quinta-feira, dezembro 30, 2004

Um Conto de Natal (3)

Barnabé tinha razão. Todos sabiam qual era a causa das suas desgraças. Silveira, farto de tanta hesitação exclamou, com as faces púrpuras de ira e de vinho: "Temos de acabar com a maldita fábrica!" Animados com a ideia, começaram de imediato a conspiração! "Talvez sabotagem!" alvitrou Alfredo, "Mas tinha de ser coisa bem feita", rematou. "É muito brando. Há que dar o exemplo, para que outras fábricas não venham depois a colmatar o que nesta se estragar" respondeu Barnabé.

Aquela tarde terminava com Lucinda pelas ruas, de recipiente cheio de azevias na mão, rumo à pastelaria que lhas compraria. Pensando no pago e nos filhos e no marido e na vida e em tudo o que pensa quem pelas ruas anda, há dez anos havia aqui uma fonte encanada, agora está aqui este prédio, enfim, antes não existia aquela maldita fábrica, que lhe atormentava a vida, e nestes pensamentos ia Lucinda quando chegou a quem lhas comprou e pagou as azevias. Negócio feito, saíu Lucinda e foi para casa. E porque os nomes importam, chama-se a pastelaria onde vende Lucinda os seus fritos "O Rei da Lícia".

Os conspiradores sairam da tasca do Chico com o desígnio firme de trazer no dia seguinte ideias concretas e sóbrias de acção e mais gente para a causa. Não havia tempo a perder e antes do Natal tinha que estar resolvido o problema. Se, de alguma forma, se conseguisse neutralizar a fábrica, talvez ainda se aumentasse a clientela e melhorar o negócio. Só assim.

Alfredo encontrou Lucinda à porta de casa. Cheirava um pouco a vinho mas trazia nos olhos a esperança e a alegria dos determinados. Contagiada, Lucinda esqueceu o hálito etílico de Alfredo e perguntou-lhe pelo dia. O homem disse à mulher: "Isto agora é de vez!" Entraram em casa e Lucinda, preocupada mas entusiasmada, adivinhou, "Vão à fábrica?". Três meneios de cabeça disseram que sim.

(Continua)

terça-feira, dezembro 28, 2004

Um Conto de Natal (2)

Sentados na mesa de madeira riscada, tinta do tinto e polida do vidro dos copos, estavam Macário e Barnabé, sócios gerentes da firma "Mabé" de pintura de automóveis. Estavam quase falidos, como Alfredo. Cumprimentaram-se e ficou Alfredo a saber que era de alguma criação e de uma pequena horta que tirava Macário o sustento e que Barnabé se governava com o salário da mulher. Sempre a mesma história, pensou Alfredo e pensamos nós. Trocadas desgraças faladas, surgiram as rodadas de vinho, para isso que não faltasse, e subia a alegria e a coragem, não tanto como o tom de voz nem como a sede, mas subiam.

Pela porta surgiu Silveira, homem corpulento e revolucionário, habituado a lutas fabris, ele que fora em tempos operário e que agora era outro falido bate-chapas. Saudou os presentes com vigor, puxou o mocho que sobrava na mesa dos que já conhecemos, pediu para ele e para eles mais do mesmo e troou: "Temos que dar a volta a isto, rapazes!". Cedo se ouviram Alfredo e os da firma Mabé, "Pois temos, mas como?". Terão acrescentado, mas não ouvi: "Falar é fácil, ainda mais com um grãozinho na asa!". Hoje já não era, seguramente, a primeira paragem de Silveira em estabelecimentos de comidas e bebidas.

Lucinda fritava, desconhecedora, claro está, das andanças do marido, mais um alguidar de azevias, que boas eram, estas só com açucar, aquelas levam também canela, não fosse a vesícula já falsa e, se calhar, nem metade chegava à pastelaria. Ainda renderiam alguns trocados, até os hipermercados as compravam, e, mesmo desconhecendo as mais elementares leis do mercado, Lucinda sabia ser isso sinal de melhores preços.

"Parece que vocês não sabem quem são os verdadeiros culpados desta nossa situação!", vociferou Silveira, "Andarão ceguinhos de todo?", acrescentou perguntando. "Não temos trabalho porque não há acidentes de automóvel! Essa é que é a dura realidade!". Alfredo pousou os cotovelos na mesa, pintando a ganga do casaco de tinto, e com as mãos segurou a cabeça, pensativo como sempre fica quem esta pose faz. Macário, após breve período de meditação perguntou: "Mas e isso é culpa de quem?". Com ar sábio, Barnabé disse: "Tu sabes muito bem quem é o culpado. Todos sabemos."

