sábado, agosto 21, 2004

Pedras de Litro

Albertino Monteiro comprara, num supermercado perto da sua casa, uma garrafa de água das pedras de litro. Qualquer coisa de estranho lhe passara pela cabeça, para se permitir a semelhante extravagância! Enquanto caminhava com a sua nova garrafa bem aconchegada num saco de plástico, Albertino fazia planos. Qual seria a altura oportuna para a beber, interrogava-se. Mas várias dúvidas o assaltavam durante o percurso, aquilo depois de aberto tem de se beber em seguida, matutava, caso contrário perde o gás! E se não consigo beber tudo? Mais valia ter comprado 3 das pequenas _ fustigava-se com o látego do arrependimento _ mas hei-de conseguir bebê-la toda, convencia-se.

Por fim chegara o grande dia. A garrafa estava já na segunda semana de refrigeração, ponto exacto para servir o seu propósito: ser bebida. Albertino pensara todo o dia na grande ocasião. Escolhera este dia por ser especial, comemorava-se o 64º aniversário da morte de Trotsky. Lanchara bem, era essencial, mas nada de líquidos! Teria um litro de água mineral natural gasocarbónica pela frente! Até o seu colega, o Antunes, comentara: "Estás cheio de fome, ó Monteiro, e não bebes nada!"

Nervoso, abriu o frigorífico, retirou a verde garrafa de vidro, estava tão fresquinha, estas coisas só sabem bem feitas assim, pensou, trouxe o seu copo especial e sentou-se no sofá da sala, enchendo delicadamente o copo com a água das Pedras Salgadas. Cuidadosamente, voltou a fechar a garrafa, para nela melhor suster o gás, e bebeu pausadamente o primeiro copo. No aparelho de televisão crepitava a voz do humorista Fernando Mendes. O "Preço Certo em Euros" estava nos seus primeiros acordes, afinal ainda era cedo. A noite prometia e era de Albertino.