sábado, novembro 20, 2004

Ficção

Monteiro chegou mais cedo ao serviço. Sentou-se na secretária do colega, treze anos mais novo e muito irritante: o Mendonça. Sacara-lhe a "password", era a do costume, "12345678", e agora tiraria tudo a limpo. O computador demorou algum tempo a arrancar, dois ou três minutos, mas esperou com calma, havia tempo. Só se pegava às nove e ainda nem oito eram. Monteiro era um homem tranquilo. Além disso, nada havia que temer: Mendonça era um fala-barato e depressa seria desmascarado!

Finalmente! O computador estava agora a postos, Monteiro pegou com a mão direita no rato que não tem qualquer mão, mas que tem botões, movimentou-o pela mesa e carregou-lhe na tecla esquerda com o dextro apontador. Mexeu uma vez mais no rato e novamente lhe apertou os botões: O que viu no monitor deixara-o absolutamente transtornado!

Saíu do escritório com largas passadas. Determinado, abriu a porta por onde entrara e, com um salto, imagine-se, um homem com quarenta e dois anos aos saltos, com um salto chegou à porta do elevador. Chamou-o, carregando em novo botão. Ele, o elevador, já lá estava, entrou, desceu e chegou à garagem. Já a correr, chegou ao seu automóvel e por momentos hesitou. Parou de seguida. Encostou-se, arfando, à porta do condutor. Monteiro não estava em si. Eram agora oito e pouco, e dez, talvez. Abriu a porta e sentou-se no banco, já mais calmo. Recostou-se no assento e, acto quase contínuo, pôs o carro a trabalhar. Arrancou.

Ainda não eram oito e trinta e já Monteiro estava perto de casa, novamente. Entrou no café onde costumava pedir galão e bolo de arroz e pediu café baixo e whiskey alto. Dito e feito, o Jorge do café não fez perguntas, nunca fazem estes tipo dos cafés, de um trago bebeu Monteiro o café e de outro o whiskey, mais um, exigiu, Jorge, experiente, não guardara a garrafa e botou nova carga em copo velho, bebida esta segunda como foi a primeira. Mais uma, pigarreou Monteiro e outra se aviou, mas esta, demorou mais a ser emborcada. Eram oito e três quartos.

De volta ao carro, pagas as bebidas, Monteiro rumou ao serviço. Determinado e forte, tinha outra vez vinte e cinco anos! Faltavam dois minutos para as nove, entrou na garagem, chiante, e, sem hesitar apontou ao FIAT de Mendonça! A centímetros do embate, puxou com a direita o travão de mão e guinou o carro para a esquerda. Ouviu-se um estrondo: a traseira direita do Ford de Monteiro rebentara as duas portas esquerdas do FIAT de Mendonça! Rodopiou e, embalado, embicou para o Volvo do chefe: era dia de ajustar contas! Desta feita, de frente, enfiou as portas esquerdas do carro sueco para dentro, detectará o leitor mais atento um padrão, irremediavelmente perdidas. Esticou a necessária marcha-atrás para além do necessário e destruiu parcialmente a bagageira do estupor do paquete, que tirava fotocópias a toda a gente, menos a ele! O Palhaço!

Entretando, tanto barulho e destruição atraíram atenções várias e até telefonemas para centos e dozes e PSP. Mas tanto fazia. Afinal, sempre era verdade. Mendonça batera o record que há dez anos pertencia a Monteiro. Que deixara de ser o Rei do Tetris. E a quem já nada mais restava.

Eram agora nove e doze.

6 comentários:

Walter Tarira disse...

Vamos ter escritor?!

Anónimo disse...

Lindo! Adorei Cláudio.
Continua que tens com toda a certeza uma fã atenta e que apoio quem escreve como tu.
Adorei.
Olga

Cláudio disse...

São palavras muito simpáticas, Olga! Estou, como algumas e felizes vezes me acontece estar, ufano! Obrigado Olga!

Anónimo disse...

Dá cá um abraço, oh Cláudio! Gostei mesmo muito!
Sei que o gajo que se senta em frente a mim - um Volkswagen, o Theodor Fuchs - não entende porque me rio tanto à hora do almoço, mas também não lhe vou explicar. Os universos das canetas que explodem e a importância que o tetris tem - para quem "já mais nada restava" - são nossos e não se explicam.

Um abraço forte,
Pedro Farinha

PS - Há apenas um ligeiro (ligeiríssimo) senão...mas que não vou expor em público.

GoG disse...

parabéns claudio... fartei-me de rir... lol... adorei o método discritivo e essa do Rei do Tetris está demais... :)

vmiguel disse...

"Mendonça batera o record" e O Cláudio também, se bem me lembro é a "maior Posta" deste blog, bem mais profícuo do que ser "o Rei do Tetris" :-))).

Gostei das últimas ficções, continua!!!

Não se deve comentar os comentários, não resisto em felicitar o nosso Pedro Farinha na sorte que tem de só ter um "Volkswagen" à sua frente :-)