(Continua)

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Um Conto de Natal (1)

[Aviso prévio: A história que se vai contar surgiu de um almoço em família, nesta quadra festiva. A ideia não é, portanto, de minha exclusiva autoria. Só o que farei com ela.]


A poucos dias do Natal, Alfredo mal tinha dinheiro para as despesas correntes da casa, quanto mais para comprar a "playstation" ao mais novo e o telemóvel à mais velha. Era realmente deprimente não poder dar aos rapazes aquilo que lhes traria tantos momentos de alegria. Mas a sua profissão, bate-chapas, estava realmente em decadência. A menos de pequenas amolgadelas e um ou outro toque insignificante, não havia trabalho. E sem trabalho, não havia prendas, nem, muito menos, alegria.

Em casa, a mulher, que em tempos trabalhara numa loja de peças de automóvel, afadigava-se na fritura de azevias que venderia em pastelarias da vizinhança, sempre aproveitava o tempo e talvez conseguisse juntar algum dinheiro. O Alfredo, coitado, andava tão desorientado com a falta de trabalho e as crianças eram ainda tão novas, havia que trabalhar e Lucinda fá-lo-ia. Pena que não fosse na loja de peças de automóvel, mas nessa já não podia ser, falira: Já ninguém precisava de peças de automóvel.

Nessa tarde, tendo Alfredo terminado uma pequena reparação, que lhe rendera magra recompensa, dirigiu-se à taberna do Chico, onde sabia pararem irmãos de ofício e, claro está, de destino. O Chico trabalhara há alguns anos no negócio, mas apercebera-se da grande mudança que aí viria e mudara de arte, agora era taberneiro e, por amor aos que foram dele, fiava-lhes uns "penáltis". Eles precisavam e ele não.

(Continua)

sábado, dezembro 25, 2004

Patrulhamento Natalício da Blogosfera

Sendo este o primeiro Natal do Meia Livraria, e nesta época em que blogues catalogam blogues, neste, sempre de espírito nataleiro e reverente, patrulha-se a rede em busca de sinais da quadra.

A Aba de Heisenberg recorda-nos um dos mais belos contos que alguma vez alguém terá escrito: O "Natal" de Torga trazido pela Isabel Prata.

Daquele que para sempre sentaram na Brasileira, vem o Almocreve trazer um poema. O "Natal" de Fernando Pessoa, que é mais de dúvida e de espanto que de paz e esperança. Como sempre é. E, talvez, como deva ser.

A Guida traz-nos a brilhante Ladaínha dos póstumos Natais de Mourão-Ferreira.

O Homem Neves, do Sob a Estrela do Norte mostra-nos uma imagem da fresca Finlândia, e transmite-nos algumas palavras em "nori", seguramente muito agradáveis.

Um belíssimo poema, tirado do Natal dos Hospitais, pode ser lido n'O Cidadão do Mundo. É um poema que alimenta a alma, que dá que pensar.

Original é o cartaz natalício mostrado pelo muito atento e muito elegante Substrato.

Por último, mais uma referência à nossa grande literatura, com um enlace para "O Suave Milagre" do Eça, num natalíssimo artigo d'O Velho da Montanha.

Boas Festas a todos!

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Humores (3)

A relação directa que tem o humor com a inteligência torna o tema por vezes embaraçoso. De tal forma que, no tal debate televisivo da passada semana, todos se engasgaram quando se falou da grande cisão de "humores". Não se trata de novo humor nem de velho humor. Trata-se da grande e intransponível barreira cultural e intelectual. A alguns, aos da revista e do "eles querem todos é poleiro", está para sempre vedada a compreensão de formas de humor mais avançadas, mais puras, limpas do folclore trauliteiro e boçal do piscar de olho revisteiro. Piscar de olho que também é de Solnado e de Nicolau.

O humor do Gato Fedorento não só é bastante diferente do "outro" humor, como lhe é diametralmente oposto. Parodia muitas vezes os Solnados e os que se riem dos Solnados. Daí o constrangimento de Ricardo Araújo Pereira quando confrontado com a pergunta: "Como se sente no meio destes monstros da comédia?". Seria pergunta matreira não fosse a manifesta ignorância de quem perguntou, Fátima Campos, em matérias de humor. Coisas de quem se leva demasiado a sério.

