sábado, dezembro 31, 2005

Deixar de Fumar

Vivo perto de uma churrascaria. Todos os dias, após o jantar, vou à varanda fumar um cigarro. A mistura do cheiro do tabaco com o aroma leve de frango assado e com o cheiro próprio das cidades dilata-me a existência. Em dias bons, também eu trago artificiais cheiros que se trocam com os outros, enfatizando, ao mirar a torre de uma moderna igreja e a metade da cidade que um 4º andar permite ver, a magia do momento: Magia só permitida, claro, pela especial luminosidade de uma lua certa.

Como posso deixar (novamente) de fumar?

Pacientemente, aguardo pelo fecho da casa dos frangos para firmar a dura decisão.

Claro.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Escritores

Não há escritores maus. Só escritores que leram pouco. Escritores que leram poucos livros escritos por escritores que leram muitos livros. Escritos por outros escritores que também leram muitos livros e assim sucessivamente.

Não é fácil entender a teoria literária e o anterior parágrafo é disso prova cabal.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Boas e Más Notícias

Já que os meios de comunicação formais se esquecem de dar as boas notícias, dá-as o Meia Livraria: A Seca acabou! Choveu na altura certa, em boa quantidade, e chove agora.

Saíram as gentes à rua? Dançaram embriagadas nas praças das nossas cidades? Cantaram e pularam? Que fizeram as nossas gentes, tão assustadas no Verão com a Seca, para comemorar os dias de fartura que aí vêm? Quantas velas foram acesas em honra de NS Fátima? Sacrificou-se algum porco, matou-se algum boi? Fizeram-se libações? Não.

Viu-se um pouco de novela, falou-se de futebol, acompanhou-se a "primeira companhia" da TVI, vibrou-se com as vidas das celebridades portuguesas e estrangeiras, comentou-se o nascimento de Leonor, infanta de Espanha, chorou-se e riu-se com as tropelias da nossa juventude nos "Morangos com Açúcar". Comeu-se, bebeu-se, fizeram-se as necessidades básicas da condição humana (para os leitores do 24 horas traduzo: cagou-se e mijou-se).

Pode-se então chegar à triste conclusão: O nosso povo é viciado em desgraça e tristeza. Alimenta-se de fado. Triste, vulgar e feio fado. Seriam más se fossem notícias. Mas não são. É coisa velha.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Natais de um Blogue Ateu

Por ser ateu, este blogue não deseja aos seus leitores um bom Natal. Também não deseja a todos vós festas felizes na companhia dos vossos familiares e amigos!

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Toques de Telemóvel

Hoje, na fila do supermercado, tocou um telemóvel. E que pensa o leitor que soou? A nova da Madonna? Uma modinha dos ABBA? Algo de Emanuel ou Tóni Carreira? Nada disso. Soou a "Carvalhesa" que é uma espécie de hino festivo do PCP.

Estivesse o Ribeiro e Castro naquele supermercado e ter-se-ia mandado imediatamente para o chão gritando: "Fujam! Vai explodir! É um atentado terrorista!"


"São eles! Os comunas! Fujam!"

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Encantos

Para José Afonso, o desencanto mais não é que uma boa desculpa para os traidores. Para os que atraiçoam o Sonho e a Esperança. Talvez por isso se fique com o coração em brasa quando se escuta a "Balada do Outono".

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar



O Encantador Zeca Afonso

sábado, dezembro 17, 2005

O Rapto do Menino Jesus

O sinistro desaparecimento do Menino Jesus do presépio de Portalegre causou natural comoção nas populações locais. Polícia, Igreja, Governo Civil, Ministério Público, todas essas entidades tomam agora medidas mais ou menos enérgicas numa tentativa de fazer face ao atentado contra o Bem e contra o próprio Menino!

Entretanto, os populares, culpando os protestantes anglo-saxónicos, retaliaram de imediato: por diversas varandas da cidade de Portalegre podem ser avistados diversos bonecos representando o Pai Natal pendurados. Um espectáculo sinistro, repetido agora um pouco por todo o país. Esperemos que os nossos aliados ingleses nos perdoem pela ofensa e não nos arrestem a armada nem nos bloqueiem o porto de Xabregas.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

O Bin Laden é um Malvado

Finalmente Josué poderia voltar à sua terra! Em pleno Inverno de 2003 que bem sabia fugir ao frio de Portugal e regressar ao sol de Cabo Verde! Passou umas semanas com a família, matou saudades e, ao regressar lembrou-se dos amigos que tinha por cá, por Portugal. Vou levar-lhes umas lagostas, pensou!

E assim se apresentou no Aeroporto Amílcar Cabral na ilha do Sal, munido de bagagem e de meia dúzia de lagostas. Ao fazer o "check in" teve um dissabor: "As bagagens vão mas as lagostas ficam!", disse-lhe o funcionário do Aeroporto. Desanimado, Josué perguntou porquê para ouvir: "Desde que o Bin Laden rebentou as torres na América, não se pode transportar marisco nos aviões!"

O funcionário do Aeroporto olhou para a geleira, olhou para o avião que levava Josué para Portugal, já longe, e ficou indeciso. Será que a família conseguiria comer mais lagostas? Na dúvida, levou-as. Na pior das hipóteses dava-as ao porco.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Anjolas!

Portugal é pequeno, pobre e as suas gentes incultas: brutas, cretinizadas por séculos de jugo católico, não têm recursos naturais, não sabem ler nem escrever, nem somar nem subtraír, nem ouvir música, quanto mais fazê-la, em suma, são uma nulidade. Somos provincianos, invejosos, pequeninos e só ligamos ao futebol. Votámos no Isaltino e na Felgueiras, tivémos o Santana a primeiro ministro, estamos irremediavelmente condenados!
Ai de nós!
Poderia muito bem ser o discurso de uma banda punk dos anos 70, mas não! É o eterno diagnóstico dos males portugueses, não obstante o abnegado esforço dos nossos melhores cérebros por alardeá-lo pensando inocentemente que isso bastaria para que algo mudasse.
Anjolas!

domingo, dezembro 11, 2005

Pólux

Todas as grandes superfícies comerciais são más. Menos uma. A Pólux. Sita na baixa lisboeta, na rua dos Fanqueiros (e na da Madalena), tem inúmeras vantagens sobre as concorrentes:

1)Localiza-se numa das mais belas áreas da cidade de Lisboa e, provavelmente, do Mundo inteiro.

2)Não tem site na internet.

3)Não sendo a maior das superfíces comerciais, é a mais alta que conheço: tem 9 pisos.

4)Decorre de 3) que possui, no ultimo piso, uma admirável vista sobre o descrito em 1) ao que se soma no corrente ano o não insignificante bónus da vista sobre a árvore de Natal da Opus Dei.

5)Existem na Pólux almofadas de todas as formas e feitios.

6)Na Pólux rejuvenesce-se 30 anos, pelo menos. Visitá-la é enriquecedor. Visitar o Colombo cretiniza.

7)Faz-se exercício ao subir os 9 lanços de escadas.

Podia enumerar muito mais vantagens da Pólux sobre as suas concorrentes, mas basta-me por ora deitar o adversário por terra. Longe do Meia Livraria está a intenção de acabar com o Colombo e quejandos. Sem eles não poderia fazer as minhas compras nesse lugar mágico que é a Pólux e que é também, fica o leitor a saber, o Natal em-si.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Debates e o Vieira

Ontem começou a época do debate televisivo! Cavaco e Alegre protagonizaram um aborrecido momento de televisão. Sem nada para dizer, Alegre nada disse, com pouco para dizer, Cavaco nada disse também. Talvez por nada haver a dizer.

Refresque-se a campanha e apoie-se Manuel João Vieira: O verdadeiro Manuel Alegre!


