosa escolha da metáfora laudatória, do encómio elegante, para uso de Delgado nas suas lides de arauto e louvador-mor de Sua Senhoria o Primeiro Ministro Santana.

São conhecidas as técnicas literárias do Senhor Presidente! Ele podia ajudar! Assim, poupavam-se uns cobres, seguramente Sampaio não se importaria, receberia apenas o vencimento de Presidente. Aliás, ele não deve ter, sequer, livro de recibos verdes!

Resolver-se-ia o problema do Presidente. Mas, e os bolseiros universitários? Que apenas investigam sabe-se lá o quê e com que propósito? E que, às vezes, nem aulas têm que dar nem receber? Lembram-se dos incêndios? Lembram-se das matas por limpar? Já viram tudo: dois e dois são quatro, toca de limpar as matas, corja de calões! Com tanto tempo livre! E, de resto, como tão bem se pensava nos tempos em que Sua Santidade Sá Carneiro se alapava nos bancos da Assembleia Nacional, "Estudar para quê? Eu cá nunca estudei e sempre me soube governar! Estudar para burros, é o que é! Vão mas é limpar as matas!"

Deixo humildemente estas duas sugestões e espero que Sua Senhoria o Santana me leia a Meia Livraria e se, um destes dias depois da sesta, ainda que se não lembrando de onde lhe vieram as ideias, alvitrar à comunicação social qualquer um dos meus desvairados aventamentos, então terá valido a pena ter vivido!

E cá vai, para finalizar, a minha divisa: "Deus primeiro, a Pátria depois e, logo de seguida, muito perto da segunda, a Família."

quinta-feira, outubro 21, 2004

Pastelarias

Numa pastelaria moderna, algures no centro do Sabugal, um tipo de pêra branca e chapéu flácido mirava, sonolento, um bloco de notas de capa preta. Na mesma mesa, uma senhora de gola alta, roxa como as luzes da pastelaria, roxa a gola e a camisa, claro fique, não a senhora que por estas bandas são sempre as senhoras brancas e de róseas faces, olhava fixamente, por trás dos enormes óculos, com a cabeça estranhamente enfiada dentro de um cordão dourado, mirava, dizia eu, a vitrine dos bolos. Alguns bem vistosos, aliás. Ao balcão, de pé, sorvi um café em chávena fina, muito bem tirado. De onde se tirou não sei, sei que não dos pedregosos lameiros da beira longínqua.

domingo, outubro 17, 2004

Emocionante

O Mundo inteiro aguarda com ansiedade pelo final do encontro. Quem vencerá? A prova está ao rubro, ontem quase se resolvia, mas não, há que esperar por segunda-feira. Como passar este domingo? Cá me arranjarei, mas mal posso esperar pela última partida do match Kramnik-Leko, que determinará um dos finalistas do há muito esperado campeonato do Mundo de Xadrez reunificado. (Desde 1993)

Tenho a certeza que por este Portugal fora não se falará hoje de outra coisa!

quinta-feira, outubro 14, 2004

Prodigioso!

Ontem aconteceu, no estádio Alvalade XXI, algo de absolutamente inesperado. Algo que só acontece de 20 em 20 anos! Uma vitória da equipa da casa frente a um adversário de peso por 7-1!

7-1 no Alvalade XXI. Rima e deixa 4 000 000 de portugueses radiantes e cerca de 6 000 000 moderadamente satisfeitos (parece que os ouço, Chegavam 6... ou, Se fossem 8 era melhor...).

quarta-feira, outubro 13, 2004

Saloio

Tempos houve em que um tipo, só por ser saloio, sofria as mais atrozes humilhações, era alvo de chacota mais ou menos discreta, enfim, passava uns maus bocados às mãos dos da cidade. Esses tempos acabaram e a prová-lo esteve o comunicado de segunda-feira efectuado pelo Saloio. Com a fita no pulso e discurso de taberna, o Saloio ultrapassou-se, nisto imitando a selecção de todos nós no passado sábado. E mesmo mostrando-se assim, tão parolo, o Saloio foi à televisão, foi levado a sério e filmado até ao fim. E visto por muitos que não ousaram fazer chacota!

sexta-feira, outubro 08, 2004

Prefiro as Pastilhas

Sentado num café, na vetusta vila de Sortelha, aguardava o meu "mojito". Entretanto, um ancião enrolava um charuto que não tinha só folhas de tabaco. Ele mirava-me de soslaio. Fingi que não o vi, ou melhor, fiz de conta que não percebi o que aquelas nodosas mãos faziam.

Momentos antes, um autocarro fretado pelo lar "Mayores de Nueva Roda de Alicante" avariara na A23. A pé, fartos de esperar pela reparação, um bando de 7 almas chegara ao café onde ainda esperava o "mojito". Uma senhora idosa, de manga cava, vinha no grupo e apresentava, com a marca nicorette, um adesivo de nicotina no braço direito, quase no ombro. Deve ser canhota, pensei. E perguntei-lhe pelos sucessos da panaceia, respondeu-me em espanhol, Com a placa não dá para comer as pastilhas. Compreendi e, cúmplice, dei-lhe o meu "mojito" que entretanto chegara. Adivinhou o que eu lhe perguntaria de seguida! Ainda assim, disse-lhe no meu melhor castelhano, Cara amiga, comigo, as pastilhas foram tiro e queda. Eu, como ela, prefiro as pastilhas de nicotina aos adesivos. Pedi outro "mojito" para mim e a Dona Escolástica, dona do estabelecimento, lá teve de sair novamente para apanhar outro punhado de hortelã.

quinta-feira, outubro 07, 2004

Prémio Nobel

Pois é, caro Antunes, ainda não é desta. O bairro de Benfica ainda vai esperar pelo menos outro ano pela merecida projecção Mundial. E a tasca do Manuel e a mercearia da Dona Joana também.

É Pena.

Parabéns Elfriede Jelinek!

terça-feira, outubro 05, 2004

5 de Outubro de 19 e 104

94 anos de república. 30 dos quais em democracia plural. E tudo isto para quê? Para termos o Sr. Almirante a fazer de Raínha de Inglaterra? O 5 de Outubro de Mil nove e cento e quatro é o mais negro das últimas décadas.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Pontes

Até à data, a maior e mais dispendiosa obra do governo de Barroso/Lopes foi uma ponte. Foi a ponte de hoje. É ciência conhecida: Nada como umas pontes para espevitar a economia!

sexta-feira, outubro 01, 2004

Outra Tentativa

"Só a falta de vento o aborrecia verdadeiramente. A um homem do litoral, nem mar, nem luz, nem gente, nem som, é o vento que lhe custa deixar. Nem amigos, nem família, nem a noiva que deixara de o ser, lhe faziam tanta falta. Nem mesmo os cafés onde bebia hoje e pagava amanhã o fariam percorrer as estradas que o separavam da grande urbe. Nem mesmo o Snack-Bar do Maneta!"

Irra!

quinta-feira, setembro 30, 2004

Arranque de Romance

Tentei uma vez mais escrever um romance. E, uma vez mais, deparei-me com uma irritante dificuldade em vencer o primeiro parágrafo. Mas, bem intencionado, lá comecei a obra:

"Aborrecido com a chuva, António deixava-se ficar no minúsculo café, encostado à húmida parede coberta de azulejos. Ainda sequioso, berrou para o balcão, Outra água com gás, por favor, sim, pode ser fresca, pedras está muito bem. A mesa era tão pequena que não lhe permitia abrir o jornal e livros não trouxera. A chuva mostrava-se impiedosa e António, suado, culpado o calor que durante todo o ano aquece Lisboa, perdia a paciência. No entanto, o galhofeiro e encharcado anão que acabara de entrar no café prometia melhorar-lhe o ânimo. António não conseguiu disfarçar um malandro sorriso."

Raios! Descambou, outra vez! A entrada do anão é fatal para a seriedade do texto! É o que ocorre sempre que me decido a escrever uma obra de vulto.

quarta-feira, setembro 29, 2004

Comboios

Há muito que não andava de comboio e, num destes dias, cometi o clássico deslize: levei camisa azul clara e calças, também azuis, mas mais escuras, para o suburbano Alverca-Massamá. O resultado foi o esperado, dezenas de utentes mostraram-me o passe e, pelo menos outros tantos, deram-me os seus bilhetes para a mão.

