sexta-feira, novembro 26, 2004

A Doutora Ursolina

Às quintas, era dia de atendimento da Doutora Ursolina, a tal da filha que era drogada mas que, ao invés de se acanhar em vergonha, sabedora da desgraça da filha que era dela, filha e desgraça, se dava ares de ensinadora de virtudes e de modos de viver. Assim era esta Doutora. Amiga de dar conselhos agora quando os não soube dar a quem devia!

Hoje, a Dona Escolástica até nem se sentia mal, menos ciática mais cruzes vergadas, a coisa ía. Faltava pouco para que fossem seis da manhã, o Sol nasceria nada tardava e hoje a Dona Escolástica não iria para a bicha do Centro de Saúde! Não estava para aturar aquela Doutora Ursolina! Hoje, a Dona Escolástica iria para o Tribunal da Boa Hora! Era dia grande, havia julgamento de pedófilos famosos! Valeria a pena!

Para o TIC sabia ir, de Corroios lá. A pé um bocadinho, comboio um bom pedaço, sai-se em Sete Rios, onde passa um autocarro que pára mesmo em frente ao tribunal. Nada mais fácil e cómodo.

Para a Boa Hora seria ainda mais fácil, pensou Escolástica, o autocarro até ao barco, o barco até ao Terreiro do Paço e daí lá esticaria as pernas, haveria apenas que subir um pouco.

Lá chegada encontrou muita gente conhecida. E não foram só jornalistas e técnicos do audio-visual que Escolástica reconheceu e cumprimentou. Também Gertrudes, Isolino e o Sr. Santos da mercearia lá estavam. E todos concordaram, aquela Doutora Ursolina não lhes enchia as medidas. Tinha um bocado a mania.

1 comentário:

Anónimo disse...

O Meia Livraria começa a tornar-se no blogue que visito para sorrir um sorriso de sentimentos confusos, pois tudo o que é patético torna-se mais complexo e assustador quando, com lucidez, é registado no papel.
CMF