Vamos Embora Manuel!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Aumentos

Aumentam as taxas de juro na União Europeia! Bom sinal, segundo parece. Significa que o valor do dinheiro aumenta, o que, pela simples lei da oferta e procura, equivalerá a um maior entusiasmo na aquisição desse dinheiro. Mais malta a querer empréstimos, para investir, para formar empresas, para comprar casas e carros, em suma e repito-me: Um bom sinal.

Como Portugal faz parte da dita União Europeia, também por cá se tornará mais caro o dinheiro. Mas onde estão as novas empresas? Onde está a corrida ao dinheiro para carros e casas? No entanto, não há que desanimar: faltam-nos esses pormenores, mas o aumento da taxa já cá canta. Para citar a infinita sabedoria popular: "Uns bebem o vinho, os outros apanham a bubadeira!"

terça-feira, novembro 29, 2005

A Indonésia era Nossa!

Portugal poderia ter encurralado os indonésios em Timor após o 25 de Abril, dizem fontes seguríssimas dos EUA. E nem era preciso gastar muito dinheiro com munição, asseguram as mesmas fontes.

Aquela rapaziada que nos governou após a Revolução dos Cravos era, com efeito, malta de vistas curtas! Poderíamos ser hoje donos de um império com mais de 200 milhões de habitantes e vêmo-nos reduzidos a este canapé europeu (como lhe chamava D. João VI, o pai do Pedro e do Miguel). De Lisboa governaríamos todo o arquipélago indonésio e tudo isso em troca de quê? De meia dúzia de quilos de pólvora e um punhado de cartuchos!

Não ouviram os americanos e deixaram fugir a oportunidade de encurralar os indonésios! E se a todos parece evidente a superioridade física do soldado português face ao militar indonésio, já causa estranheza a não imposição atempada dessa manifesta força.

Deixámos fugir as Índias, o Brasil, o ouro do Brasil, Angola, o petróleo de Angola, os empréstimos do fomento do fim do século XIX, os fundos da UE, o ouro nazi e agora isto! Segurámos, valha-nos isso, o Euro 2004 e um 8º lugar na Eurovisão.


Indonésia: Província de Portugal?

sábado, novembro 26, 2005

Pássaros na Lezíria Grande

Águias, carraceiros, pardais, estorninhos, tordos, tudo o que é pássaro vôa pela grande lezíria. Não sendo a ornitologia uma das minhas habilidades, nutro pela vida alada uma forte curiosidade e pergunto-me: O que seria das águias sem os cabos de telefone? Onde pousariam? E o que seria das cegonhas sem a EDP e os seus postes de alta tensão? E os pardais que comeriam se nada fosse semeado?

Triste seria a vida dos pássaros da Lezíria Grande sem nós! Sem um coelhito atropelado na Estrada do Camarão, o que comeria a águia? E se não deitássemos a sande de torresmos a meio pela janela do carro o que depenicaríam os pobres tordos!

Haverá algo mais belo que a simbiose entre o homem e o animal?

quinta-feira, novembro 24, 2005

A Casa dos Couratos

Hoje almocei na casa dos couratos em Vila Franca de Xira. Não se assustem os leitores que não transformarei o Meia Livraria em diário pueril onde se desbaratem os nadas e as vulgaridades que constituem o dia a dia do comum cidadão. Para dizer uma expressão que há muito não dizia, e que é do O'Neil, não vos aborrecerei com a minha vidinha.

Falo-vos dos melhores couratos que a humanidade consegue extraír do porco: os couratos da tasca "O Túnel" em Vila Franca de Xira, para muitos, o ex libris da cidade! Foi a segunda incursão a este mítico local que efectuei nos passados meses. Na primeira, fiz-me acompanhar pela "Morte em Veneza" de Thomas Mann cujas primeiras páginas devorei segurando o livro com a mão esquerda e o courato escorrendo molho picante com a direita. Lembro-me da sensação inebriante e quase mágica que o gondoleiro bandido me causou quando empurrei um pedaço da pele do porco pela goela abaixo com o auxílio de uma farta golada de "Frutol". E qual não foi o meu espanto quando mirei com Mann a família polaca no hotel não perdendo de vista, pelo canto do olho, a tropa trolha que entrara ululante pela taberna!

Hoje fiz-me acompanhar pelo "meu" encarregado, um tipo bem disposto com quem partilho o amor pelo courato. Somos, por assim dizer, irmãos de alma courateira. Recordou-se da última vez que ali viera, esforçou-se por apurar o ano, 1996 ou 1997, e contou-me com precisão a história desse dia. Lembrei-me também do distante ano de 1991 em que, após a elaboração da prova específica de matemática para acesso à universidade, que por me chamar Cláudio e por começar Cláudio pela letra C me tocou fazer em Vila Franca, ali estive. Chamasse-me eu Xavier e calhar-me-ia Malveira da Serra, ou Cabo da Roca, mas assim não é e assim colmatei a dura prova na casa dos couratos com alguns amigos de nome César, ou Carlos, ou Daniel. Partilhei esta história com o meu irmão de courato e revelei-lhe a nota que tive, os problemas que saíram, o meu método de estudo, enfim, partilhei aquilo que sempre se partilha com um dos nossos. Falando de boca cheia e mão pingada de picante para ouvidos que guardavam, como guardam as asas das aves os seus ovos, uma boca também cheia de divino courato.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Homossexuais de Fora das Igrejas

A decisão do Vaticano de impedir a ordenação de padres homossexuais despertou já diversas reacções indignadas: Desde as associações de homossexuais, directamente afectadas pela decisão, até ao corpo de bailarinos do Politeama!

O novo papa Bento XVI começa a impôr a sua lei e as vítimas são as do costume: os homossexuais agora, os ciganos depois, os judeus logo a seguir, eslavos em geral, africanos, enfim, o cheiro das fogueiras depressa se fará sentir por todo o mundo católico. Em breve curar-se-ão os males do mundo em autos de fé e churrascos humanos pelas praças das cidades tementes a Deus e respectivo séquito de santinhos.

A polémica medida faz ainda temer pelo contigente sacerdotal da santa igreja! Impedidos de celebrar missa, que farão os padres homossexuais já em funções? Dos 7 e tal percento de desempregados em Portugal, por exemplo, passar-se-á num ápice para os 10 ou 12!

E que pode agora fazer um pobre homossexual de provínicia para esconder as suas tendências naturais? Sem o refúgio do seminário? Será sinistro o seu futuro!

segunda-feira, novembro 21, 2005

Arriba Franco!

Comemora-se agora os 30 anos de uma data feliz para todo o Mundo e para quase toda a Espanha: A morte do ditador e torcionário Franco. Que a terra lhe pese bastante! Sobre essa sinistra figura lembro-me sempre daquela célebre frase: "Arriba Franco! Mas alto que Carrer Blanco!"

Uma frase bem disposta que alude ao assassinato de Carrer Blanco que foi pelos ares num atentado à bomba. Terá subido bem alto, esse senhor, e muitos queriam ver o ditador subir mais alto que ele. Infelizmente não subiu tão cedo como deveria e acabou descendo, há 30 anos, ao Inferno, de onde nunca deveria ter saído.

domingo, novembro 20, 2005

Presidenciais

Quem ganhará? Soares ou Alegre? Louçã ou Jerónimo? Carmelinda ou Garcia Pereira? Três excitantes duelos esperam por nós no dia 22 de Janeiro de 2006! Cá vão as minhas apostas: Soares x Alegre 1X; Louçã x Jerónimo X2; Carmelinda x G Pereira X2.

Façam também as vossas!

sexta-feira, novembro 18, 2005

Aveiras e a Coluna Dorsal

Motivos profissionais mandaram-me ontem para as altas serras da Beira Alta. Para tal, havia que acordar cedo. Feitas as contas e para uma viagem calma, teria de me levantar às seis da manhã. Tocou o despertador e, confrontado com a necessidade de me levantar, equacionei as costumeiras desculpas para adiar tão indesejado acto. Venceu a espinha dorsal e, levantando-me corajosamente, consegui chegar ao destino meia hora antes do combinado para um um café descansado e uma leitura do jornal antes do encontro marcado. Tudo correu como previsto.