Desenrasquei-me como pude, não tenho aquele aparelho para picar os bilhetes. Felizmente trazia um pequeno furador na mala. Foi o que me safou.

O Pequenito Saúl

Está de volta o ícone pop nacional, "Pequenito Saúl"! Com um novo trabalho intitulado "As Bolas do Snooker". Foi no genial Clube de Fãs do José Cid que soube da boa nova.

Para adoçar a boca, deixo aqui a lista dos temas do álbum:

1 - As bolas do snooker
2 - Vai lá vai (a barraca abana)
3 - Ele é bombeiro
4 - A senhora em top less
5 - Mais abaixo, mais acima
6 - Alentejano, benfiquista
7 - O rôto e ONU
8 - O cuco da Maria
9 - O galo ditador
10 - Dou-lhe cabo do rêgo
11 - Safo da tropa
12 - Zeca gado
13 - Jacinto Leite

Obrigado por teres voltado, pequenito Saúl!

segunda-feira, setembro 27, 2004

Romarias

Por estes dias, tem a nossa gente dedicado muito do pouco que pensa, e quase tudo do muito que fala, ao caso da menina Joana, presumivelmente assassinada pela sua mãe, ou pelo seu tio, ou pelos dois em simultâneo, ou por outra pessoa qualquer, ou por ninguém, ou por toda a gente.

À recôndita terriola acudiram as gentes, em grossas e ululantes turbas, verdadeiras romarias em busca de escaninho santo ou enterrado milagre, ou de cheiro a cadáver, no fundo, na demanda pelo entretém. Revoltada, a chusma clama vingança, pede um par de minutos com os inumanos, o inulto rancho quer arrancar as coriáceas peles das abjectas criaturas.

Nisto, mete-se outra efeméride, outra romaria, outra feira, e, já esquecida desta, vira-se a horda para a nova, para donde sopra o nauseoso e opiáceo cheiro da morte.

Os Sonhos de Santana

Foi no Blogue do Tino de Rans que li, numa janela com notícias flutuantes, que o PM Santana Lopes sonha com a presidência dos EUA! E sorri, com alegria. Não ri com gosto, não ri com o ridículo da situação. Sorri, porque Lopes não nasceu nos EUA e não pode ser presidente desse país. E, aiviado, feliz, sorri.

Mas sei que tivesse Lopes nascido no Texas ou no Nebraska e seria o próximo PR do EUA. Porque o povo norte-americano é tão, ou mais, estúpido e ignorante que o português. Bem, quase tão estúpido, não exageremos e deixemo-nos de falsas modéstias.

sábado, setembro 25, 2004

Duplas da TV

Ao que tudo indica, temos uma famosa dupla televisiva, Santana Lopes e José Sócrates, nos mais destacados cargos políticos nacionais, chefe do governo e líder da oposição, respectivamente. Alguns dirão, agoniados: Isto é péssimo! Outros, furiosos, gritarão: É uma palhaçada! E terão razão, mas nem tudo está perdido.

Perdido estaria se tivéssemos no poder outra famosa dupla televisiva: Santana Lopes e Torres Couto! Lembram-se? Ou, convenhamos, ainda pior: Herman José e Nicolau Breyner, do divertido Senhor Feliz e Senhor Contente. Portanto, não desanimemos e oremos ao Senhor em agradecimento.

quinta-feira, setembro 23, 2004

Uma Tarde no Coliseu

O Sol brilhava forte no céu, queimando, molemente como sempre queima o Sol, metade dos que esperavam pelo combate de gladiadores. Severo, o magnífico imperador de Roma, também lá estava, em cavaqueira com os seus chegados, alegre e folião. O líder de Roma adorava os jogos!

Quando a imperial figura assistia aos jogos, sabia a organização como lhe agradar, juntava um punhado de anões, colocava uns cestos no cimo de paus com a altura de dois homens, dividia os anões em dois grupos, trazia uma bola grande, saltitona, e começava o jogo! (Que tanto divertia o Imperador!) O objectivo era simples: fazer a bola entrar no cesto. Jogava-se durante cinco voltas da ampulheta, valia tudo, e quem mais vezes fizesse a bola atravessar o aro do cesto, vencia a partida. Os derrotados, claro está, serviam de pasto a leões, panteras e tigres devidamente esfomeados. Os vencedores eram tratados como heróis, chegando, em dias de maior folia, a entrar na arena uns quantos matulões que, galhofeiros, se entretinham a arremessar os anões que, muito felizes, riam por lhes ter sorrido a sorte da vitória.

Entretanto, o público rejubilava! As gentes gostam de espectáculos com anões! E o imperador sabia-o bem! Em breve entrariam os gladiadores, prato forte de mais uma bela tarde no Coliseu.

Coitadinhos dos Reféns

Todos os dias surgem, nos noticiários televisivos e nos jornais, novidades do Iraque dando conta de mais um rapto ou de mais uma execução de um refém. E quem são esses reféns? Gente das organizações humanitárias, jornalistas e engenheiros civis. Gente que vai para o Iraque em busca de aventura, de prestígio, de dinheiro, ou ainda gente empurrada pelas suas alminhas piedosas.

Em comum, todos têm algo: põem-se a jeito.

quarta-feira, setembro 22, 2004

UM DÓ LI TÁ

Não sei se é assim que se escreve a letra da cantilena, mas é esta a minha sugestão para a colocação de professores. Penso que segue com "cara de amendoá", e no fim, "quem está livre, livre está". Pleonástico quanto baste, assim são as cantilenas infantis.

segunda-feira, setembro 20, 2004

Corto Maltese

O Meia Livraria saúda o jornal Público pela sua brilhante ideia de publicar às segundas o Corto Maltese. São coisas assim, as que quase salvam um país.


Corto Maltese, de Hugo Pratt.

domingo, setembro 19, 2004

O Marcelo

Hoje vi o Professor Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. E gostei. Gostei muito. Marcelo estava feliz, faiscavam-lhe os olhos, radiantes, falava escorreitamente e de modo seguro, sabia do que tratava, saíam-lhe as ideias límpidas e pertinentes. Dizimou Guedes e Barreto, a dupla desavinda do governo, pôs a nu um elevado número de incongruências santanosas, denunciou-lhe, ao Lopes, uma vez mais as falabaratices, as tonterias, enfim, esmagou alegremente a troante parvoíce do nosso primeiro.

Como um guerreiro celestial, cavalgou os sete céus, atacando as tropas desorientadas do inimigo, desferindo luminosos raios, tão intensos que permitem ver-se em noite santanenta como em dia claro, golpeando a inabilidade, castigando a incompetência. Sobrou-lhe ainda tempo para espezinhar o Almirante Sampaio, para gracejar com a já muito risível trindade socialista... E é tão fácil, Marcelo, isto nem chega a dar luta, não é? O Meia Livraria está contigo, ó Grande Líder da Oposição!

sexta-feira, setembro 17, 2004

Os Animais

Após o bárbaro espectáculo desta semana, oferecido pelos caçadores de raposas ingleses, ocorre-me que a vida de raposa deve ser difícil para aquelas bandas. Talvez tão complicada como a de um boi na sanguinária vila de Barrancos.

Cá, como lá, a maior alegria (e até justificação existencial) de algumas pessoas, consiste em assassinar grotescamente um animal acossado. Mas Barrancos não me traz só horror e carnificina à memória. Traz-me também o Parceiro Américo Sampaio! O parceiro de Santana e Companhia tinha dado o alerta há alguns anos atrás, mas poucos ligaram, ou compreenderam o sinal.

Neste desumano e atroz episódio da nossa triste história, o Parceiro Américo Sampaio já metera o bedelho, contribuindo para a manutenção da estúpida barbárie. Nessa altura, como há um par de meses, o Sr. Almirante optou pela conduta reaccionária e cobarde, pela forma gelatinosa que veio afinal a revelar com tanta clareza nesta última pusilanimidade.

(Nota: Para os menos atentos, o novo título do Sampaio, "Parceiro", foi-lhe outorgado por Morais Sarmento que, não disse mas pensou, o nosso Santana Lopes será o Batman, e o Jorge Sampaio será o Robin.)

Distâncias

O advento do MP3 veio encurtar as distâncias. Nos velhos tempos da Cassete, dava a dita três voltas completas antes que o condutor chegasse ao Porto, saindo de Lisboa. Hoje, com o MP3, vai um tipo de Lisboa a Paris, respeitando os limites de velocidade, claro, e chega lá com o segundo disco a meio. Dependendo do que lá esteja gravado, pode ou não definir-se a viagem como curta, mas essa será outra conversa.

