domingo, agosto 08, 2004

Uma Questão de Humor

Vozes puras e angelicais condenam o fedorento gato Góis pelo seu mais recente artigo. Grasnam nervosos que o humor tem limites e que o bom gosto assim e assado, e que são uns bandidos e só se aproveita o RAP, em suma, balem, enfurecidos, contra o pobre e injustiçado Góis!

Foi no blogue "A Memória Inventada" que me deparei, espantado, com aquelas ofendidas e piedosas alminhas! Não apenas o autor da invectiva, também 8 comentadores se ofenderam com o facto de Miguel Góis ter caçoado do senhor aleijadinho (Hawking)! Abençoadas criaturas!

Não percebem que são eles quem separa, quem divide, quem arreda, que são eles que dizem "não deveides gozar com o senhor deficiente!". Pensar que o século XXI é igual a XX + I é não conhecer esta gente. Gente demasiado escuteira que pensa prestar grande serviço aos que são de alguma forma diminuídos, ao livrá-los da ridicularia em que por vezes incorrem. Esquecem-se estas alminhas da condição humana do alvo da sua palonça caridade.

Fosse eu aleijadinho e saberia sugerir lugar para tão piedoso rolo de caridade.

5 comentários:

Francisco disse...

Se o Hawkings é ou não deficiente é uma qustão secundária. O gajo é bom em astrofísica e é nisso que tem de ser comparado, não no resto. Se o gajo fosse correr a maratona, era complicado. Mas para fazer ciência não é preciso perninhas.

Mas acho que deve haver jogos Olímpicos, para os "deficientes", porque é uma oportunidade de competirem em termos físicos (só neste nível) com igualdade.

Anónimo disse...

Olá pá,

Tens aí uma prosa cheia de nervo, mas passas ao lado do essencial. O que se dizia naquele post é que, não havendo temas proibidos no humor, quanto mais delicado o tema é mais exigente devemos ser com a qualidade da piada. Ora o post do Góis não tem piada nenhuma e é isso que é verdadeiramente trágico. Estamos entendidos?

Tulius

Cláudio disse...

Amigo Tulius, eu até consigo encontrar ridicularia no casamento de Hawkins, e alguma graça no texto de Góis. Admito, no entanto, não se tratar do melhor momento deste humorista.

Anónimo disse...

Cláudio,
Já viste a CNN hoje? A pivot abriu o noticiário do meio-dia, quase histérica, a dizer: “Tragédia em Nova Iorque: Vasco Barreto não achou graça a uma piada. Logo de seguida, tentou o suicídio quando percebeu que o humor não era uma ciência exacta e que, afinal, havia outras pessoas que achavam graça a essa mesma piada. Vamos já em directo para o local da tragédia!”
Vê só o post que este “moralista encartado” escreveu no blogue dele, no dia 26 de Maio de 2003: “Posta de lado a censura de contornos pidescos ou de moral católica, a verdade é que devemos impor limites, em particular com o humor, que usa um mecanismo intrínseco de desresponsabilização. Idealmente bastaria alguma auto-censura combinada com o sentido do ridículo, funcionando este como válvula de segurança para eventuais fugas. Infelizmente, há criaturas que persistem em desafiar a humanidade. Esta malta deve ser controlada, para bem de todos. Se é natural que num estado de direito nem toda a gente tenha acesso a uma kalashnikov, devemos também limitar os temas abordados pelos humoristas em função da qualidade do humor (voluntário ou não) por eles praticado.” Bem sinistro, hein? Só não percebo uma coisa. É impressão minha ou ele tinha dito, no princípio do post, que ia pôr de lado a censura de contornos pidescos ou de moral católica? Terá sido esquecimento?
Um abraço e os meus parabéns pelo blogue,
Miguel Góis

Cláudio disse...

Este tema do moral e da moralidade aparenta ser eterno. Pensava-se que com a liberdade que o século XX trouxe aos povos ocidentais o dilema acabasse, a liberdade como cura das mentalidades tacanhas e censórias não funciona. Tal como não previne o homicidio e o roubo. Infelizmente, nunca acabarão essas cabecinhas cheias de moralidade. Por outro lado, para ti acaba por ser positivo. Sem eles, gozava-se com quem? Sem elas, o humor ficaria muito mais pobre. Continua, Miguel Góis, com o teu brilhante trabalho e conta com um fiel admirador do Gato Fedorento e de todo o humor ilimitado, inteligente e livre.