Ao almoço, através de um televisor, soube que na autoestrada A1, em Aveiras, no sentido Sul-Norte, houve um brutal acidente por volta das oito da manhã envolvendo oitenta viaturas e causando a morte a três pessoas. Tivesse o meu lado invertebrado vencido e não teria passado pelo aziago local meia hora antes do acidente, como passei. Talvez os planos revistos não acertassem no eventual atraso admitido, talvez me atrasasse mais um bocado, se lá chegasse de todo.

De vez em quando sabe bem ter coluna dorsal.

quarta-feira, novembro 16, 2005

O Tabuleiro na Montra

Um prestigiado xadrezista holandês, Hans Ree, conta uma história que a todos diverte e dispõe bem: Numa loja de Amesterdão, estava um tabuleiro de Xadrez na montra, com as respectivas peças dispostas ao contrário. Como o leitor mais versado nas artes do nobre jogo sabe, fica a casa branca à mão direita de ambos os jogadores, regra ditada pelas leis do jogo e da simetria. Ree, ao passar pela tal loja e ao dar com o erro do lojista, entrou. Falou com o proprietário, fez-lhe saber que trilhava ínvios caminhos e quis-lhe emendar os lamentáveis lapsos, para ouvir uma inesperada resposta: "Pensará o senhor que é o primeiro pedante a entrar na loja para me elucidar? Pois saiba que muitos o fizeram já e todos alguma coisa compraram, que para isso tenho eu os dotes de vendedor. Com o tabuleiro assim montado, em jeito de engodo, não me faltam xadrezistas dentro da loja". Eventualmente Ree terá, que remédio, comprado algo.

Termina assim uma bonita história que, por cá, teria contornos bem diversos. Nas lojas onde se vendem tabuleiros de Xadrez em Portugal é costume distribuir-se as peças pelas casas negras do damasquinado, preenchendo todo o tabuleiro que aparenta assim raquitismo e consequente desproporção. Nenhum xadrezista entrará pela porta para corrigir o relapso vendedor, em primeiro lugar pela vergonha que têm sempre os portugueses de ser o que são e, em segundo, pela evidente inutilidade do esforço, dado o grotesco afastamento do exposto à singela realidade. No entanto, estou seguro que entrasse o incauto xadrezista na loja e dela não sairia sem tapete ou candeeiro de pé debaixo do braço.

terça-feira, novembro 15, 2005

O Conhecimento

Porque razão nos dá o conhecimento, ainda que incompleto e canhestro, tanta alegria? Existirá algo melhor que compreender, que sentir o clarão que o saber sempre acende nas nossas almas? E porque será que tantos elogiam a ignorância? Ter-se-ão esquecido da magia da aprendizagem, da vertigem da descoberta?

Assustar-se-ão com o estatuto de neófito, de ignorante, de derrotado? Como, se a mim nada me entusiasma mais que descobrir-me numa sala onde sou eu o menos sabedor e logo o que tem mais a aprender? Não rejuvenescemos todos quando começamos algo de novo? Qual será a sinistra razão que senta agora milhões de portugueses em frente ao aparelho de televisão onde apenas lhes é dado o que já sabiam: Que o Francisco José traíu a Jocimara e que a Neide afinal é filha do Coronel?

segunda-feira, novembro 14, 2005

Manifestações em Belém

Sempre que passo por Belém ao domingo dou com uma razoável manifestação. Não muito grande nem muito pequena. Constituída na sua maioria por gente cigana e por gente de fato de treino preto, verde fluorescente e lilás, lá estão eles, os manifestantes, apinhados, tapando a bela calçada à portuguesa, tão nossa, nossa dos do fato de treino que aos outros nunca ninguém viu assentar o mais pequeno paralelipídedo que fosse, que fique claro.

E que terá feito o Presidente, pensará o leitor, para que tantos e tão patuscos se reunam em Belém num ritual dominical? Seria válida essa questão se não estivesse o magote deslocado um bom quarteirão do Palácio Presidencial. Escorrem, fique o leitor sabendo, escorrem luzidios, derramando-se pela rua, vindos de dentro da casa dos pastéis de Belém!

domingo, novembro 13, 2005

Deliciosamente Migado

Num destes dias, tomava um café no único estabelecimento aberto em toda a Lezíria Grande, e ouvi, como sempre faço com desavergonhança, uma alheia conversa em que um cidadão, calramente alterado, explicava a dois atentos companheiros a sua aventura do dia: "Se eu não me tenho desviado com o carro ficava todo migado!"

Deixei em itálico a palavra migado por a considerar, acima de todas, um dos mais belos vocábulos da língua portuguesa! Confesso-me até um pouco baralhado, taralhouco, e feliz por se ter o homem safado de boa!

Que bonita é a nossa língua!

sábado, novembro 12, 2005

Os Assassinos

Ontem, à porta de um tribunal algarvio, acotovelava-se a turba guinchante, clamando vingança contra os algozes da pequenita Joana! Assassinos, gritava uma mostrando os dentes que lhe restavam, Tragam-na cá para fora, ribombava outra, com falsetes rompidos pelo catarro.

Não tenha o leitor a menor dúvida: Daquela turba revoltada poderá recrutar assassinos tão ou mais tenebrosos do que os julgados ali. São os assassinos em botão que agora se indignam e que amanhã desabrocharão em sinistras flores vermelhas de sangue. E negras de ignorância.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Inveja

O Dr. Soares candidata-se à Presidência da República aos 81 anos. Hoje está em Espanha para umas conferências, ou entrevistas, ou lá o que é. Mandata-o, para a juventude, uma boneca que tanto é do Bloco de Esquerda como do Soares como do Sporting ou do Benfica mas que enfeita bem e alegra a alma. Soares tem 81 anos e não joga dominó na tasca do ardina.

O Dr. Soares tem uma fundação, tem um séquito de apoiantes, é famoso e diz o que quer. O maior partido português apoia-o. Ele tem 81 anos e não está no lar sentado numa cadeira mirando de cérebro desligado a parede por trás da televisão que devolve a Praça da Alegria. Soares não espera o Domingo para ver algum dos netos.

Não sei se vou votar no Soares nem isso importa. Nem gosto por aí além do Dr. Soares. Sei apenas que tenho uma profunda inveja antecipada por esse homem de 81 anos. E mais inveja ainda de um homem que manda à merda quem achar que deve mandar. E que mandou à merda o chinelo quentinho e a manta sobre os joelhos.


Dr. Mário Soares.

quinta-feira, novembro 10, 2005

"Chess Bitch"

Por outras paragens, o Xadrez evolui e mostra-se à altura dos tempos modernos. Em Nova Iorque, no lendário Marshall Chess Club em Manhattan, foi lançado um livro escrito por Jennifer Shahade, a campeã norte-americana de Xadrez de 2004, com o sugestivo título "Chess Bitch". Pelo que consta, versa a invasão feminina da cena xadrezística nos EUA focando-se nas diferenças entre géneros e atacando alguns preconceitos. Parece que nem Garry Kasparov foi poupado.

Para os leitores que não dominam inglês, traduzo a palavra que não conhecem: Chess significa Xadrez. Para os bloguistas de direita esclareço: Manhattan é aquilo a que vocês nos vossos blogues chamam, com afecto, "Big Apple".

Para finalizar, deixo esta opinião: "One woman’s fascinating true story of the life of a champion chess player. All women should take up the challenge and pick up a board! Chess anyone?" – Yoko Ono (Alguém se lembrava dela?)


Chess Bitch de Jennifer Shahade.

quarta-feira, novembro 09, 2005

TVI

Nos noticiários da TVI a palavra medicamento foi abolida devido à sua enorme complexidade. Substitui-se para os fins necessários pela palavra remédio.