Cidades

Há quem goste do campo, quem prefira a praia, há ainda quem adore montanha. Há quem prefira o mar para viver, a bordo de algum luxuoso iate. Há quem procure montes no Alentejo ou casas rústicas em Trás-os-Montes. Eu não. Eu gosto é de cidades! E gosto mais de umas que de outras, é claro. Mas entre todas elas, as de que gosto mais são as minhas. As que eu criei. No Civilization, no SimCity e no Caeser.

terça-feira, setembro 14, 2004

Uma trupe tão gira

Foi com alegre surpresa que vi na televisão um conjunto de entrevistas feitas a fãs da Madonna. Mostraram vinís, gorros, bilhetes de concertos antigos e recentes, bugiganga variada, enfim, um sortido de peças valiosíssimas! A excitação era o denominador comum, contagiante e colorida, que resultava em espontâneas cantorias de hits da diva. Tão envolvente era essa alegria que chegou a contaminar os fleumáticos e exigentes jornalistas lusitanos! Veja-se que até um tipo australiano, bom dançarino por sinal, chegou às primeiras páginas dos jornais generalistas portugueses, tal foi a impressão que causou a sua devoção à Madonna! Uma trupe tão gira, essa dos fãs e dos jornalistas!

Quase 10800 Visitas!

O Meia Livraria está todo contente! Faltam menos de 1000 visitas para chegar ao mítico número: 10800! Dá que pensar, tivéssemos nós, os humanos, 8 dedos em cada mão e seria 17000 o número mágico! Ainda bem que só temos 5,4.

sábado, setembro 11, 2004

11 de Setembro - A Luta Avança

Há precisamente 3 anos que dois aviões comerciais se despenharam nas torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque, desviados por terroristas suicidas, causando a morte a milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, outras aeronaves eram desviadas por islamitas nos céus dos EUA, visando outros alvos, vindo igualmente a cair, levando a vida de mais algumas centenas de seres humanos.

Estes actos bárbaros ocorreram no dia 11 de Setembro de 2001, terça-feira. Acontece que, volvidos 3 anos, o dia 11 de Setembro é um sábado. Registe-se, ainda que sem excessiva euforia, o avanço que a luta contra o terrorismo registou neste período: Se o atentado fosse hoje, 11 de Setembro de 2004, muitas vidas seriam poupadas em relação ao assalto de 2001. É que há muito menos gente a trabalhar ao sábado e as torres teriam uma ocupação reduzidíssima, logo, as baixas seriam substancialmente inferiores.

sexta-feira, setembro 10, 2004

Precauções

Hoje é dia 10 de Setembro, véspera do "nine eleven" de má memória. E a propósito dessa efeméride andaram as gentes das rádios em busca da vox populi no jeito de quem caça pérolas com a certeza de sucesso. E se ouviram a Dona Cecília confessar que, desde o 11 de Setembro de 2001, tem tomado mais precauções, que tem andado mais alerta, de olhos mais abertos, se ouviram, dizia eu, a Dona Cecília partilhar os seus compreensíveis medos e métodos preventivos com a assustada população, então, quase que se pode dizer, e passo a monstruosidade, que valeu a pena.

quarta-feira, setembro 08, 2004

Só?

A Associação Portuguesa Maternidade e Vida (APMV) pediu ao Procurador Geral da República, o Inefável Moura, que mandasse prender de imediato a malvada Rebecca Gomperts! Repito: a APMV defende que Rebecca deve ser "detida de imediato"!

O Meia Livraria acha pouco e pede mais: Vague-se o Terreiro do Paço; Arrebanhe-se lenha; Acenda-se a fogueira! Queime-se a bruxa; Oremos ao Senhor!

segunda-feira, setembro 06, 2004

Os Marinheiros

Imagino como será a vida a bordo da corveta que vigia o nefasto barco do aborto, o comandante Ildefonso Pires, ou Adérito Assunção, ou Simplício Antunes, ou lá como se chama, deve estar ufano com esta sua nobre e difícil missão. A azáfama na sala dos radares deve ser mais que muita! O Mendes das 8 às 16, o Lopes das 16 às 24 e o Mendonça das 0 às 8, asseguram o controlo de todos os passos do inimigo. Na ponte, o Comandante Pires, coordena a sala de radares e o centro de lançamento de torpedos. O botão vermelho está a postos. Basta um gesto do Comandante e o botão é premido. O torpedo dividirá o casco da embarcação inimiga em duas partes aproximadamente iguais. Em menos de hora e meia nada restará do veículo do Mal. De joelhos, com um terço de quilo na mão, perto da sua boquinha delicada de lábios finos, o ministro fechará delicadamente os olhos e orará a Nossa Senhora, oferecendo-lhe o sacrifício dos ímpios.

Mais longe, nalguma inauguração de alguma casa do povo, o Senhor Presidente Almirante Américo Sampaio será posteriormente informado. Se algum dos seus assessores estiver em casa, a ver televisão.

Ditosa a Pátria que tais filhos tem.

domingo, setembro 05, 2004

Os Flamingos de Picasso

Na semana passada visitei a casa de Pablo Picasso em Málaga. Muito bonita e lindamente decorada com litografias do próprio dono, estava bem guardada por gente fardada e possuía no hall uma luzente placa de bronze com o nome dos reis João e Sofia! Mesmo assim, o que mais me impressionou foi a decoração do seu estúdio: em cima de um móvel estava um casal de flamingos embalsamados (ou empalhados)!

O intrigante de tudo isto é que, dois dias antes, estive no Parque Natural de Cabo de Gata - Níjar (costa de Almería), onde pude avistar ao longe uns quantos flamingos (ou semelhantes aves pernaltas, ornitologia e taxidermia não são especialidades da Meia Livraria) ainda por embalsamar. Falem-me agora em coincidências!


Ao fundo, em cima do armário, lá estão eles!

Desconfiança Blogosférica

Tenho este hábito: Desconfiar de todos os blogues com mais linhas de enlaces que de texto blogado. E quero cultivar nos leitores este espírito crítico e, não vale a pena escondê-lo, perspicaz.

sábado, agosto 28, 2004

Granada

Emborcando beleza e tintos de verano, passo estes dias na cidade de Granada. No entanto, um cibercafé aberto em hora de siesta trouxe-me por instantes de volta ao Meia Livraria. E deixo aqui um dito granadino devidamente traduzido: "Dá a esmola ao ceguinho, mulher, porque nao há maior desgraça que ser cego em Granada."

quinta-feira, agosto 26, 2004

O Dedo Mindinho

O Meia Livraria quer deixar aos seus leitores um útil conselho: Quando cortarem as suas unhas dos dedos das mãos, comecem a operação pelo dedo mindinho. Imagine o leitor que lhe sucede algo de daninho e nefasto a meio do corte das unhas. Imagine ainda que começou a tarefa, digamos, pelo polegar, e que lhe falta só cortar a longa unha do dedo mais pequeno. Imagine a impressão que causará numa mesa de operações, numa marquesa de alumínio, ou, pior, frente a um São Pedro.

Por isso, não se esqueça: O mindinho primeiro!

quarta-feira, agosto 25, 2004

Prontos!

E prontos! Já cá canta a terceira medalha! Foi Rui Silva quem a ganhou e em sua homenagem repito: prontos!


Prontos, já passei mais um!

terça-feira, agosto 24, 2004

Francis OBIKWELO

Ainda em criança, com apenas 16 aninhos, o pequeno Francis viu-se abandonado em Portugal. Recolhido por uma simpática família, comovida com a fragilidade do Francisquinho, cuja altura não superava os 191 cm, fez a sua carreira no atletismo ao serviço do Belenenses e do Sporting Clube de Portugal. E até ao ano 2000 representou o seu país de nascimento, a Nigéria. Em 2001 escolheu ser português. E ainda bem.

A sua condição recente de herói olímpico traz, no entanto, problemas insolúveis: como lidará o simples transeunte, o habitual popular, o vulgar cidadão de rua, enfim, aquela rapaziada que é sempre entrevistada por aquelas pequenas que a RTP tem nas suas fileiras e que aparecem sempre nestes eventos desportivos, dizia eu, como lidará o nosso popular com o nome do nosso campeão? Deixo aqui uns palpites:

1) Versão geométrica:
"O Obliquelo é dos meus, eu também dedicava a medalha aos deficientes!"

