quinta-feira, julho 08, 2004

Porteiros e Lavadores de Retrete

Desde as diásporas de meados do século XX para França, Alemanha, Suiça e Luxemburgo, que os portugueses ganharam, por essas terras, fama de bons porteiros e melhores lavadores de retrete. Foi uma emigração da fome e da miséria infinita da profunda ignorância. Não é razão para vergonhas, nem para orgulhos. Passava-se fome sob a pata ossuda de Salazar e as gentes saltavam por cima da Espanha, em fugas organizadas. Mas isso já lá vai. A ferida estancou após o 25 de Abril de 1974, continuando, no entanto, a presença portuguesa pelas europas desenvolvidas. Os que foram, não regressaram, excepção feita à minúscula minoria que se refugiava por razões políticas em França. Esses eram poucos e voltaram todos.

E assim, ao longo das décadas de 70, 80 e 90, continuaram os nossos emigrantes na sua faina, esfregando o chão, empurrando macas e "batendo a pala" aos senhores hóspedes do hotel. A fama dos portugueses, como povo, resumia-se às suas qualidades de gente trabalhadeira, honesta, respeitadora, calada, ensimesmada, em suma: gente triste e analfabeta.

Aparentemente tudo mudara nos anos 90. Finalmente os portugueses começaram a sair, como turistas, do seu país. E não apenas as elites (que, de resto, não temos), mas também uma boa fatia da classe média, definição vaga e imprecisa mas que serve para o efeito. Os portugueses, nos anos 90 já iam de férias para, pasme-se, França, Alemanha, Itália, entre muitos outros países, excluindo, claro, o Luxemburgo, que não lembrará a ninguém visitar.

Foram, não obstante, tempos difíceis para os nossos turistas. Muitos deles, assomando-se ao balcão de uma recepção de hotel, buscando quarto, participavam num diálogo semelhante a este:

_"Tem quartos vagos?"_em mau francês, claro;

_"Não precisamos de ninguém agora, obrigado!"_em francês, claro;

_"Mas eu só queria um quarto para 5 noites."_em mau francês, claro;

_"Nesse caso tudo bem, duplo ou simples?"

E assim se repetiam as constantes humilhações de um turista português em França. Sobre o que se passa na Alemanha, penso que não seja necessário desenvolver, mas cá vai, recusa em falar inglês, portas fechadas na cara do turista lusitano, expulsões, prisões e porrada nas esquadras da polícia. Admito que, talvez, seja um pouco exagerado, mas servirá para que se tenha uma ideia.

E tudo isto combate o estóico turista lusitano. Tentando dar uma boa imagem, alfabetizada, culta, visita museus e monumentos importantes, sabe a história desses países e interessa-se pela sua língua, enfim, estava em criação um português novo! E era nele que se depositava a esperança na defesa da nossa fama entre os nossos pares europeus!

Organizou-se o Euro 2004, os de fora vieram cá, viram-nos no nosso melhor, a nossa imagem estava em alta! Uma década de turismo luso pelas europas, somada ao êxito da Expo 98 e do Euro 2004, chegaria para vencer essa injustiça que nos é feita há décadas! Afinal, os portugueses não eram apenas porteiros e lavadores de retrete! Sabiam fazer outras coisas! Tudo estava bem no melhor dos mundos!

Mas algo de muito grave se urdia nos mesquinhos corredores da política, algo sinistro e de maligno! Com efeito, Portugal estava prestes a sofrer uma humilhação que deitaria por terra os trabalhos de uma década! O nosso Primeiro-Ministro demitia-se para aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia, deixando tudo a arder. Indiferente aos enormes prejuízos que a sua decisão traria ao país, Durão Barroso não hesitou em aceitar aquele cargo, abandonando assim o leme da Lusa Pátria. Em Paris, no Luxemburgo, em Berlim e Estugarda, em Zurique, os de lá comentavam entre eles:

_"Afinal, Portugal é mesmo um país de lavadores de retrete! Vê lá tu, que o Primeiro Ministro deles, um tal de Barroso, abandonou o mandato a meio (!) para suceder ao Romano Prodi! E ao Santer!"_disse, rindo-se ruidosamente;

_"Não te tinha dito? Os tipos só servem para estar à porta dos hotéis!"_novamente, fortes risos!

Tudo por água a baixo. E o pior, temo, ainda está para vir. Desejo, no entanto, as maiores felicidades ao José Barroso! Temo, não obstante, que se não livre do título de pior Primeiro Ministro da história de Portugal. E que não consiga fugir ao temível anedotário nacional.

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