quarta-feira, abril 28, 2004

Vida na A1

Na estação de serviço de Aveiras (do lado Este), numa segunda-feira de manhã com longa bicha para pagar combustíveis, chocolates e garrafas de água, entrou esbaforido um cidadão, perguntando aos berros, está aí a brigada de trânsito? Todos os presentes fixaram a sua atenção no sujeito. Anda um tipo a atravessar-se à frente das pessoas aí na autoestrada, acrescentou, ia-me mandando para a valeta, o seu tom de voz denunciava elevado nervosismo, vem completamente descontrolado, rematou.

Estavam duas pessoas apenas a atender perto de duas dezenas de automobilistas. E, dada a situação, uma delas deixou de o fazer, dedicando-se em exclusivo, e aparentemente já tão excitada como o convincente forasteiro, ao assunto do condutor sem tino. Tentou, deixando espantado e por atender o cliente já encostado ao balcão, contactar a polícia.

Mas, como costuma acontecer nestas alturas, entra estação de serviço adentro, muito devagar, um automóvel cinzento, moderno, um Alfa Romeu. Era ele! É ele, disse o cidadão, o tipo do Alfa Romeu! Era o próprio condutor tresloucado! Eu estava lá, o leitor já tinha adivinhado, e lembrei-me dos westerns, em especial daqueles momentos em que o vilão entra no saloon e que a música do piano se cala.

Parou pouco antes das bombas 1-2, com o carro orientado como se quisesse abastecer nas bombas 9-10. Mas estava a escassos metros das bombas 3-4 e já não chegaria, a menos que refizesse a manobra. Em suma, parou o Alfa Romeu atravessado entre as bombas 2 e 3. (Não é fácil descrever um acontecimento dentro de uma estação de serviço com tantas bombas.)

Lá dentro, todos estávamos ansiosos. Do carro cinzento ninguém saía. A senhora da bomba, nervosa, tentava em vão contactar a Brigada de Trânsito. À minha frente estavam apenas duas ou três pessoas, pelo que, ainda que o atendimento da bomba estivesse agora reduzido a metade do habitual, fui atendido rapidamente, pela outra senhora, bomba 8 se faz favor, é só, mas nem eu nem ela demos ao momento da transação a atenção devida, estávamos absortos no que se passava lá fora.

A custo lá saí, temendo o pior, haveria polícia para impedir o perigoso condutor de regressar à A1? A agitação prosseguia, junto ao carro algo se tinha passado, mas depressa serenou. O carro estava aparentemente vazio na altura em que passei por ele, mas, diga-se, não espreitei lá para dentro. Poucos minutos depois o carro avançou. Atravessou a bomba devagar, passou em frente do restaurante, e, quando estava prestes a sair da estação de serviço e a voltar para a autoestrada, lá estava a brigada de trânsito para o impedir.

Quando passei por eles, estava o condutor de pé, cabeça descaída sobre o peito, prestes, suponho, a soprar no alcolímetro. Às vezes, na A1, há histórias bonitas com finais felizes. E lá segui o meu caminho, rumo a Norte, assobiando uma conhecida melodia de Ennio Morricone.

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