O mais sinistro de tudo é a absoluta veracidade do anterior parágrafo, caro leitor.

terça-feira, novembro 08, 2005

A Ponte de Granada

Morreram 6 operários nas obras de construção de uma ponte para a autoestrada do Mediterrâneo, em Granada. Este tipo de acidente é indesculpável. A direcção técnica do obra, a fiscalização, o dono de obra, o projectista da estrutura, o projectista do sistema de cimbre, todos, ou quase todos, têm de falhar para que colapse a estrutura de suporte construtivo de uma ponte desta dimensão.

O sistema utilizado, com recurso a uma viga metálica apoiada nos pilares, onde corre uma cofragem deslizante, é bastante complexo e exige um controlo rigoroso de todas as ligações metálicas aparafusadas e soldadas na viga, bem como uma verificação milimétrica do posicionamento das cargas, de forma a poder determinar os esforços actuantes na ligação entre a estrutura do cimbre e o pilar.

Sobre um modelo de cálculo correcto, bastará uma verificação topográfica adequada e um controlo de qualidade apertado aos equipamentos de cimbre (viga e carro) para que as coisas corram bem. Neste caso, o colapso deu-se no apoio da viga metálica sobre o pilar podendo-se questionar de imediato a suficiência das ligações entre a fase já consolidada do tabuleiro e a zona de arranque, bem como o estado das ligações aparafusadas do sistema de asnas que constitui a viga de suporte da cofragem.

Essas ligações aparafusadas são efectuadas com parafusos de aperto controlado com chave dinamométrica que só podem ser utilizados uma vez. Uma das prováveis causas do acidente será a eventual reutilização das asnas que poderiam estar dimensionadas para outro vão, ou a indevida utilização de parafusos já esforçados. Não seriam razões económicas a provocar este tipo de falha, seguramente o custo dos parafusos não pesará nesta empreitada, mas sim a eventual preocupação com prazos a causar algum desleixo neste importantíssimo ponto.

As asnas tinham sido inspeccionadas 3 meses antes do acidente, dizem os jornais. Isso pouco ou nada importa para este caso. Nessas inspecções é provavelmente verificado o estado de cada módulo com especial ênfase dado à corrosão das peças que compõem a estrutura e a eventuais cortes na mesma. A menos que as asnas estivessem quase apodrecidas ou com cortes evidentes, é improvável que seja essa a causa do colapso. Essas estruturas não colapsam na globalidade por ruptura de um dos seus elementos, mal seria de todos se um parafuso partido ou um perfil metálico podre deitasse abaixo o cimbre de uma ponte.

Se foi o modelo de cálculo que falhou, tudo é muito mais estranho. A validação técnica dos modelos é hoje bastante eficaz, com recurso a software apropriado, e, normalmente, este tipo de trabalho é executado por um gabinete de projecto tecnicamente sólido com engenheiros recrutados nas melhores universidades e com formação contínua: mestrados, pós-graduações, doutoramentos, etc. É a vertente mais académica da engenharia civil "práctica". Será, portanto, pouco provável que se trate de uma conta mal feita.

Por Espanha debate-se agora o problema da subcontratação como eventual causa de sinistralidade: é falso. A subcontratação resume-se à execução dos trabalhos e à sua coordenação localizada, e nunca à direcção da obra ou à elaboração dos projectos. Mesmo as normas de segurança devem ser implementadas pelo dono de obra, fiscalização e empreiteiro, cabendo a essas entidades assegurar o seu cumprimento. Não é o operário ou um conjunto de operários (que no fundo é o que significa subcontratação) que planeia o cimbre ou dá as ordens para o avanço da cofragem deslizante. Se o subcontratado falha, é porque toda a cadeia hierárquica falhou já. É porque não está lá ninguém, nem fiscal, nem director de obra, ou se está, falhou. Não foi o Manuel nem o Joaquim. Atribuir as responsabilidades do acidente aos subcontratados é uma falácia xenófoba e que só engana quem não conhece os meandros da construção em obras públicas, que, no fundo, é a larga maioria da população. Em suma, arranja-se um bode espiatório para as massas.

Além disso, não são os tradicionais problemas de segurança que estão por trás deste acidente. Não se trata de falta de guarda-corpos, ou de linhas de vida, ou de equipamento de protecção individual: Nenhum destes equipamentos de protecção valeu às vítimas deste aziago acidente. Neste caso, foi o colapso da estrutura metálica de suporte que causou a tragédia e este é um problema de engenharia e não de segurança e higiene no trabalho. Os protestos dos sindicatos espanhóis sobre a falta de condições de segurança nas obras podem ser muito pertinentes mas não se aplicam neste caso.

Agora pararam todas as obras naquele tramo de autoestrada: Uma medida histérica sem nexo algum que parece questionar de uma assentada toda a engenharia. Uma coisa é certa: Para cair uma estrutura daquele tipo falharam demasiadas coisas. E não é essa a regra, por muito iluminadas que sejam agora todas as almas aflitas. Não há magias nem misticismos, nem sortes nem azares e não se vai agora descobrir que afinal todas as pontes estão a cair.


Acidente em Granada.

segunda-feira, novembro 07, 2005

A Linha Maginot

Os franceses sempre souberam defender o seu território! Voltem a construir a linha Maginot!


A inviolável Ligne Maginot.

domingo, novembro 06, 2005

Limpezas

Esta tarde fiz uma limpeza na minha lista de ligações "Recíprocos". Descobri 33 embalagens vazias de blogues (que depositei na lista "Inactivos") e 22 blogues que se arrependeram de ter "linkado" o Meia Livraria. Já lá tiveram o "link" e, por alguma razão, removeram-no! Esses estão na lista dos "Arrependidos"! Malta culta, já se vê, que sabe muito e não precisa de ler na Meia Livraria!

(Amanhã retomo o tema de ontem.)

sábado, novembro 05, 2005

Juventude e Veterania

Há dias falei aqui da vitória do jovem Wang Hao no Torneio Aberto de Kuala Lumpur. Trata-se de um rapaz de 15 anos, que ainda não tinha o título de Grande Mestre (atribuído pela FIDE de acordo com um conjunto de critérios definido) e que o ganhou nesta prova.

Confesso que me sinto um pouco irritado quando a canalhada imberbe vinga, ainda que episodicamente, no circuíto internacional de Xadrez. É certo que neste caso se trata de um torneio aberto, onde as hipóteses de surpresa são mais prováveis, mas penso que estes acontecimentos descredibilizam de alguma forma o Nobre Jogo.

Crianças prodígio, máquinas que jogam Xadrez, são números de circo, tal como o torneio Melody Amber jogado anualmente no Mónaco, patrocionado pelo milionário pai de uma menina chamada Melody Amber (!) em que parte da elite mundial joga umas partidas às cegas e umas rápidas. Toda essa parafernália circense contribui para que uma boa parte da Humanidade veja o Jogo como uma excentricidade, deixando de ver a grande contribuição que o Xadrez pode dar, e dá, para o desenvolvimento das capacidades intelectuais e carácter dos seus praticantes.

Aos grandes campeões Gary Kasparov e Anatoly Karpov nunca puderam os euros do Sr. Amber comprar números de circo.

Amanhã desenvolverei o tema das crianças prodígio seguindo um recente artigo publicado por Kasparov na publicação New in Chess.

sexta-feira, novembro 04, 2005

O Coelho Xadrezista

Gente mal informada apelidava o Coelho de boçal, labrego, mafioso. Gozavam-lhe o "hadem ver", riam-se das suas gravatas, caçoavam das suas camisas e dos casacos azuis com botões de punho dourados! "Parece um revisor da Carris!", diziam, os chocarreiros!