Tal como a esmagadora maioria dos espectadores televisivos, Fátima não conhece ou não compreende o excerto da rábula "O homem a quem parece que aconteceu não sei o quê". Para ela, o entendimento da rábula resume-se ao directo "Eles falam e não dizem nada" como paródia parquemayerense da suposta e muito gasta vacuídade dos políticos. No fundo, essa paródia directa quase desresponsabiliza na totalidade aquilo que retrata, banalizando a tal ineficiência, colmatada com o piscar de olho cúmplice e solnadesco de quem encolhe os ombros resignado. Não se aborrecem pela incompetência de quem os governa, aborrecem-se por não saberem como o fazem e porque o fazem os políticos.

Quem o Gato Fedorento retrata no anúncio do Montepio é um tipo que se ri com Solnado. Que lhe achará, seguramente, muita graça. E nós, que sabemos o que são blogues, ao contrário de Nicolau, riríamos, não fossem tão trágicas as suas figuras, deles: De Solnado e de Nicolau.

sábado, dezembro 18, 2004

Humores (2)

Outra das figuras em destaque, representando o velho humor, foi Nicolau Breyner. O esforço mental empregue na tentativa de me lembrar que raio de humor terá feito Nicolau revelou-se infrutífero. Não me lembro. Sei que fez umas "sitcom", que não vi, mas humor penso que não. Talvez aquele vetusto programa, "Eu Show Nico", fosse humorístico. Novamente, não me lembro. Mas tanto faz. Breyner é um tipo simpático e, pelo menos, não me leva às lágrimas nem à extrema amargura quando o vejo. Valha-lhe isso.

Almeida Santos, como homem inteligente que é, lá debitou as suas larachas, episódios da vida parlamentar, e até disse algo que merece reflexão: Em Portugal, toda a gente quer ter piada, mesmo no Parlamento, ou em especial no Parlamento. Eu diria que todos querem seguir a tradição queiroziana de fina ironia e farpa aguçada. Mas a quase todos falta a argúcia e esplendor argumentativo, bem como a necessária velocidade de raciocínio. A Almeida Santos não. Foi, no entanto, esmagado pelo seu boneco, o "Almeida Secas" numa das mais brilhantes rábulas de sempre do Contra Informação.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Humores (1)

No "Prós e Contras" da passada segunda-feira, debateu-se o tema do humor. Sentados no palco estavam representantes do "novo" e do "velho" humor, capitaneado o velho pelo velho Solnado e o novo pelo novo RAP, nome pelo qual, irritantemente, insistiu Fátima Campos em chamar ao visivelmente incomodado Ricardo.

Nesse debate, deliciosos aspectos trouxeram à discussão contornos de elevada comicidade, sendo um dos mais notáveis a manifesta ignorância que a moderadora demonstrou à saciedade no que respeita ao Gato Fedorento. A apresentadora, que se revelou verdadeira humorista, teve ainda oportunidade de baralhar aquilo que seriam as opiniões de Solnado, que, segundo julgo ter percebido, disse algo sobre Bruno Nogueira, que a Fátima confundiu com Ricardo Araújo Pereira, o que Solnado prontamente negou, mas que era do Gato Fedorento na mesma, insistiu Fátima, o Bruno, deve ser, disse Solnado, é capaz, pensou Fátima e com lágrimas de riso na assistência e um esgar de desconforto na cara do desgraçado Ricardo se findou este grande momento de televisão.

E já que falo no Solnado, o mais trágico de todos os humoristas, o mais triste dos palhaços tristes, lembro-me que, desde há vários anos, sempre que o vejo fico constrangido com tanta injustiça, com tanto esquecimento, com tanta melancolia. Sempre que vejo Solnado, fico deprimido e mal seguro as lágrimas, tal é a tragédia que emana daquela alma penada.

domingo, dezembro 12, 2004

Obviamente

Algures no Palácio de Belém, um destes dias.

Jorge Sampaio _ Obviamente, demito-o!

Santana Lopes _ Porquê?

JS _ Mais sabe você!

SL _ Não compreendo, explique-me isso três vezes.

(Três vezes explicou JS e três vezes ficou por compreender. SL tinha a compreensão lenta)

JS _ Ó homem, você está demitido e pronto!

SL _ Não senhor. Eu é que me demito!

JS _ De acordo... mas olhe que perde o subsídio de desemprego!