2) Versão bancária:
"O Bico Melo é uma máquina e vai arrecadar os 200m!"

3) Versão cigana:
"O Bico Lelo é um duplo orgulho para Portugal. É português e ninguém o obrigou a isso."

4) Versão cinegética:
"Corre como uma lebre, aquele Obi Coelho!"

(Nota: O nome do nosso campeão é OBIKWELU e não OBIKWELO. No título, o nome já está aportuguesado.)

segunda-feira, agosto 23, 2004

Submarinos e Barcos de Dois Canos

O navio do Mal aproximava-se da costa do país de Bem. Comprados havia pouco tempo, em regime de leasing, dois submarinos partiram das profundezas do Tejo. No gabinete em São Pedro do Estoril, o ministro do mar passava a fina mão pelo longo nariz. Valeu a pena esta compra, pensou. O barco maldito não passará.

Na sua cabeça ecoava, pungente e indesejado, o refrão de uma há muito esquecida melodia de Jorge Palma: "No Barco do Aborto podes ser quem tu és; Ninguém te leva a mal..." Enquanto isso, saíam a 240 km/hora dois torpedos de modelo muito em voga na guerra da Coreia e muito em conta no mercado de Youngstown, em direcção ao indefeso casco da nefasta embarcação.

sábado, agosto 21, 2004

Pedras de Litro

Albertino Monteiro comprara, num supermercado perto da sua casa, uma garrafa de água das pedras de litro. Qualquer coisa de estranho lhe passara pela cabeça, para se permitir a semelhante extravagância! Enquanto caminhava com a sua nova garrafa bem aconchegada num saco de plástico, Albertino fazia planos. Qual seria a altura oportuna para a beber, interrogava-se. Mas várias dúvidas o assaltavam durante o percurso, aquilo depois de aberto tem de se beber em seguida, matutava, caso contrário perde o gás! E se não consigo beber tudo? Mais valia ter comprado 3 das pequenas _ fustigava-se com o látego do arrependimento _ mas hei-de conseguir bebê-la toda, convencia-se.

Por fim chegara o grande dia. A garrafa estava já na segunda semana de refrigeração, ponto exacto para servir o seu propósito: ser bebida. Albertino pensara todo o dia na grande ocasião. Escolhera este dia por ser especial, comemorava-se o 64º aniversário da morte de Trotsky. Lanchara bem, era essencial, mas nada de líquidos! Teria um litro de água mineral natural gasocarbónica pela frente! Até o seu colega, o Antunes, comentara: "Estás cheio de fome, ó Monteiro, e não bebes nada!"

Nervoso, abriu o frigorífico, retirou a verde garrafa de vidro, estava tão fresquinha, estas coisas só sabem bem feitas assim, pensou, trouxe o seu copo especial e sentou-se no sofá da sala, enchendo delicadamente o copo com a água das Pedras Salgadas. Cuidadosamente, voltou a fechar a garrafa, para nela melhor suster o gás, e bebeu pausadamente o primeiro copo. No aparelho de televisão crepitava a voz do humorista Fernando Mendes. O "Preço Certo em Euros" estava nos seus primeiros acordes, afinal ainda era cedo. A noite prometia e era de Albertino.

Os Irmãos Harper

Há alguns meses, um indivíduo dirigiu-se à FNAC do Chiado, procurando um álbum de Roy Harper. Perguntou à jovem empregada: "O que é que tem de Roy Harper?" e ouviu a inevitável resposta, "Acho que nada, mas temos ali muita coisa de Ben Harper!".

O indivíduo retorquiu, "Deixe estar, nesse caso levo aquele CD com o Concerto para Harper de A. F. Boildieu!".

Revista Gina

Esta semana comprei uma revista de jogos de computador. Trazia uns discos com demos e jogos completos, bem como todas as novidades no mundo dos jogos para PC e consolas. Ao ler a revista ocorreu-me que nunca irira comprar nenhum daqueles jogos e que, ainda que o fizesse, não teria qualquer disponibilidade para os jogar. Sou um ludómano reformado.

Antes de pousar, nostálgico e entristecido, a tal publicação de jogos de computador, lembrei-me do gesto que um octagenário faria ao pousar, desolado, um exemplar recém comprado da revista Gina.

quarta-feira, agosto 18, 2004

Os Jogos e os Portugueses

A comitiva portuguesa em Atenas divide-se em dois grupos fundamentais: os desportistas e os jogadores de futebol. O primeiro grupo conhece o espírito olímpico, o segundo, não sabe o que isso é. Eles não se misturam.

Imagine, quem duvide da divisão, alguém do primeiro grupo a agredir um adversário. À cotovelada, por exemplo. Imagine o nosso atirador a disparar contra um adversário. Imagine o corredor a rasteirar outro corredor. Imagine o Maia e o Brenha derrubando o árbitro por um fora mal marcado. Também acontece, mas passam-se Olimpíadas inteiras sem que um desses incidentes ocorra.

Há ainda um outro factor de cisão: as vitórias. Se no grupo dos desportistas as vitórias são escassas, ocorrem, não obstante. O grupo dos futebolistas é famoso por nunca ganhar. É também conhecido pela correcção dos seus elementos e irreprensível comportamento dentro e fora dos relvados (lembrar a destruição comemorativa de um balneário em França).

Os do primeiro grupo nunca perdem. "Queria ficar nos 16 primeiros, fiquei em 15º, não foi mau." São objectivos, sinceros, lutadores, dão o seu melhor. Os do segundo grupo perdem sempre, porque são arruaceiros, mal educados, mal formados, pedantes e extraordinariamente parvos. E estão, infelizmente, de regresso a Portugal. Não vou esperá-los ao aeroporto.

domingo, agosto 15, 2004

A Imprensa no Bom Caminho

De onde menos se esperava surgiu nesta semana um assalto benfazejo e reinadio contra as principais figuras do moderno e amado Estado Novo! Da TV 7 Dias (que passei agora a assinar), surge a brilhante capa, com a célebre, ainda que um pouco esquecida, fotografia do Senhor Presidente do Conselho, Prof. António de Oliveira Santana Lopes, de lenço atado na inteligente testa! O pândego! (Roubada ao Melhor que Prozac!!!.)


O Senhor Presidente do Conselho também sabe ser galhofeiro!

Do Expresso surge a genial caricatura ao nosso Presidente da República, o Almirante Américo Sampaio, transfigurado em Raínha de Inglaterra. O nosso Almirante não terá levado a mal, claro! (Afinal, alguém se lembrou de si!)


Abertura dos Jogos - Raínha de Inglaterra de António.

domingo, agosto 08, 2004

Uma Questão de Humor

Vozes puras e angelicais condenam o fedorento gato Góis pelo seu mais recente artigo. Grasnam nervosos que o humor tem limites e que o bom gosto assim e assado, e que são uns bandidos e só se aproveita o RAP, em suma, balem, enfurecidos, contra o pobre e injustiçado Góis!

Foi no blogue "A Memória Inventada" que me deparei, espantado, com aquelas ofendidas e piedosas alminhas! Não apenas o autor da invectiva, também 8 comentadores se ofenderam com o facto de Miguel Góis ter caçoado do senhor aleijadinho (Hawking)! Abençoadas criaturas!

Não percebem que são eles quem separa, quem divide, quem arreda, que são eles que dizem "não deveides gozar com o senhor deficiente!". Pensar que o século XXI é igual a XX + I é não conhecer esta gente. Gente demasiado escuteira que pensa prestar grande serviço aos que são de alguma forma diminuídos, ao livrá-los da ridicularia em que por vezes incorrem. Esquecem-se estas alminhas da condição humana do alvo da sua palonça caridade.

Fosse eu aleijadinho e saberia sugerir lugar para tão piedoso rolo de caridade.
Os Bairros e Carlos Paredes

Há 20 anos, no bairro onde moro agora, não havia qualquer prédio. Só oliveiras. É certo que o campo era pouco, as árvores estavam condenadas, enfim, resta hoje apenas uma praça onde algumas delas foram poupadas.