E afinal, calam-se agora essas vozes! Descobriram no Coelho um homem de gostos requintados, um caprichoso xadrezista, nada de dominó belga na tasca em frente à estátua do ardina! Qual sueca! Este homem desvenda em tabuleiros de marfim os segredos de Steinitz e Chigorin! Com que volúpia repõe com as suas pesadas peças de prata os mágicos passos de Morphy ao som do Barbeiro de Sevilha! E ainda mais estará para vir! Em breve, os leitores hadem ver quem é o verdadeiro Coelho!

quinta-feira, novembro 03, 2005

Ditosa Pátria 2

Na sala de espera, uma menina ainda adolescente, grávida, conversa com a mãe, que também o foi adolescente, sobre o nome a dar à cria caso seja do sexo feminino. O pai quer pôr-lhe Inês, disse a rapariga. Acho feio, acrescentou. Para mim, ou fica Bianca, ou Maura, ou Bruna.

A realidade assume contornos que de tão sinistros fazem do damista Poe um inocente contador de fábulas para crianças.

(Sabia o leitor que Edgar Poe preferia o jogo das damas ao Xadrez? Considerava-o demasiado complicado... talvez considerasse a verdadeira literatura muito complicada também!)

quarta-feira, novembro 02, 2005

Ditosa Pátria

Ao balcão do que pensei ser uma pastelaria, cheia de espelhos e com balcão de vidro côncavo, com cadeiras e mesas lacadas de branco e rosa, ouvi um senhor dizer que tinha bebido cinco litros de vinho desde a hora de almoço. Faltavam poucos minutos para as sete da tarde.

Intrigado por semelhante discurso em tão elegante sala de chá, espreitei sobre o ombro direito e descobri, numa extremidade já em mármore do balcão, três cavalheiros que se batiam com minusculos copos daquilo a que se convencionou chamar "penalties". Tintos dois deles, o outro com mistura. A conversa continuava. O dono do estabelecimento disse ao tipo que se gabava de ter despejado o garrafão naquela tarde que o vizinho do outro bebia nada mais nada menos que dez litros num dia. Cinco de manhã e cinco à tarde, claro está. O primeiro insistia que não era água pé nem nenhuma zurrapa, era mesmo vinho o que havia bebido. Como o segundo insistia nos dez litros do outro, o primeiro rematou com um brilhante: "Eu antigamente despejava duas garrafas de licôr beirão depois de almoço!"

Saí do estabelecimento radiante por ser desta ditosa pátria. Que tais filhos tem.

terça-feira, novembro 01, 2005

Fedro

"Num dia cálido de Verão da década que decorre entre 420-410 a.C., Fedro, vindo de junto de Lísias, onde estivera a exercitar-se na arte oratória, trazia o manuscrito de um discurso deste sobre amor, dirigia-se em passeio para fora das muralhas. Encontra Sócrates, e os dois sentam-se sob um plátano copado, junto do Ilissos, a conversar sobre a retórica, ou melhor, a genuína are de falar, que se deve basear na filosofia."

Assim se introduz Fedro, de Platão, num exemplar das edições 70, colecção "clássicos gregos e latinos".

Este texto exemplifica com esmero a dimensão dos filósofos atenienses da época. Só o grande e elevado desprendimento das coisas do corpo permitiam a Sócrates e Fedro conversar sobre oratória debaixo de um plátano.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Temperaturas

Todos os anos se observa, por todo o país, um curioso fenómeno: A interpretação da temperatura efectuada pelos nossos cidadãos varia com o calendário! Se numa noite de Agosto, 25º chegam e sobram para uma camisa de alças e um calção florido, numa tarde de Novembro não evitam que por esses armários fora se dê o êxodo de camisas interiores, camisas de flanela, blusas de lã, sobrecasacas e calças de forte fazenda! Se antes ao pé chegava o chinelo, agora exige meia grossa e bota forte para os mesmos vinte e poucos graus!

domingo, outubro 30, 2005

Sala dos Fumos

A minha condição de invertebrado, já conhecida do leitor do Meia Livraria, devolveu-me ao grupo dos fumadores há algum tempo atrás. Após cerca de ano e meio sem fumar, consumindo durante mais de metade desse período pastilhas de nicotina, claudiquei e verguei-me ante o poderoso chamamento dos prazeres do fumo. A prazo, convenço-me, mas fumando sempre.

Esta introdução leva-me ao tema do presente artigo: A Sala dos Fumos. Trata-se de uma invenção dos anos 90, data dos tempos do nascimento do fenómeno do fundamentalismo anti-tabagista, e é, nem mais nem menos, que um qualquer recinto em lugares públicos ou locais de trabalho, onde é permitido fumar. Lugares lúgubres, dantescos e sinistros que, não obstante, me fazem abastardar um poema do maior trovador português: O Jorge Palma (um abraço para ti, pá, se estiveres a ler isto).

Então cá vai: "Na sala dos fumos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal; Na sala dos fumos toda a gente trata a gente toda por igual(...)"

sábado, outubro 29, 2005

Plátanos e o Método Científico

Fiz uma interessante descoberta no campo da botânica e da zoologia, de forma acidental, mas justificadamente científica: O plátano tem um efeito fortemente laxante sobre o passer domesticus, vulgo pardal (Tese). Vejamos o desenrolar do método científico:

Problema: O carro está cheio de dejectos de pardal.

Hipótese: Os pardais, vítimas de um poderoso efeito laxante, não se seguram, mesmo sabendo que existem carros por baixo onde pernoitam.

Experiência: Durante várias noites, estacionei o carro sob diversos tipos de árvore: salgueiros, plátanos e choupos, tendo anotado os resultados pela manhã.

Análise: Comparando os resultados do processo experimental, concluí que era sob os plátanos que os efeitos se mostravam mais devastadores. O resultado final revelou ser verdadeira a tese inicial.

Corolário: A probabilidade de se encontrar lugar para estacionar debaixo de um plátano é superior à de conseguir estacionar debaixo de qualquer outra árvore ou a céu aberto.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Fundamentalismo no Irão

A situação é realmente preocupante. O alarme em toda a região é compreensível e necessário. Trata-se de um dos países mais conservadores do planeta. Mesmo as forças da chamada esquerda são constituidas por perigosos fundamentalistas, presos a conceitos medievais e saudosos do bom e velho obscurantismo. Se assim é com os de esquerda, o que dizer dos que se assumem de direita.

A verdade é só uma, o país é de direita e sempre assim foi. Talvez a sua condição periférica lhe force as gentes ao retrocesso civilizacional. Provavelmente, nem o seu glorioso passado, progressista em fugazes e inesquecíveis momentos, funcionará a favor de uma libertação das mentalidades, de um aumento sensível da inteligência dos povos. Neste país, há um governo de esquerda que quer manter atrás das grades as mulheres que ousem interromper a sua gravidez. E não é por Alá. É por Deus nosso Senhor... o Deus Ultramontano das Beiras e dos ermos mais escondidos deste país que não é, mas podia ser, o Irão.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Silogismos

Parece-me evidente a validade do seguinte silogismo: Sendo o riso sintoma indiscutível da inteligência (os nossos amigos animais, menos inteligentes que a maior parte dos humanos, não possuem a faculdade de rir) e sabendo que os tipos sem sentido de humor riem pouco, ou nada, conclui-se que quem se leva muito a sério é uma bem acabada besta.

Antes de o leitor se lembrar da hiena, lembro-o eu que essa observação seria inequivocamente feita por alguém que leva a sua sabedoria demasiado a sério.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Trocadilhos

A língua inglesa, que nos deu o workshop e o body lotion, dá-nos também bonitos trocadilhos. Foi na última "New in Chess", publicação holandesa escrita em inglês, que descobri a pérola que agora revelo.

Um dos artigos da revista, relatando a estrondosa vitória do jovem chinês Wang Hao no torneio aberto de Kuala Lumpur, trazia o seguinte título: How Wang Hao Won.