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Garrett

Ontem comovi-me com os preparativos das comemorações do 150º aniversário do desaparecimento de Almeida Garrett. Foi com mal disfarçado orgulho em ser português que assisti a algo só comparável ao "Bloomsday" em Dublin. Bastou-me ver a Rua Garrett tão brilhante, tão bonita, tão cheia de luzes, com saltimbancos, enfim, vestida de gala para a grande homenagem!

Infelizmente não pude hoje estar presente nas cerimónias, a profissão obriga-me por ora a afastar-me da capital. Mas estou, tal como você, afortunado leitor que assistiu em plena Rua Garrett à justíssima homenagem ao nosso máximo expoente do Romântico, se não em corpo, em muita alma com todos quantos admiram o escritor e o homem Almeida Garrett.

Que ufano ficaria o já de si tão ufano Garrett se, saindo do seu Grémio, pela Ivens, desse com o espectáculo de luz e de alegria em que se transformou a sua Rua!

Mais espantado ficaria se desse com uma interpretação da "Leitaria Garrett" de Vitorino pelo grupo de canto gregoriano que há algum tempo editou um belíssimo álbum de "covers" de música da moda!


Almeida Garrett

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Mitos

Nem sempre é fácil encontrar mitos para descascar. Tal como um escultor que necessita de um pedaço de mármore incorrupto e uniforme para que faça nascer David, precisa quem escreve de mitos gordos e de pata larga.

O mito da Sopeira e do Magala calça 48.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Duplas Famosas - Um Desafio

Sempre me entusiasmaram as duplas famosas!

Batman e Robin (1),
Portas e Santana (2),
Douala e Liedson (3),
Paulo Madeira e Ronaldo (4),
Pinto da Costa e Reinaldo Teles (5),
Sócrates e Vitorino (6),
Dom Quixote e Sancho Pança (7),
Manuela Moura Guedes e Miguel Sousa Tavares (8),
Mickey e Pateta (9),
Chitãozinho e Xóróró (10),

são apenas 10 exemplos de duplas genuinamente famosas. Muitas mais existem e sendo assunto tão interessante, propunha aos leitores do Meia Livraria que enviassem pacotes de 10 duplas famosas (na janela de comentários) para que pudéssemos elaborar um top 100. Que tal?

Alegrias

Há fases boas e más na vida das pessoas. Há chavões ainda piores que este. Há também alegrias que só a arte sabe exprimir. Regressando ao chavão, também nos países haverá uns dias melhores e outros piores. E na história de Portugal, poucas serão as semanas com a excelência desta.


"Onde estás tu, meu maroto?"

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Humilde Vénia

Após estes quatro inacreditáveis meses, a decisão de Sampaio de terminar o triste espectáculo da governação santanenta, foi balsâmica. Com Lázaro fez Jesus o que Sampaio fez a si mesmo.

Portugal perdeu o seu pior Primeiro-Ministro de sempre e recuperou o seu melhor Chefe de Estado. Perdeu a ameaça censória e fascista de Morais Sarmento, perdeu a arrogância paternalista de Bagão Félix e das suas sinceridades, ninguém lhas pediu, perdeu o sinistro tachista Chaves e a restante corja favorecida, perdeu o seu pior governo de sempre.

Mais importante ainda, Portugal recuperou um grande Estadista e um grande Presidente da República. Homem que deixou à beira de um ataque de nervos a sua mais fiel base de suporte, ao manifestar o que se julgou ser falta de coragem e até de interesse nos destinos do país, mas, com efeito, se tratou de uma decisão alicerçada na profunda visão sobre a realidade de Portugal, só ao alcance dos grandes estadistas. E o Senhor Presidente Jorge Sampaio mostrou ontem que não anda aqui a brincar. Mostrou ainda que, quando penso que já ninguém esperava, não permitiria que se fizesse de Portugal coutada de gente parva.

Aliás, a escolha do momento da decisão foi absolutamente oportuna, ainda que inesperada! Paradoxalmente, aquilo por que, pouco antes de ser pública a dissolução em curso da AE, ninguém estava genuinamente à espera, ou de ser "razão para tanto" revelou-se, logo após a boa nova, fonte de consenso. Poucos, ou nenhuns, após curta ponderação, terão ficado fora de sintonia: Sampaio decidira bem.

E é pela exactidão, pela inteligência e pelo autêntico amor pela Pátria que o Meia Livraria quer deixar aqui uma humilde vénia ao Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio. Obrigado.

(Ainda bem que a severa campanha de pressão levada a cabo por este blogue sobre o PR surtiu algum efeito!)