Por alguma estranha razão, ao ouvir agora Carlos Paredes, pareceu-me estar agora o meu prédio em pleno oliveiral. E até o céu de Agosto, que estava cinzento e traiçoeiro, acordou para mais consentâneas cores azuis. Ofuscado pela luz que não existia, levantei-me para mirar o arvoredo há muito desaparecido.
É Realmente Engraçado

Fui espreitar o Blog Sócrates e ri-me com gosto. Ri-me e fiquei pensativo logo a seguir. Encolhi os ombros, escrevi este artigo, dou os parabéns ao autor e, de repente, perdi a vontade de rir. O problema é que, de facto, o blogue em questão tem piada e tem razão.

sexta-feira, agosto 06, 2004

O Estranho Universo das Esplanadas

Portugal é um país de clima ameno, onde chove pouco, e é, como tal, um país de espalanadas. No Verão, enchem-se as praças das cidades que têm praças, enchem-se os passeios das que não as têm, tudo se enche de cadeiras e mesas, de chapéus de sol, de turistas e copos de imperial, enfim, de esplanadas!

Mas conhecerão os habituais utentes de esplanadas a realidade por trás dos chapéus de sol? Provavelmente não! Fonte segura deu-me a conhecer diversos acontecimentos que habitualmente ocorrem nestes insuspeitos lugares. O incauto leitor, desconhecerá ou só ao de leve suspeitará que quando um cidadão sózinho, qualquer que seja, do sexo masculino, com idade compreendida entre os 25 e os 45 anos se senta numa das mesas mais afastadas da esplanada, de preferência fora do campo de visão de alguém que esteja no interior do estabelecimento, o mais provável é que se esteja a preparar para sair sem pagar!

E quantos desconfiarão de duplas de casais emigrantes em França, regressados à lusa pátria em arrevoadas augustinas? Que abandonam as cadeiras das esplandas com valente audácia e se dirigem para "boîtes" onde planeam executar o próximo golpe? Não fora, num desses casos, a intervenção de um empregado de mesa com espírito da Royal Canadian Mounted Police (famosa pela pertinácia dos seus garbosos agentes) e os meliantes escapar-se-iam com três bicas cheias, uma em chávena escaldada e outra com adoçante, uma italiana, duas pedras, um whisky velho e uma água do castelo e uma CR&F reserva, entre os quatro buchos. Oferecendo a macieira que se tinha entornado e que se substituiu pela CR&F. Já perdoando essa! O leitor pode estar sentado, repousadamente, a menos de uma cadeira de distância dessa gente!

Muito mais se poderia contar sobre este estranho mundo! Para outra oportunidade fica a história do pequeno vigarista da mochila e a do maníaco das aberturas presenciais de cápsulas.

quarta-feira, agosto 04, 2004

Irmãos de Armas

Do que se puder espremer deste blogue, desta metade de livraria, tudo se oferecerá que seja aproveitável, que sirva ao urgente combate que se dará à porca e negra onda santanenta! Sem tréguas nem respiro! Sem dúvidas nem quartel! Conta com a minha espingarda e Vá de Retro, Santanáz!

sábado, julho 31, 2004

Ardeu

Alguns dos leitores do Meia Livraria lembrar-se-ão de um artigo que publiquei há já alguns meses, em que falava da incrível beleza da região atravessada pela autoestrada A1, no seu km 81. Para ser mais preciso, essa paisagem tão bela estendia-se até ao km 86, sensivelmente. Até à saída para a A6. Bom, acabo já:

Tudo isso ardeu.

quinta-feira, julho 29, 2004

CPLP

Viram o ar de Sampaio, o ex-Presidente da República, na cimeira da CPLP? Agastado, cansado, mas visivelmente no seu meio? Ao vê-lo pela televisão, alinhado com os chefes de estado dos outros países, ocorreu-me: podia muito bem estar ali o D. Duarte Pio, ou mesmo a Morgadinha dos Canaviais, mas não seria a mesma coisa! Nem pensar! O lugar de Sampaio é ali, nas cimeiras da CPLP! E propunha: deixe antecipadamente o palácio de Belém e tente ficar com o cargo de sub-sub-secretário da CPLP! Era um favor que fazia a essa grande organização e a todos nós. E até a si, senhor ex-Presidente da ex-República!

quarta-feira, julho 28, 2004

O Democrático Sudão

teme que uma intervenção ocidental no Darfur destabilize a região. Portanto, o Chade pode vir a ser destabilizado. O que, para o Chade, só pode ser bom.

Intervenha-se então! Como é Santana? Vamos também? Sim, Darfur! Sudão! Sabes onde é? Sim, Santana, África, pois, mas estes são muçulmanos! Não, não são árabes! Pois, Santana, pode-se ser muçulmano sem se ser árabe. Há coisas do Diabo, pois é, Santana!

segunda-feira, julho 26, 2004

Os Secretários de Estado

Vi agora a lista dos nossos Secretários de Estado. E, passo o chavão, uma vez mais, a realidade ultrapassou a mais delirante imaginação: Quem diria que teríamos o Jorge Costa e o Borrego nas Obras Públicas e Transportes? E a Teresa Caeiro que tanto defende como cultiva? E o tipo semi-analfabeto do blogue do CDS-Porto que agora é Secretário de Estado da EDUCAÇÃO? Um iletrado! Irra, que já é demais!
Quartos de Hora

Nesta passada semana, tive a oportunidade de empregar 15 minutos a observar uma obra de Miró (pouco menos que totalmente desconhecida). Encontra-se no Museu de Cádiz e inaugurou a sua secção de arte contemporânia. Secção essa que, infelizmente, não está ainda contemplada na página do museu. Coisas ibéricas. Dizia eu, passei um quarto de hora mirando um Miró, esperando ouvir o sino que quase sempre toca quando olhamos para os grandes. Não tocou. Mas passei um belo quarto de hora. Pelos vistos, vezes há em que o toque do badalo é substituído por uma suave melodia.

Infrutíferas (ainda que esmeradas) buscas, forçam-me a publicar a minha pobre fotografia desse Miró. Tristemente não encontrei melhor na rede. Cá vai, com flash e tudo:


Pinture, Joan Miró, 1950.
Uns Dias Fora

Estive uns dias fora e quando voltei dei com um país sem Carlos Paredes, a arder e com o Santana Lopes a fazer de primeiro ministro. Que pena ter voltado...

domingo, julho 18, 2004

Dúvidas

E se, afinal, nada disto fosse realmente relevante? E se, afinal, tanto fizesse ter Santanas ou Tinos de Rans ou Louçãs ou a Morgadinha dos Canaviais como PM?

Ao ver o ar sério com que Sampaio entregou ontem o governo ao bom do Lopes, ocorreu-me: estarão eles a brincar? Será isto, de facto, um país de pacotilha? Cujas figuras mais proeminentes são o Guarda-Redes Ricardo e o Fundador Luís Figo? Cujo humorista oficial continua a ser o Herman? Ou o rechonchudo Fernando Mendes?

Desconfio que o apresentador do "Preço Certo em Euros" não faria pior trabalho que o bom do Lopes. E que Sampaio lhe daria, com a mesma indiferença, o país para a mão. País que, de resto, já não é o de Sampaio.


Saíu o 100!! Mais 100 mil euros para o orçamento da saúde em 2005! Nada mau!

sábado, julho 17, 2004

O Elenco
 
Que magnífico elenco ministrial, este, o de Santana! O Bagão nas finanças, o Telmo Correia no Turismo (temos um ministério do turismo?), o Embaixador Monteiro na diplomacia, a MJ Bustorff Silva na cultura, que muito me espantou, sempre pensei que Santana quisesse acumular a "sua" pasta, a da cultura, com a de primeiro ministro, enfim, uma equipa de luxo. Estamos bem entregues.

terça-feira, julho 13, 2004

Sugestão

Humildemente, gostaria de sugerir ao nosso primeiro que descentralizasse a secretaria de estado das pescas para a traineira "O Palonço", habitualmente parqueada em Sesimbra. Ou, caso não coubessem todos os 3000 funcionários a bordo da embarcação, ocupar parte das instalações da lota.


Novas instalações da Secretaria de Estado das Pescas.

Assim, ficaria a secretaria de estado das pescas mais próximo dos principais interessados: os peixes.


Rapaziada da Secretaria de Estado na hora do recreio.

sábado, julho 10, 2004

Acção

Urge agora combater! Já passa da meia noite e ainda não ouvi tiros! Nem sirenes da polícia. Não me cheira ainda a fumo de borracha queimada, sinal que nas redondezas ainda não ardem carros.

