segunda-feira, novembro 29, 2004

Negro Cenário

A pandilha anda aflita. O Chaves zangado com a desconsideração, lava a roupa suja em público, suja de clientelismo e de favorecimentos. O mais sinistro é que Chaves tem a lata de afirmar que se sente ofendido por não ter sido suficientemente favorecido. Nem pôs em causa se é ou não capaz para o cargo que ocupava ou para o que não quis ocupar. Isso não tem importância: Santana é seu amigo, deve-lhe favores e não lhe deu cargo à altura. E acontece sempre que se lida com gente desta, mais tarde ou mais cedo estala o verniz, há denúncias, ataques pessoais, enfim, a luta canina da escumalha.

Sampaio chama a casa o Santana, o Santana explica, o gajo é fraquinho mas é amigo, tinha um ministério que não funcionava, quis pô-lo a funcionar, tirei-o de lá e queria encostá-lo ao futebol, que é coisa de meninos, eu até já fui presidente do Sporting. Percebe, Sampaio? Ele não é grande coisa, mas safou-me em tempos, uma mão lava a outra, não é Sampaio?

Compreensivo como sabemos ser o Presidente, deu dois dias a Santana para emendar a mão. Para corrigir a situação. Para aligeirar o estrago. Para quê? Pronto, o Presidente deu dois dias a Santana para se poder recompôr de mais uma senhora trapalhada, sinistro sintoma do governo à paraguaia que ele ajudou a formar.

sexta-feira, novembro 26, 2004

A Doutora Ursolina

Às quintas, era dia de atendimento da Doutora Ursolina, a tal da filha que era drogada mas que, ao invés de se acanhar em vergonha, sabedora da desgraça da filha que era dela, filha e desgraça, se dava ares de ensinadora de virtudes e de modos de viver. Assim era esta Doutora. Amiga de dar conselhos agora quando os não soube dar a quem devia!

Hoje, a Dona Escolástica até nem se sentia mal, menos ciática mais cruzes vergadas, a coisa ía. Faltava pouco para que fossem seis da manhã, o Sol nasceria nada tardava e hoje a Dona Escolástica não iria para a bicha do Centro de Saúde! Não estava para aturar aquela Doutora Ursolina! Hoje, a Dona Escolástica iria para o Tribunal da Boa Hora! Era dia grande, havia julgamento de pedófilos famosos! Valeria a pena!

Para o TIC sabia ir, de Corroios lá. A pé um bocadinho, comboio um bom pedaço, sai-se em Sete Rios, onde passa um autocarro que pára mesmo em frente ao tribunal. Nada mais fácil e cómodo.

Para a Boa Hora seria ainda mais fácil, pensou Escolástica, o autocarro até ao barco, o barco até ao Terreiro do Paço e daí lá esticaria as pernas, haveria apenas que subir um pouco.

Lá chegada encontrou muita gente conhecida. E não foram só jornalistas e técnicos do audio-visual que Escolástica reconheceu e cumprimentou. Também Gertrudes, Isolino e o Sr. Santos da mercearia lá estavam. E todos concordaram, aquela Doutora Ursolina não lhes enchia as medidas. Tinha um bocado a mania.

sábado, novembro 20, 2004

Ficção

Monteiro chegou mais cedo ao serviço. Sentou-se na secretária do colega, treze anos mais novo e muito irritante: o Mendonça. Sacara-lhe a "password", era a do costume, "12345678", e agora tiraria tudo a limpo. O computador demorou algum tempo a arrancar, dois ou três minutos, mas esperou com calma, havia tempo. Só se pegava às nove e ainda nem oito eram. Monteiro era um homem tranquilo. Além disso, nada havia que temer: Mendonça era um fala-barato e depressa seria desmascarado!

Finalmente! O computador estava agora a postos, Monteiro pegou com a mão direita no rato que não tem qualquer mão, mas que tem botões, movimentou-o pela mesa e carregou-lhe na tecla esquerda com o dextro apontador. Mexeu uma vez mais no rato e novamente lhe apertou os botões: O que viu no monitor deixara-o absolutamente transtornado!

Saíu do escritório com largas passadas. Determinado, abriu a porta por onde entrara e, com um salto, imagine-se, um homem com quarenta e dois anos aos saltos, com um salto chegou à porta do elevador. Chamou-o, carregando em novo botão. Ele, o elevador, já lá estava, entrou, desceu e chegou à garagem. Já a correr, chegou ao seu automóvel e por momentos hesitou. Parou de seguida. Encostou-se, arfando, à porta do condutor. Monteiro não estava em si. Eram agora oito e pouco, e dez, talvez. Abriu a porta e sentou-se no banco, já mais calmo. Recostou-se no assento e, acto quase contínuo, pôs o carro a trabalhar. Arrancou.

