terça-feira, dezembro 28, 2004

Um Conto de Natal (2)

Sentados na mesa de madeira riscada, tinta do tinto e polida do vidro dos copos, estavam Macário e Barnabé, sócios gerentes da firma "Mabé" de pintura de automóveis. Estavam quase falidos, como Alfredo. Cumprimentaram-se e ficou Alfredo a saber que era de alguma criação e de uma pequena horta que tirava Macário o sustento e que Barnabé se governava com o salário da mulher. Sempre a mesma história, pensou Alfredo e pensamos nós. Trocadas desgraças faladas, surgiram as rodadas de vinho, para isso que não faltasse, e subia a alegria e a coragem, não tanto como o tom de voz nem como a sede, mas subiam.

Pela porta surgiu Silveira, homem corpulento e revolucionário, habituado a lutas fabris, ele que fora em tempos operário e que agora era outro falido bate-chapas. Saudou os presentes com vigor, puxou o mocho que sobrava na mesa dos que já conhecemos, pediu para ele e para eles mais do mesmo e troou: "Temos que dar a volta a isto, rapazes!". Cedo se ouviram Alfredo e os da firma Mabé, "Pois temos, mas como?". Terão acrescentado, mas não ouvi: "Falar é fácil, ainda mais com um grãozinho na asa!". Hoje já não era, seguramente, a primeira paragem de Silveira em estabelecimentos de comidas e bebidas.

Lucinda fritava, desconhecedora, claro está, das andanças do marido, mais um alguidar de azevias, que boas eram, estas só com açucar, aquelas levam também canela, não fosse a vesícula já falsa e, se calhar, nem metade chegava à pastelaria. Ainda renderiam alguns trocados, até os hipermercados as compravam, e, mesmo desconhecendo as mais elementares leis do mercado, Lucinda sabia ser isso sinal de melhores preços.

"Parece que vocês não sabem quem são os verdadeiros culpados desta nossa situação!", vociferou Silveira, "Andarão ceguinhos de todo?", acrescentou perguntando. "Não temos trabalho porque não há acidentes de automóvel! Essa é que é a dura realidade!". Alfredo pousou os cotovelos na mesa, pintando a ganga do casaco de tinto, e com as mãos segurou a cabeça, pensativo como sempre fica quem esta pose faz. Macário, após breve período de meditação perguntou: "Mas e isso é culpa de quem?". Com ar sábio, Barnabé disse: "Tu sabes muito bem quem é o culpado. Todos sabemos."

(Continua)

6 comentários:

Anónimo disse...

Anseio pela continuação da história. Até ao momento tem o dom de prender a atenção!!
Olga

Anónimo disse...

Espero que não fique só por aqui....
Um abraço Lucas

mfc disse...

Não perderei as cenas dos próximos "câpitulôs"!

vmiguel disse...

Que não seja por falta de comentários!
Aguardamos expectantes a continuação...

Francisco disse...

A culpa é da crise é do Pai Natal, que em vez de dar presentes, passava o tempo a "brincar" com o menino Jesus.

mfc disse...

Bom... o final... fica para o ano!
Olha, um grande (enorme) 2005.
...com tudo de bom !