Onde está o exército? Onde estão os milicianos? Ainda os temos! Venham daí! Liguei o aparelho de rádio, a pilhas, sintonizado no RCP, aguardo a "Grândola". A esta hora a malta já deve estar a postos, em Santarém.

Mas não podemos esperar só pelos capitães! Há que alargar a frente de combate! Os trabalhadores da Carris terão um papel determinante: basta que interrompam por uns dias a greve que dura há 48 anos de forma contínua e bastará para inundar a Capital com uma inesperada avalanche de autocarros! Ficará completamente entupida! Parará o Terreiro do Paço!

Que os taxistas abandonem o aeroporto da Portela e que vão para as ruas de Lisboa! Será o bastante para bloquear a A1 até à área de serviço da Mealhada!


Precisamos da vossa ajuda!

sexta-feira, julho 09, 2004

Vergonha

Portugal não tem Presidente da República, não tem Primeiro Ministro e não tem líder da oposição. A Portugal, já nada resta.

Tenho vergonha, muita vergonha. E nojo. Aquilo que se passou hoje é de uma gravidade gigantesca. É o maior atentado à democracia a que as últimas décadas assistiram em Portugal. É o fim da democracia. É a morte do 25 de Abril.

Em tempos vivi num país livre e democrático. Agora não. Pela primeira vez sinto que Portugal pode caír num negro buraco. Muito negro. Prevejo o pior.

(Alguém me arranja trabalho a lavar retretes em França?)


Talvez este não fosse pior...
Será?

Será que também o Sr. Sampaio, ex-presidente da república, dava um bom lavador de retrete? Ou será que vai agora para porteiro duma das discotecas frequentadas pelo Sr. Santana?

quinta-feira, julho 08, 2004

Porteiros e Lavadores de Retrete

Desde as diásporas de meados do século XX para França, Alemanha, Suiça e Luxemburgo, que os portugueses ganharam, por essas terras, fama de bons porteiros e melhores lavadores de retrete. Foi uma emigração da fome e da miséria infinita da profunda ignorância. Não é razão para vergonhas, nem para orgulhos. Passava-se fome sob a pata ossuda de Salazar e as gentes saltavam por cima da Espanha, em fugas organizadas. Mas isso já lá vai. A ferida estancou após o 25 de Abril de 1974, continuando, no entanto, a presença portuguesa pelas europas desenvolvidas. Os que foram, não regressaram, excepção feita à minúscula minoria que se refugiava por razões políticas em França. Esses eram poucos e voltaram todos.

E assim, ao longo das décadas de 70, 80 e 90, continuaram os nossos emigrantes na sua faina, esfregando o chão, empurrando macas e "batendo a pala" aos senhores hóspedes do hotel. A fama dos portugueses, como povo, resumia-se às suas qualidades de gente trabalhadeira, honesta, respeitadora, calada, ensimesmada, em suma: gente triste e analfabeta.

Aparentemente tudo mudara nos anos 90. Finalmente os portugueses começaram a sair, como turistas, do seu país. E não apenas as elites (que, de resto, não temos), mas também uma boa fatia da classe média, definição vaga e imprecisa mas que serve para o efeito. Os portugueses, nos anos 90 já iam de férias para, pasme-se, França, Alemanha, Itália, entre muitos outros países, excluindo, claro, o Luxemburgo, que não lembrará a ninguém visitar.

Foram, não obstante, tempos difíceis para os nossos turistas. Muitos deles, assomando-se ao balcão de uma recepção de hotel, buscando quarto, participavam num diálogo semelhante a este:

_"Tem quartos vagos?"_em mau francês, claro;

_"Não precisamos de ninguém agora, obrigado!"_em francês, claro;

_"Mas eu só queria um quarto para 5 noites."_em mau francês, claro;

_"Nesse caso tudo bem, duplo ou simples?"

E assim se repetiam as constantes humilhações de um turista português em França. Sobre o que se passa na Alemanha, penso que não seja necessário desenvolver, mas cá vai, recusa em falar inglês, portas fechadas na cara do turista lusitano, expulsões, prisões e porrada nas esquadras da polícia. Admito que, talvez, seja um pouco exagerado, mas servirá para que se tenha uma ideia.

E tudo isto combate o estóico turista lusitano. Tentando dar uma boa imagem, alfabetizada, culta, visita museus e monumentos importantes, sabe a história desses países e interessa-se pela sua língua, enfim, estava em criação um português novo! E era nele que se depositava a esperança na defesa da nossa fama entre os nossos pares europeus!

Organizou-se o Euro 2004, os de fora vieram cá, viram-nos no nosso melhor, a nossa imagem estava em alta! Uma década de turismo luso pelas europas, somada ao êxito da Expo 98 e do Euro 2004, chegaria para vencer essa injustiça que nos é feita há décadas! Afinal, os portugueses não eram apenas porteiros e lavadores de retrete! Sabiam fazer outras coisas! Tudo estava bem no melhor dos mundos!

Mas algo de muito grave se urdia nos mesquinhos corredores da política, algo sinistro e de maligno! Com efeito, Portugal estava prestes a sofrer uma humilhação que deitaria por terra os trabalhos de uma década! O nosso Primeiro-Ministro demitia-se para aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia, deixando tudo a arder. Indiferente aos enormes prejuízos que a sua decisão traria ao país, Durão Barroso não hesitou em aceitar aquele cargo, abandonando assim o leme da Lusa Pátria. Em Paris, no Luxemburgo, em Berlim e Estugarda, em Zurique, os de lá comentavam entre eles:

_"Afinal, Portugal é mesmo um país de lavadores de retrete! Vê lá tu, que o Primeiro Ministro deles, um tal de Barroso, abandonou o mandato a meio (!) para suceder ao Romano Prodi! E ao Santer!"_disse, rindo-se ruidosamente;

_"Não te tinha dito? Os tipos só servem para estar à porta dos hotéis!"_novamente, fortes risos!

Tudo por água a baixo. E o pior, temo, ainda está para vir. Desejo, no entanto, as maiores felicidades ao José Barroso! Temo, não obstante, que se não livre do título de pior Primeiro Ministro da história de Portugal. E que não consiga fugir ao temível anedotário nacional.

segunda-feira, julho 05, 2004

Uma Questão

Se Zapatero fosse convidado para presidente da comissão europeia, aceitaria? E Berlusconi? E Tony Blair? Aceitaria?

Mas o Hosey Maniuel Barousou aceitou.

Se impigissem, sem ir a votos, o Le Pen para PM ao Chirac após uma demissão eventual de Raffarin, (para se dedicar, por exemplo, à apanha do bivalve), o Presidente da França aceitaria?

E o Presidente de Portugal? Aceitará o Santana?

Temo que o país perca muito, se tão sinistro acontecimento ocorrer. Mas, uma coisa é garantida, a primeira vítima será o Presidente da República. Que deixará de existir.

domingo, julho 04, 2004

Pena, Luto e Nojo

O Meia Livraria tem pena da selecção de futebol do seu país, que não soube defender a modalidade que pratica. O Meia Livraria está de luto porque o futebol morreu. O Meia Livraria tem nojo da maneira de jogar dos gregos e vomita ao lembrar-se do asqueroso Otto que nem grego sabe falar. O Meia Livraria considera o FC Porto e a sua espinha dorsal uma acabada merda e um inexplicável "bluff". No Meia Livraria nunca mais se falará de futebol. Porque o futebol morreu hoje.

Mude-se o nome do avião que hoje se chama "Eusébio" para "Viana da Mota"!

sexta-feira, julho 02, 2004

Morreu Sophia

Ambas as metades da Livraria estão hoje mais tristes. A metade lida porque cai agora o lido sobre o leitor desamparado. A metade por ler porque não cresce mais com Sophia.


Sophia
Incrível

Aquela que arcava com o odioso da governação, Manuela Ferreira Leite, granjeou agora a simpatia incondicional de milhões, número em que me incluo, com esta frase: "Dizem que houve três votos contra e, evidentemente, um dos votos foi meu.", referindo-se à eleição de Santana Lopes para a presidência do agora PPD/PSD.

Se eu pudesse votar, juntaria o meu ao seu voto, cara Manuela! De qualquer forma, agora, já gosto um bocadinho de si. É incrível, eu sei, mas gosto.


MF Leite. Ganhou milhões de amigos.
Agradecimento

Ao joao.tunes do óptimo Bota Acima, um blogue atento, escorreito, pertinente e de que gosto bastante, agradeço o elogio que a esta humilde Meia Livraria dispensou.