Por cá, temos o rato que roeu a rolha e pouco mais. Mas temos "torneio aberto"! Não precisámos de recorrer ao open, como o leitor mais atento reparou.

terça-feira, outubro 25, 2005

Tesouros

Em Portugal existirá algum tesouro escondido? Alguma preciosa relíquia ocultada sobre os contrafortes de uma igreja do século XII? Terá Manuel I escondido algum ouro nas catacumbas do palácio onde hoje funciona a Embaixada da França? Será Duarte Pio guardião de algum mapa antigo, que indique a localização de um qualquer el-dourado em Timor? Não haverá nada destas coisas em Portugal?

Talvez por isso, por não haver, Pratt nunca cá nos mandou Corto Maltese. Nem sequer o Rasputine.


Ao menos, o Rasputine!

segunda-feira, outubro 24, 2005

Calos

A melhor maneira de ter dedos calejados na mão esquerda não é a que o leitor está a pensar. Nada de enxadas e sacholas, nada de mondas manuais e dactilografias em vetustas máquinas pesadas e barulhentas. Não pense sequer o leitor em banqueiros canhotos, barrigudos, carecas e luzídios, entretidos horas a fio na bonita arte de contar dinheiro.

Nada disso, caro leitor: Se quer belos calos nos dedos da sua mão esquerda, perca a vergonha e inscreva-se numa escola de música: Aprenda a tocar guitarra.

domingo, outubro 23, 2005

A Livraria Invisível

Para os que gostam de livros, daqueles que existem e dos outros, dos que só estão no grande universo intertextual, recomendo uma visita à Invisible Library. Nesta página está disponível uma imensa lista de livros que só existem dentro de outros livros.

Lá se encontra o clássico "The God of the Labyrinth" de Herbert Quain... que só exite na imaginação de Borges e no barco que trouxe o Ricardo Reis do Brasil para Portugal. No ano da sua morte, contado por Saramago. Deste último não fala a Livraria Invisível. Por enquanto.

sábado, outubro 22, 2005

Se...

Se de 3 salsichas iguais se faz uma vista, se de 3 vidas gastas se faz uma verdade, se de 3 mentiras se faz um salto de papagaio imortal... então não percamos mais tempo!

sexta-feira, outubro 21, 2005

Presidenciais

O Grande Pensador e Humanista Cavaco Silva apresentou ontem a sua candidatura às presidenciais. De ministro das finanças a primeiro ministro, o economista algarvio tenta agora, pela segunda vez, ocupar o palácio de Belém. Compete para tal com Mário Soares, Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã, Garcia Pereira e, penso que com Carmelinda Pereira também. Faltam Manuel João Vieira e José Maria Martins a tão ilustre lote.

São estes os primeiros entre iguais, é deste naipe que sairá o futuro Presidente da República Portuguesa. É interessante verificar que, após 31 anos de democracia temos um candidato do PCP, outro do PSR (agora BE), mais um do MRPP, uma do POUS, um da rádio de Argel, o Soares e um ministro de Sá Carneiro. Só falta o Otelo!


Só faltas tu, Otelo!

quinta-feira, outubro 20, 2005

Troféus

Em San Luis, na Argentina, onde se jogou o campeonato do Mundo de Xadrez, o campeão cessante, Kasimjanov, recebeu o seu troféu, que representa uma figura algo preocupante nos dias que correm. Simboliza o título que veio, não se sabe bem de onde, e que foi, tal como veio.


Kasimjanov com o seu troféu. "Ai dos vencidos!"

Topalov, o novo campeão, recebeu algo um pouco mais pesado, onde pode guardar dezenas de vacinas anti-gripe.


O campeão com o seu prémio.

O campeão teve direito ainda a dois outros troféus, bem mais elegantes, para que não se esqueça que foi na Argentina que se fez campeão (tal como Alekhine em 1927).


Prepara-se um duelo "à navalha".


O tango, claro!

quarta-feira, outubro 19, 2005

A Época das Pandemias

Depois da época dos fogos, começa a época das pandemias. Agora temos a gripe das aves, tal como no ano passado, se bem me lembro. Antes tivémos o vírus Ebola, a febre aftosa humana, a gripe asiática (SARS), também a BSE, vulgo "doença das vacas loucas", em suma, um sortido de maleitas várias, fazendo anualmente, por alturas de Outubro, renascer o velho e sinistro espectro da Peste Negra.

Alimento indispensável ao imaginário colectivo das massas, o medo comum une e conforta as almas vulneráveis: Transforma-se o perigo real num sinistro e adorado folclore, numa catarse colectiva. Podem assim as gentes, agora soltas do espartilho moral que as obriga à integridade aparente, gemer e partilhar o eterno medo da morte, sempre mal resolvido por religiões e seitas várias. Ainda assim, bendita seja a Peste que a todos une em torno da Igreja!

Agora despoletou a verdadeira febre: Correm os aflitos às farmácias em busca da panaceia, do remédio, do preparado alquímico que os manterá vivos, num prolongamento às vezes doloroso da sua existência: Justificada, na própria fuga, pelo fim que adiam. Dilatam assim, esperançosos, o prazo de entrega das suas almas subnutridas ao Criador em que não acreditam.

terça-feira, outubro 18, 2005

Errata

Num destes dias, publiquei um artigo a que chamei Autárquicas 2005 (1) em que dava conta de uma esmagadora vitória eleitoral da CDU em terras de Mondim de Basto. Por lamentável lapso ou por subversiva contra-informação, à maneira da CIA, (que todos sabem ser quem mexia, e talvez ainda mexa, os cordelinhos do MRPP) os dados que apresentei nesse artigo estão trocados!

De facto, não foi a CDU que ultrapassou o MRPP, foi exactamente o inverso! Não foi Jerónimo quem cantou vitória sobre o PCTP de Durão e Pacheco, foi Garcia Pereira quem derrotou a esquerda stalinista! O espírito revolucionário albanês continua vivo e de saúde em Trás-os-Montes!

O leitor, pouco habituado a falhas no Meia Livraria, estará já intrigado e perguntar-se-á: "Que se terá passado? Movimentos da CIA? Interferências do KGB? Agentes infiltrados? Talvez o MI5 ou MI6 se esteja a intrometer, sempre com vontade de passar a perna aos americanos?"

Se estas dúvidas o intrigam, caro leitor, se lhe agradam estes temas: remeto-o para um qualquer autor da especialidade. Eles fazem com que todo esse mundo exista muito melhor que eu! Ou perguntem a um homem do Norte!

segunda-feira, outubro 17, 2005

O Roy e o Ben

Ainda a propósito do último artigo do Meia Livraria, lembrei-me de um episódio que se passou na FNAC do Chiado que quero agora partilhar convosco.

Após exaustivas buscas nas prateleiras da música alternativa (denominação que nunca compreendi totalmente) e de música anglo-saxónica, desisti da minha demanda pela discografia de Roy Harper. Decidi contactar um funcionário da casa. Encontrei uma moça de colete verde e dourado e perguntei-lhe inocentemente: "Temos, porventura, algum álbum do Roy Harper?"



Dirigimo-nos a um computador onde a menina, após alguma pesquisa, me dirigiu a palavra para dizer: "Roy Harper não devemos ter... mas temos muitos álbuns do Ben Harper!"

Respondi-lhe que, apesar de plausível, a sua alternativa não satisfazia os meus caprichosos desejos, mesmo sabendo que, por razões evidentes, tanto faria levar o Ben como o Roy. Mesmo assim, insisti no Roy.

Lá chamou um colega (deve-lhe ter dito que estava ali um tipo muito complicado) que desencantou de alguma obscura prateleira ou armazém um álbum do Roy Harper. Vendo o ar melindrado da colega, por pouco não trouxe também um ou outro disco do Ben. Só o efeito destrutivo da voz demasiado cruel do norte-americano me demoveu desse cristão gesto.


