quarta-feira, abril 07, 2004

Mais Saramago

Uma vez mais, José Saramago, um homem com quem os portugueses não sabem lidar, chocou toda a gente com um romance. Em que fala de votos em branco e de democracias caducas. Que deliciosamente provocador! Que secreto gozo partilhará com os amigos, ou com folhas de papel, este escritor, dono da faculdade de abanar, ainda que por períodos de poucas semanas, a sociedade portuguesa, tão fraquinha de cabeça e sempre atarefada com as suas Casas Pias!

Visse Saramago os blogues e como se riria. Tão ingénuos alguns, outros quase cretinos, mas poucos, ou nenhuns, leram ou lerão o Ensaio sobre a Lucidez. E escrevem sobre as eleições europeias e sobre os comunistas, dizem que o escritor apela ao voto em branco, que busca o caos, que deseja o regresso do império soviético, que isto e aquilo. Confundem tudo.

Saramago publicou um romance. Trata-se de ficção. Serve para ler. Terá ideias, terá pontos de vista, não será imparcial ou politicamente correcto, será apenas, uma vez mais, uma obra de ficção. Literatura. Arte. Tal como o Envangelho segundo Jesus Cristo.

Mas hoje, tal como ontem, lá andam os censores, os torquemadas de pacotilha, os simplistas e os iletrados, lá andam eles pegando nas obras de arte pelos aspectos em que não devem, pela opinião de quem as escreve. Criticando opiniões e não arte. No século XXI.

(Deverá o Meia Livraria empreender um ataque a esses blogues?)

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