E se esse elogio veio de alguém que escreveu "GUARDEM ESSA CADEIRA PARA EU LOGO VER O JOGO...", então, por pouco não coro. E agradeço-lhe também por esse artigo e aproveito para estender o agradecimento aos moçambicanos, aos timorenses e a toda essa rapaziada que, fiéis a quem lhes deu tão pouco, festejam as vitórias lusitanas. Eu sentava-me com muito gosto naquela cadeira.

E porque nessas terras, nas que holandeses sugaram em tempos, ninguém veste a camisola laranja e porque o que lá vai, lá vai, mas nunca se deve esquecer, uma vez mais, obrigado!

terça-feira, junho 29, 2004

Decisões

Alfredo terminara os seus estudos cedo. Não tinha cabeça para a escola, ele mesmo o dizia. Após um par de anos a dar serventia a electricistas e canalizadores, lá chegou à maioridade. Tirou a carta de condução de ligeiros, motas e pesados e agora Alfredo era um camionista.

Este era o seu primeiro serviço no trânsito internacional, que o levaria do terminal de Alverca à cidade de Paris, carregando ostras de Setúbal num contentor frigorífico. Carga preciosa, portanto. Tudo corria bem, a viagem, iniciada de manhã, não poderia ser mais agradável, um óptimo tempo, nem frio nem calor, nada de peripécias nem de acidentes, enfim, um início auspicioso.

Mas o jovem Alfredo por vezes, ao entardecer, era acometido por fulgores religiosos, por travadinhas místicas, enfim, era aparentemente chamado pelo Divino. Ouvia esse chamamento desde os tempos em que, ao dar serventia a um canalizador, viu a Nossa Senhora desenhar-se e sorrir-lhe no estuque atacado por sais, descoberto após o arranque dos azulejos que há décadas cobriam a aparição. E desde então ouvia, sempre que o Sol se punha, uma voz que o chamava. O que dizia, não sabia ao certo.

Nisto matutava Alfredo enquanto cruzava terras castelhanas e se punha agora o Sol à ré do camião. De súbito, já perto da cidade de Burgos, vislumbrou à sua esquerda o que lhe pareceu ser uma torre sineira. Era a catedral de Burgos! Não hesitou. Encostou o camião carregado de ostras à beira da estrada e assim mesmo, a pé, dirigiu-se à catedral!

Alfredo tinha mudado de carreira. Assim, de um dia para o outro, descobrira a sua vocação. Agora seria um sacristão. Tinha compreendido o chamamento ao ver, do seu camião, a torre sineira. Seria ali que encontraria a sua felicidade, o seu caminho. Enquanto calcorreou o caminho entre o camião e a igreja interrogou-se: Que terá ganho a Itália com o facto de Romano Prodi ter sido presidente da comissão europeia? Mas não vacilou.

Dois dias depois, alertados pelo nauseabundo cheiro dos bivalves em putrefacção, as autoridades locais contactaram a empresa proprietária do camião.

domingo, junho 27, 2004

O Crime Não Compensa

Foi com um sorriso regalado que assisti à derrota da segunda equipa da panela! Ontem caíram os suecos, hoje foram os dinamarqueses. Afastados que estão os batoteiros, siga agora o futebol! Na prática, a pantomina nórdica serviu na perfeição a checos e holandeses, que se livraram da poderosa Itália.


A trupe dinamarquesa de regresso a casa

sábado, junho 26, 2004

Pesadelo

Esta madrugada acordei encharcado em suor, num estado de verdadeiro pânico. Fui acometido por um pesadelo horrível, uma coisa que, de tão hedionda, me fará quebrar o hábito que cultivo há anos de não revelar os meus sonhos. Com a respiração ofegante de um fumador que subiu oito lanços de escadas, comecei lentamente a recordar aquilo que me tinha apavorado. Sonhara que o Santana Lopes era o primeiro-ministro de Portugal, sem ter sido eleito! Sonhei que Portugal deixara de ser um país democrático, em que os governos e os seus primeiros-ministros são escolhidos pelo povo, nas urnas de voto. Sonhei que Portugal recuara para os tempos da ditadura, em que o Salazar governava contra o povo! Mas, desta vez, tínhamos alguém ainda mais sinistro, ainda mais obscurantista, ainda mais ignorante, ainda mais vil, tínhamos o Santana Lopes! A mais abjecta das figuras políticas de que há memória em Portugal!

Lentamente, a razão tomou o seu lugar, acalmei-me, sentei-me na cama, se ainda fumasse teria acendido um cigarro, comecei a raciocinar de forma mais pausada, temos um Presidente da República, o Jorge Sampaio, pois claro, que estúpido sonho este, evidentemente nunca permitiria que semelhante barbaridade acontecesse. Sendo ele o garante do funcionamento da democracia, não permitirá que governe Portugal um sujeito escolhido de forma sub-reptícia, num partido político que representa cerca de um décimo da população, por sabe-se lá quem, por sabe-se lá que ocultas e sinistras figuras. Nunca o permitirá. Só o povo português escolherá quem o governa!

Foi então que, já confortado, sorri, os meus batimentos cardíacos baixaram gradualmente até ao ritmo habitual. Deitei-me novamente e dormi o sono descansado daqueles que vivem em democracia.

sexta-feira, junho 25, 2004

O Adiamento Continua

Após o épico jogo desta noite, que ficará para sempre na colecção de recordações de todos os apreciadores de futebol, Portugal fica adiado por mais 5 dias. A vitória da selecção portuguesa seria ainda mais convincente, não fora aquele golo estúpido do Lampard. Perdeu-se parte de um grande momento de Glória para Rui Costa. Assim, e venha quem vier, o herói foi o Ricardo. Parabéns a todos e em especial ao Ricardo! E, já agora, um abraço ao Baía!


Mesmo com mãos nuas, Ricardo insiste em adiar Portugal!

quarta-feira, junho 23, 2004

Passes Sociais

Andam no 48 e na linha verde do Metro entre os Anjos e o Intendente muitos ricaços com rendimentos anuais superiores a 5000 euros! Passe social? Malta que ganha 600 euros por mês? Isso é que era bom! Em vez dos 50 que paga agora, largue lá os 100! E ainda lhe sobram 500!

E, claro, você, que aufere menos de 400 euros por mês... quanto é que pagava? Pois, agora paga só um bocadinho mais... Mas não se preocupe porque os outros pagam o dobro!

Mas o serviço, sim, em especial o da Carris... vale bem a pena!


Carris: Em greve desde 1907.
Viva o Futebol!

Alguns cidadãos italianos atiraram ovos contra a porta do consulado dinamarquês em Milão! Que outra coisa senão o futebol poderia causar semelhante incidente? Nada! Rigorosamente nada! E por isso, porque poucas coisas poderão ser mais saudáveis que atirar um bom ovo italiano, porque nenhumas há que sejam mais divertidas e porque tudo isso vale sempre a pena, viva o futebol.

E atirem lá um de avestruz por mim, rapazes!


Ovo neles!
Coincidências Nórdicas

Nem sempre a lei substitui a honra, nem sempre o simples respeitar dos regulamentos significa conduta ética. A coincidência de ontem, com o empate 2-2 entre as selecções da Sinamarca e da Duécia, resultado da panelinha, mostra que a indignação do treinador dos suecos, aquando da insinuação do arranjinho feita por um jornalista, era postiça e digna de renomado pantomineiro.

A verdadeira resposta deram-na os 22 jogadores da panela. À Dinamarca desejo a mais breve eliminação possível, à Suécia peço-lhes que vençam a Alemanha (ou a Holanda, ou mesmo a Letónia), para que os nossos rapazes lhe possam meter as mãos em cima. Para que seja a nossa selecção a correr com esse grupo de saltimbancos. (Pensando melhor, a selecção da Alemanha fez semelhante pantomina há uns anos, contra a Áustria. Pois, nesse caso, venha quem vier.)

Na Itália, o Corriere della Sera fala do 2-2 annunciato e tem, infelizmente, toda a razão. Quem diria? Os italianos dão uma lição aos nórdicos. De honra.


Um quarteto de animados chocarreiros: A malta da panela!

segunda-feira, junho 21, 2004

Brel

Algo de estranho se passa quando ouço Jacques Brel. Quer sejam "Les bourgeois" ou "Amsterdam" ou "Il neige sur Liege" ou "Vesoul" ou o que quer que seja, apetece-me sempre mandar gente à merda. Especialmente os "bourgeois", essa corja de "cochons"!