Ainda não eram oito e trinta e já Monteiro estava perto de casa, novamente. Entrou no café onde costumava pedir galão e bolo de arroz e pediu café baixo e whiskey alto. Dito e feito, o Jorge do café não fez perguntas, nunca fazem estes tipo dos cafés, de um trago bebeu Monteiro o café e de outro o whiskey, mais um, exigiu, Jorge, experiente, não guardara a garrafa e botou nova carga em copo velho, bebida esta segunda como foi a primeira. Mais uma, pigarreou Monteiro e outra se aviou, mas esta, demorou mais a ser emborcada. Eram oito e três quartos.

De volta ao carro, pagas as bebidas, Monteiro rumou ao serviço. Determinado e forte, tinha outra vez vinte e cinco anos! Faltavam dois minutos para as nove, entrou na garagem, chiante, e, sem hesitar apontou ao FIAT de Mendonça! A centímetros do embate, puxou com a direita o travão de mão e guinou o carro para a esquerda. Ouviu-se um estrondo: a traseira direita do Ford de Monteiro rebentara as duas portas esquerdas do FIAT de Mendonça! Rodopiou e, embalado, embicou para o Volvo do chefe: era dia de ajustar contas! Desta feita, de frente, enfiou as portas esquerdas do carro sueco para dentro, detectará o leitor mais atento um padrão, irremediavelmente perdidas. Esticou a necessária marcha-atrás para além do necessário e destruiu parcialmente a bagageira do estupor do paquete, que tirava fotocópias a toda a gente, menos a ele! O Palhaço!

Entretando, tanto barulho e destruição atraíram atenções várias e até telefonemas para centos e dozes e PSP. Mas tanto fazia. Afinal, sempre era verdade. Mendonça batera o record que há dez anos pertencia a Monteiro. Que deixara de ser o Rei do Tetris. E a quem já nada mais restava.

Eram agora nove e doze.

terça-feira, novembro 16, 2004

Canetas

Sobre a secretária, a caneta que há muito repousava, de bico tapado com plástica tampa, esboçou um movimento. Dir-se-ia que mexera sózinha, não soubéssemos nós que se não mexem assim canetas, sem que nada aparentemente o provocasse. Mas, ei-la novamente, agora vi, tenho a certeza, a caneta mexeu-se. Sacudiu, decidida, a cauda, parece que se quer livrar da tampa! E tal foi a violência do gesto que a tampa saltou mesmo! Caiu desamparada no chão e dela não se apiedou a caneta que, resoluta e de um só pinote, rodopiou sobre si própria saltando com agilidade para cima de uma folha de papel timbrado, ainda por encetar. No timbre da folha lia-se "Explosex - Explosivos Industriais" e mesmo abaixo da morada do paiol escreveu a caneta, na sua bizarra dança, "Pum!". Espantado com semelhante espectáculo, só tive tempo de fugir. Já na rua, ouvi um estalido seco, mandei-me para o chão, tapei como pude a cabeça e ouvi "Pum!". Assustado, virei a cabeça, levantei-me e voltei ao escritório. A explosão abrira apenas um pequeno buraco no tampo da mesa. Não havia estragos de maior. Experimentei o telefone, funcionava, liguei para casa e disse: "Hoje chego mais tarde. Vou trabalhar mais um pouco aqui na repartição."

segunda-feira, novembro 15, 2004

Portugal

Agora:

Santana decreta fim de austeridade. Sampaio rega uma margarida. Portas encontra-se secretamente com Gomes da Silva. Sampaio bebe chá de camomila sem açúcar. Rodrigues dos Santos demite-se da RTP. Sampaio compra pijama de flanela quentinho. Evidente processo de instrumentalização dos media em curso, pondo em causa funcionamento da democracia. Sampaio visita homólogo italiano.

Ainda Falta:

Santana vende todos os edifícios públicos, incluindo o Palácio de Belém. Sampaio paga renda ao novo senhorio. Santana decreta pena de morte para quem evoque o sagrado nome de Sá Carneiro em vão. Sampaio deixa de comer Carneiro. Santana faz aprovar, com os votos a favor da coligação e com o apoio da facção mais socratiana do PS, nova revisão constitucional que determina ser o cargo de PM vitalício. Sampaio visita Marcelo na cadeia e é chamado à atenção publicamente por Gomes da Silva. Sampaio vem à RTP responder a Mogais Ságuemento, sendo obrigado a efectuar auto-crítica. Não contente, Santana manda Gomes da Silva calar Sampaio. De vez.

sexta-feira, novembro 12, 2004

Celebridades

Um tipo, nascido e criado em Soalheira, disse-me: Antigamente respondia, a quem me perguntasse, que era de Castelo Branco. Agora, quando me perguntam, respondo apenas: Fundão.