Ben. O irmão que Roy nunca teve.

domingo, outubro 16, 2005

Novo "Astérix"

Saíu no dia 14 de Outubro o 33º álbum das aventuras de Astérix, "Le Ciel lui Tombe sur la Tête". Também nesta ocasião se abriram as livrarias à meia-noite, seguindo-se assim a moda criada pelas patetices de Harry Potter! Sempre serve para a rapaziada que trabalha nas grandes livrarias ganhar umas horas extra, ou assim espero. Imagino a inveja que os colegas do corpo de funcionários da FNAC, os que trabalham na Mango e na Zara, nutrirão pelos das livrarias! Afinal, qual a diferença entre saber se existe aquele vestido cor-de-rosinha em tamanho XXL e saber em que estante está o último do Paulo Coelho? Mais difícil será aviar um "BigMac" em termos!


Astérix e Obélix: Responsáveis pela formação da minha personalidade.

sábado, outubro 15, 2005

Harold Pinter

No dia 13 de Outubro, Harold Pinter foi galardoado com o prémio Nobel da literatura. Sobre o autor e a sua obra já muito os jornais escreveram, por isso, quero deixar aqui no Meia Livraria apenas uma carta escrita pelo dramaturgo inglês ao então Presidente da CM Lisboa, o Dr. Santana Lopes, aquando do arbitrário e absolutamente acéfalo encerramento do Centro de Artes d'a Capital em 2002:

"Dear Mayor,

I am deeply disturbed at the news of the closure of A Capital in Lisbon. A Capital is clearly one of the most important artistic centres in Europe. Its imaginative work and its integrity have been an inspiration to many people. The closure is not only shocking but inexplicable. I would be grateful if you would make a clear public statement as to the reasons behind this action.

Yours sincerely,
Harold Pinter"


Harold Pinter.

Esta carta, entre outras, escritas por diversas e ilustres figuras do mundo do teatro e não só, pode ser lida no espaço dos Artistas Unidos.

Honra seja feita ao Dr. Santana Lopes: Qual super-vilão da Marvel, é o arqui-inimigo de tudo o que é cultura, inteligência e civilização. É, atestam-no dois galardoados Nobel, uma acabada besta! Onde houver um cretino atentado contra a cultura, ele está lá, ufano, auto-satisfeito na sua condição de menoridade intelectual, caricatura burlesca do pequeno burguês, sublimada até à anulação total e devastadora do que é humano, com os seus olhos bovinando de tanta imbecilidade, ruminando a sua cosmovisão canhestra e limitada de uma criatura digna de pena se inofensiva. Como ataca e destrói o que é luz, o que é saber, o que é humano, a ele as penas e o alcatrão!


O Iluminado Santana Lopes.

sexta-feira, outubro 14, 2005

"La Topadora" Topalov

Termina hoje o Campeonato do Mundo de Xadrez, em San Luis, na Argentina. Com um total de oito participantes, a prova disputa-se num sistema de "todos contra todos" a duas voltas, ou seja, cada participante efectuará um total de catorze partidas. O evento, organizado pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE) pretende reunificar o título de Campeão do Mundo, pondo fim à confusão instalada no universo xadrezístico desde 1993, com o célebre episódio protagonizado por Kasparov e Short.

Para quem não se lembra, em 1993, Kasparov era o campeão em título e Nigel Short havia derrotado Karpov na final do torneio de candidatos, ganhando assim o direito de desafiar o Campeão. No entanto, divergências relacionadas com verbas, levaram Kasparov e Short, que conseguiram um fundo de prémios superior ao obtido pela FIDE, através de uma organização criada para o efeito e entretanto extinta: a PCA (Professional Chess Association), a não participar na prova máxima da FIDE. O braço de ferro entre Campomanes (na altura, o presidente da FIDE) e Kasparov não se desfez e este último, juntamente com Short, abandonou a FIDE, realizando-se assim o seu match "privado". Esse encontro, ganho por Kasparov, ficou celebrizado pela frase de Kasparov: "It will be a match with Short, and it will be a short match!". Um engraçado trocadilho do grande campeão, Garry "Monstro de Baku" Kasparov.

A FIDE continuou o seu caminho e, dada a desistência de campeão e candidato, repescou o finalista derrotado do torneio de candidatos, o lendário Anatoly Karpov, e o semi-finalista derrotado por Nigel Short, o holandês Jan Timman, um das mais interessantes e profícuas personagens do Xadrez actual. Esse match, entre Karpov e Timman, ditou a vitória do russo que assim ostentou novamente (havia sido campeão entre 1975 e 1985) o título máximo do Xadrez. Assim, o panorama escaquístico ficou com dois campeões: Karpov e Kasparov.

A FIDE continuou a organizar o campeonato do mundo, tendo entretanto sido campeões o indiano Anand, o russo Khalifman, o ucraniano Ponomariov e, finalmente, o uzbeque Kasimjanov. Paralelamente, no campo oficioso, Kasparov foi derrotado em 2001 pelo seu compatriota Kramnik, terminando assim o reinado de invencibilidade do Monstro de Baku. Entretanto, ao longo de todos estes anos, muito se fez por reunificar o título, tendo a última tentativa sido a de organizar uma espécie de torneio de candidatos em Dortmund, com os melhores jogadores da actualidade, jogando depois o vencedor dessa prova, Leko, um match contra o campeão oficioso Kramnik, consistindo esse encontro numa semi-final. A outra semi-final seria jogada entre Kasparov e Ponomariov, na altura, o campeão da FIDE. Kramnik jogou recentemente contra o húngaro Leko, conseguindo, um pouco aflito, empatar o match (resultado que favorecia, e favoreceu, o russo), num encontro pouco entusiasmante, dado o estilo pouco empreendedor e quase "comercial" de ambos os jogadores. Infelizmente, por razões várias, o encontro entre Kasparov e Ponomariov não se chegou a realizar. Terá sido por isso que, há uns meses atrás, Kasparov anunciou a sua retirada da competição.

Finalmente, a FIDE convidou para este torneio o campeão FIDE e o finalista derrotado(Kasimjanov e Topalov, que perdeu a final do campeonato do mundo de 2004), Kramnik e Leko (os dois homens do "oficioso") e quatro jogadores escolhidos entre a élite mundial de acordo com um conjunto mais ou menos justificado de critérios. Kramnik recusou, afirmando esperar pelo vencedor desta prova para defender o título, naquilo que se poderá confundir com uma fuga, infelizmente típica na História do Xadrez (esconderam o título quanto puderam Lasker, Capablanca, Alekhine...). Desta vez, Kramnik não terá sorte nenhuma: Foi convidado, não aceitou, paciência.

O Campeonato do Mundo que hoje termina conta assim com a participação de Veselin Topalov da Bulgária, Vishy Anand da Índia, Judit Polgar e Petar Leko da Hungria, Svidler e Morozevich da Rússia, Kasimjanov do Uzbequistão e Michael Adams de Inglaterra. De fora ficaram nomes como Ivanchuk, Shirov, Ponomariov, Kramnik e Kasparov, mas o conjunto de jogadores em prova garantem a qualidade de um Campeonato do Mundo.

Na primeira volta da prova, Topalov dizimou por completo a concorrência, fazendo lembrar o lendário Fischer nos seus melhores anos, empatando apenas uma partida e vencendo todas as outras: Algo de pouco habitual num torneio desta força! Absolutamente sensacional, a performance de "La Topadora" (Bulldozzer em castelhano) na primeira parte do evento. O búlgaro, residente em Salamanca, geriu a sua enorme vantagem ante os mais directos opositores, Anand e Svidler, tendo garantido, com uma sequência de seis empates, o primeiro lugar a uma jornada do fim. Anote-se que Topalov sempre foi o jogador que mais lutou, tendo as suas partidas ao longo da prova sido sempre as últimas a terminar, acumulando por isso mais cansaço (uma partida dura habitualmente três a cinco horas, tendo Topalov jogado bastantes acima da sexta hora), explicando-se assim a aparente quebra na segunda volta.