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.


(Amsterdam, Jacques Brel 1964)

Nem o Meia Livraria era um blogue sem um poema em francês!


Jacques Brel.
Portugal ainda Adiado

Até ao próximo dia 24 de Junho, Portugal continua suspenso! Existe o risco real de que a situação se prolongue até 4 de Julho. De resto, que mal faz esperar mais uns dias para termos Portugal outra vez? Estaremos a perder alguma coisa de interessante?


Iker Casillas: Incapaz de adiar a Espanha por mais uns dias...

sexta-feira, junho 18, 2004

Preguiça

1) "Pudesse eu dizer o que tenho para dizer..."

2) "Se eu mandasse nisto..."

3) "Os gajos que não percebem nada disto é que são os chefes!"

4) "Tivesse eu o canudo..."

5) "Já comecei muito tarde, a malta que começa em novo..."

6) "Assim também eu!"

quinta-feira, junho 17, 2004

Portugal Adiado

A carreira da Selecção Nacional de futebol no Euro 2004 está agora suspensa até ao próximo domingo.

Portugal voltará dentro de uns dias. Talvez com uns incêndios.


Ricardo, o homem que pode adiar Portugal.

quarta-feira, junho 16, 2004

Euro 2004

Em Leiria, na belíssima praça Rodrigues Lobo, está instalada uma enorme tela onde se pode assistir aos jogos do Euro 2004. Enche-se a praça de suiços e croatas, acotovelam-se franceses, roubam as cadeiras das esplanadas que circundam a praça para se poderem instalar confortavelmente em frente à tela. Bebem cerveja, gritam, festejam os golos, bebem mais cerveja. Entre eles estão alguns portugueses, um ou outro holandês, um casal italiano, quatro irlandeses. Todos sentados nas cadeiras surripiadas aos cafés da praça.

Termina o jogo. Em dois minutos, todas as cadeiras voltam, pelas mãos que as levaram, sem enganos, às respectivas esplanadas. Devolvem-se as garrafas e metem-se os plásticos no lixo. Se no meio da praça ficar uma cadeira, foi, provavelmente, um dos nossos que nela se sentou, olhará para trás, verá o que fizeram os outros europeus e pegará com a direita na cadeira. Na esquerda levará a garrafa vazia de sagres.
Bloomsday

Hoje é dia 16 de Junho. É o dia do Sr. Bloom. Saber que os irlandeses festejam como festejam semelhante acontecimento enche-me de inveja. Genuína inveja.


James Joyce

domingo, junho 13, 2004

Vida ou Morte ou a Desgraça do Costume

A nossa selecção lá perdeu contra os coitadinhos da Grécia. Sem os golos do Simão, do Tiago e do Nuno Gomes, nem sequer do Moreira, que poderia a selecção lusitana fazer?

Restam-nos dois jogos de vida ou morte. É a desgraça do costume. É o fado.


O Fado
Prognósticos

Ontem, antes do jogo de Portugal contra a Grécia, perguntavam os jornalistas às gentes qual seria o resultado da contenda. Uma pergunta assaz pertinente e interessante, dirão. Pois, mas melhores que a pergunta são as respostas!

É ouvi-los: "4-0 ganha Portugal, com golos do Simão, do Nuno Gomes, do Tiago e... bem, do Moreira."

É interessante verificar que a maioria dos inquiridos considera ser Simão Sabrosa o mais provável dos marcadores de golos da selecção.


João Pinto, o Antigo. O homem dos prognósticos.
A Pátria dos Xutos é a Língua Portuguesa

O tom do último artigo, sobre os novos comendadores, poderá soar a jocoso. Tal não era a intenção, pelo que importa clarificar que considero os Xutos dignos da condecoração. À sua maneira, alargaram a nossa pátria, que é, sem dúvida, a língua portuguesa. E ampliaram o imaginário colectivo de Portugal.

quinta-feira, junho 10, 2004

Comendadores

Para cortar o tom de obituário que ensombra agora o Meia Livraria, eis um artigo sobre algo realmente divertido: A condecoração dos Xutos e Pontapés pelo Homem do Leme, o Presidente da República, Jorge Sampaio!

Parabéns aos novos comendadores da Ordem do Mérito: Tim, Kalú, Cabeleira, Gui e Zé Pedro! Foram para a sua "casinha" com uma medalha ao peito! Adeus ó vida malvada!


Os Senhores Comendadores
Sinistra Sequência

A Sousa Franco juntou-se hoje outro homem de grande valor, Lino de Carvalho. Que estanque depressa esta sinistra sangria, que hoje escolheu um dos melhores.


Deputado Lino Carvalho
Morto em Combate

Dotado de grande inteligência e erudição, Sousa Franco sucumbiu ante a imbecilidade e a estupidez sarrafeira. O grotesco venceu.


Professor Sousa Franco

quarta-feira, junho 09, 2004

Estou Sossegado

Ao ler a resposta elegante e singela da Clara do Crítico, por pouco não corri a comprar o livro do Mexia. Não é todos os dias que me deparo com tamanha elevação. Publique a Clara um livro e terá em mim um comprador.

domingo, junho 06, 2004

O Multiplicador

Esta é a história verdadeira do homem que multiplicava tudo por dez. Nunca o conheci, ouvi a sua história numa daquelas fogueiras, junto à estrada, onde estas coisas se contam. Neste século, o XXI, essas fogueiras são restaurantes, o que nada retira em assombro e magia ao que se vai contar.

Numa taberna no interior do país, numa daquelas mais modernas, que já possuem máquina de café, um cliente pediu ao empregado de mesa uma bica normal e um descafeínado. De pronto ouviu, "Dez cafés e dez descafeínados!", era o grito do homem para o dono da tasca, que se entretinha a limpar o balcão com o avental. "Vai já!".

Espantado, o cliente perguntou-lhe: "Quanto é?", tendo o homem respondido: "10 euros, se faz favor." Nisto, o dono da tasca tirara os cafés e espremera o vinho tinto salvo pelo avental para dentro daquela peça metálica que nas tabernas se usa para levar os copos de três. Chamou o nosso homem. "Aqui estão", disse.

Entretanto entra outro freguês que pede: "Uma grande penalidade, tinto, se faz favor!" e o nosso homem: "São dez pénaltes tintos!". Divertido, o primeiro cliente pergunta ao multiplicador, "Por curiosidade, quanto mede o meu amigo?", "Pouco menos de 18 metros..." respondeu. "Então, traga-me mais 10 cafés!". "Cem cafés aqui para estas dez mesas!"

Nessa noite, o homem que multiplicava tudo por dez dormiu as suas costumeiras 75 horas de sono. Essas, ninguém lhas tirava!
Viva a República!

Sou um fervoroso adepto da República e do que ela representa. E lembrei-me de homenagear, ainda que de forma humilde e singela, aquele que mais tem feito no nosso país para prestigiar a República Portuguesa! Se outras razões faltassem, a sua existência bastaria para justificar a República. Um profundo muito obrigado, sr. Duarte!


Sr. Duarte. Uma vida dedicada à causa da República.

Há Limites

A Clara, do brilhante Crítico, escreve um laudatório artigo sobre o escondido blogger Pedro Mexia. Dá gosto vê-la gabar, feliz e generosa, o livro que a criatura publicou, com vistas à facturação do em tempos blogado. E, por mim. tudo bem, apesar de um ligeiro arrepio.
Mas falou do "novo livro do Desassossego". E isso é demasiado. Todo o bom gosto anteriormente patenteado cai por terra, exangue, após semelhante alarvidade. Não façamos comparações grosseiras e atentatórias às memórias dos que nos deram tanto. Fique com o Mexia para si. Mas deixe-nos o Bernardo Soares. Há limites, minha senhora!


Pobre Fernando Pessoa!

sábado, junho 05, 2004

A Negra e Porca Onda Santanenta

O populismo, na sua mais negra e asquerosa face, o santanismo, continua a sua destruição inexorável da cidade de Lisboa. Tal como uma mancha de crude no oceano, o santanismo transforma rapidamente uma das mais belas cidades do Mundo num subúrbio. Sobre essa calamidade é obrigatório que se leia este artigo do Substrato.

Talvez um sismo não fosse pior.