Magustos

Em noite de São Martinho, uma dúzia de cabouqueiros, gente de muita força e pouco mimo, acotevela-se na mesa do tacho, os mais antigos com os costados virados contra o lume da lareira, os outros, mais novos, aguentam melhor o fresco. Vivazes, bebem jeropiga, anunciada em letras bem visíveis desenhadas sobre um alvo papel de mesa, Temos "geropiga", e comem castanhas assadas. Recordam divertidos aquela vez em que o Lopes disse ao Caetano que a colher de pedreiro não engata numa Komatsu WS 150! E riem alto, comem mais castanhas e bebem mais "geropiga". Muita força e pouco mimo.

terça-feira, novembro 09, 2004

O Novo "Notícias"

Eu gosto muito do novo Diário de Notícias! Faz-me rir. E eu gosto muito de rir. Por isso, gosto muito do novo Diário de Notícias.

"Menezes acena com eleições antecipadas"

Faz-me rir. E eu gosto muito de rir. É aqui, no DN, que podemos acompanhar as tropelias de Menezes e Santana, de Gomes Silva e Jorge Borrego. E que divertidas são as suas aventuras!

sábado, novembro 06, 2004

Já ninguém esperava!

Os de Canhas de Cenorim fizeram o que já ninguém esperava: Lembraram-se do Jorge Sampaio! Levaram o costumeiro folclore para a porta do ex-Presidente, a sua afamada cegada lá regressou a Lisboa: traziam pandeiro e o iam tocando mui aflitas as mulheres que esganiçavam e mui afoitos os homens que acartavam a grande custo o andor e os mais velhos da terra iam atrás empurrando um carro com muitas pipas de vinho que mui alegres todos, eles e elas, velhos e novos, bebiam sempre como sofressem de mui grande secura e como se fosse a última pingada de uva da beira alta. Mas desta vez, os de Canhas de Cenorim ainda se superaram! Ignorantes da reforma antecipada do Sampaio, trouxeram, contando que ele ainda contasse, barris de vinho que encheram de terras do volfrâmio que agora parece que é urânio, ou guisa ou gusa ou lá o que é, enfim, em vez de encherem essas pipas com a tal pomada que vinha na carroça, foi com aquilo que as encheram!

E despejaram as terras, essas canhestras gentes que julgam ainda estar Salazar vivo e Sampaio no poleiro, e cantando junto ao pandeiro, sentindo o cheiro da febra assada e da broa de centeio, com as faces bem rosadas esganiçaram mais ainda as mulheres e vociferaram risonhos os homens e os gaiatos! Canhas voltou à cidade!

Entretanto, lá, não se sabe bem onde, Sampaio verteu mais uma das suas costumeiras lágrimas: Estes, ao menos, ainda me respeitam, ainda me levam a sério, terá pensado, olha, parece que trazem um boneco com a minha figura! E que o vão queimar! Com os olhos rasos de água, comovido, Sampaio sentiu-se como se ainda fosse o Presidente. E, naquele momento, à sua maneira, ainda o era.

(Procurei por todas as páginas de informação nacional da internet e já todas haviam retirado a notícia. Não arranjei assim a desejada fotografia. Parece que já se esqueceram de si outra vez, senhor Sampaio!)

quinta-feira, novembro 04, 2004

E o segundo pior vai para...

Confirma-se a pior das espectativas para o povo americano. Têm o pior Chefe de Estado do Mundo: O Bush ganhou outra vez. Pior Chefe de Estado? Isto não me soa bem... Não! Que cabeça a minha! Os EUA têm, isso sim, o segundo pior Chefe de Estado do planeta!

segunda-feira, novembro 01, 2004

Israel

Hoje, em Tel Aviv, um bombista suicída matou pelo menos três pessoas num mercado apinhado de gente.



Há muitos anos que vemos imagens semelhantes a estas. Há demasiado tempo. Mas não há maneira de nos habituarmos a elas. Por mais que se repitam, ano após ano, década após década. Nunca será, nem poderá ser, algo de normal: Já estamos em Novembro e aquela gente ainda anda de manga curta!