sexta-feira, abril 16, 2004

Pobre Heisenberg!

Os computadores ultrapassaram os humanos em tarefas mentais como jogar xadrez. Acontecerá o mesmo com a criação musical, daqui por uns tempos?

Esta sentença foi debitada por Nuno, d'A Aba de Heisenberg num artigo tão ou mais incrível que esta frase. Pobre Heinsenberg!

Mas analise-se este raciocínio que tem tanto de acrítico como de frequente, e que é denunciador da profunda e intransponível ignorância que muita gente tem das artes e das coisas dos Homens.

Quando o Sr. Nuno afirma que os computadores ultrapassaram os homens na arte do Xadrez, não desconfia de nada e, claro, não investigou. Ouviu dizer, viu na televisão ou, na melhor das hipóteses, leu nalgum jornal, que o Deep Blue ganhou ao Kasparov. E a culpa não é só dele, é também dos da comunicação social, que, quando lhe deram a notícia, se estavam nas tintas para o Xadrez, procuraram apenas a aberração, o incrível, buscaram o espectáculo bizarro. E enfatizaram o que não deviam, deturparam, ansiosos, a informação, analisaram superficial e tendenciosamente o sucedido, levando o pobre Nuno a uma precipitada conclusão: Os computadores ultrapassaram o homem no Xadrez.

Caro Nuno, deixe-me dizer-lhe: os Computadores não fizeram semelhante coisa aos Homens. Existem certos programas de computador que ganham certas partidas a certos homens, tal como existem certos homens que ganham partidas a certos programas de computador. Muito complicado? Eu explico: O Garry Kasparov jogou vários matches com vários programas, tendo ganho diversas partidas e perdido algumas também. Em geral, os jogos terminam empatados, e, recentemente, os matches também.

Ou seja, nada de conclusivo.

E ainda que estivesse (repito: não está) decidida a supremacia desportiva da máquina, existe no Xadrez um conjunto de valores que nunca se poderão reduzir ao aspecto desportivo, ao resultado da partida. No Xadrez há coragem e medo, há sabedoria e ignorância, há técnica e imaginação, há petulância e cobardia, há Vida e há combate. São coisas de homens, caro Nuno, não de algoritmos.

E sobre a música, a forma redutora como Nuno a descreve é, seguramente, proverbial: Suponho aqui que a composição musical é essencialmente o agrupamento e escolha de parâmetros de notas, sons e efeitos sonoros – a manipulação destes componentes básicos da música, que há muito que se encontram em formato digital (...).

Infelizmente não ficámos com a sua definição de Xadrez. Mas temos a sua teoria conceptual sobre a criação de um algoritmo que permite a composição de música genial!

Fico à espera de um programa de computador que escreva artigos n'A Aba de Heisenberg e que, já agora, ultrapasse os homens que lá escrevem. Fica o desafio e a respectiva questão: Será mais difícil efectuar essa ultrapassagem ou vencer uma partida de Xadrez a Kasparov?