Em suma, o Xadrez encontrou o seu Campeão: Veselin Topalov.


O Campeão do Mundo: Veselin TOPALOV

Por último, um dado curioso: A última partida jogada por Kasparov na sua carreira foi contra Topalov em Linares, Espanha, ainda em 2005. Kasparov perdeu, tendo sido "apanhado" pelo búlgaro no primeiro lugar do mais importante torneio do calendário xadrezístico. Por um critério de desempate algo estranho, Kasparov foi aclamado vencedor da prova, mas teve de repartir o dinheiro com o búlgaro. Após essa derrota, o russo fez a sua célebre declaração de abandono da competição. Premonitório, este Kasparov!

quinta-feira, outubro 13, 2005

O Mistério das Carrinhas Brancas

Quem palmilha as estradas nacionais decerto conhecerá o Mistério da Carrinha Branca. Lendário já por toda a Europa, o fenómeno, de difícil explicação, apavora o pacato automibilista lusitano e provoca danos irreversíveis no trato intestinal dos restantes cidadãos comunitários que, por lapso ou genuína ignorância, se atrevem a utilizar o automóvel em Portugal. No entanto, aos extra-comunitários, e sem que nada o explique, o fenómeno parece não espantar.

E que fenómeno é esse, perguntará o funcionário da repartição de finanças do Arco do Cego, que há vinte anos se desloca de casa para o serviço de comboio desde Massamá até Lisboa e que vence a restante légua a cavalo do metropolitano? Para si, Sr. Lopes, serve este artigo!

Um qualquer cidadão, pacato, anódino eleitor do PS, calmo bebedor de minis na tasca, visionador atento de futebóis e até de novelas, com a desculpa esfarrapada de estar de olho nas actrizes, transforma-se misteriosamente quando a bordo de uma carrinha. Mas não de um qualquer furgão: só se manifesta o fenómeno se a viatura estiver pintada de branco! Eis o insólito e improvável de todo o Mistério!

É vê-los ultrapassando pela direita, ao leme das suas "Vito", buzinantes e velozes! Não raro tem o fleumático bigodaças do BMW que saltar da frente dum desses coriscos brancos, quando lhes sente o pára-choques no perímetro de apito do seu 720: Levando o empresário a amaldiçoar a hora em que empregou o subsídio para a criação de novos empregos e para a formação profissional nesta postiça bomba! Mais valia ter comprado uma "Vivaro" branca!

Porquê a côr branca? Qual o efeito que essa nuance cromática tem sobre o condutor? Como atingem essas viaturas as vertiginosas velocidades que a todos espanta? É nestas perguntas, e neste desafio, que reside o alimento para a alma que vos deixa hoje o Meia Livraria!

quarta-feira, outubro 12, 2005

Autárquicas 2005 (2)

Como pode um provinciano puro, genuíno, queiroziano até, como o comum escalabitano, recusar os destinos da sua terra ao homem que lhe preenche a alma e o serão com as suas bonitas novelas, que a todos fazem rir e chorar?

Um senhor tão bem falante, que não só aparece na televisão como escreve televisão, que sabe tudo sobre o crime - tema predilecto dos leitores do inefável Correio da Manhã e do didático "24 Horas" - como lhe resistir? Chiça, o homem tem tudo! Sabe de novelas e conhece o crime... De que estará Moita Flores à espera? Candidate-se imediatamente à Presidência da República! Prometa acabar com a pedofilia e introduzir a cadeira "Morangos com Açúcar" nas universidades. Escolha alguém que decifre o "Su-Doku" e que deite búzios, ponha-o a mandatário e vai ver que ganha! Avance, homem!

segunda-feira, outubro 10, 2005

Autárquicas 2005 (1)

Foi finalmente quebrado o "Enguiço de Mondim" pela CDU! No concelho de Mondim de Basto, nas últimas autárquicas, o PCTP MRPP com 31 votos esmagou a CDU com apenas 7, tornando-se um dos principais motivos de orgulho para Garcia Pereira a nível de poder local. "Mais do quádruplo dos votos desse partido de direita", terá exclamado o homem mais candidato de todos os europeus.

No entanto, ontem, fez-se história em Mondim! A CDU conseguiu 22 votos em todo o concelho, ultrapassando não só o MRPP (com 18 votos), como o MPT (com outros 18 votos). "A triplicação dos votos em Mondim mostra a força que os ideais sociais e comunistas possuem naquela região do país!", afirmou, afoito e afónico, Jerónimo de Sousa no rescaldo da noite eleitoral. "Este sucesso só será comparável à conquista da CM Peniche pela Coligação!", acrescentou.

domingo, outubro 09, 2005

Apuramentos

Ontem, a Selecção Nacional do Jogo do Futebol conseguiu apurar-se para o Campeonato do Mundo a realizar na Grande Alemanha no próximo ano! Razão cheia para folguedos, arrombas e foguetório, risos incontidos, esvaziamento de pipas, enxamerdeamento das ruas do Bairro Alto! Mas nada disso aconteceu!

Os foguetes ficaram em terra, o folguedo deu lugar à ansiedade e ficaram as pipas a meio. Pelas ruas do Bairro Alto, os olhos dos goliardos fixavam-se no pavimento das ruas, estranhamente impoluto. Na Rua da Rosa, nem um copo de plástico no chão. Na do Diário de Notícias, nem o mais leve aroma de urina, mesmo os jorros amarelos, fulgurantes e sulfúricos, pararam na Rua do Norte: Angola também se apurara para o Mundial!

Recordados do jogo amigável de há um par de anos, os lusitanos temem agora pela vida dos seus melhores jogadores de Futebol! Ansiosos, aguardam o sorteio dos grupos que, num dia aziago, poderão ditar a sentença letal a Figo e companhia. Calhem os palancas aos herdeiros dos magriços e, é sabido, jorrará sangue da indómita e cavalheiresca pátria de Pessoa e de El Rei Dom João II.

O mostrengo que está no fim do mar fará das dele, assim apanhe, incautos, os da Lusitânia. Espero, no entanto, que se necessário for, por três que sejam as vezes que se soltem as mãos do nosso homem do leme, por outras três as reprenda. E que diga, mesmo tremendo, quem ele é, e quem nele manda.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Coerência Invertebrada

Mostrando-me coerente com o meu último artigo, dada a quantidade de comentários que recebi, todos eles muito agradáveis, aproveito a minha ausência de coluna vertebral para voltar ao Meia Livraria. Confesso que principiava a custar-me a falta deste espaço.

Agradeço-vos sinceramente estes comentários: Vale a pena estar aqui. Obrigado.

domingo, outubro 02, 2005

Critério de Paragem

Doze dias com dois comentários. A média estima-se agora em 1/6 de comentário por dia, cerca de um por semana. Atinge-se assim o critério de paragem deste blogue. Quase dois anos de Meia Livraria findam assim. Por falta de comparência. Até um destes dias.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Um Rebuçado

"Uma vez um rapazinho de oito anos contou-me que tinha afogado a irmã pequenina no Paraná. As pessoas julgavam que ela escorregara nos penedos. Ora o rapazinho explicou-me que a menina comia muito e que ficava pouca comida para ele. Pouca mandioca!

_Deste-lhe um rebuçado?

_Dei. E três ave-marias como penitência."

Assim respondeu o Padre Léon Rivas a Charley Fortnum, O Cônsul Honorário de Graham Greene. Brilhantemente traduzida, na edição que cito, por Maria Ondina Braga, de Braga, trata-se de uma obra onde o embate entre a colossal ideologia revolucionária e a esmagadora fé católica se manifesta em todas as linhas, por todos os poros de uma aparentemente simples história de raptos e polícias, com revolucionários pelo meio.

À venda, por tuta e meia, em toda a parte.

quinta-feira, setembro 15, 2005

A Espera

Todos os dias visito o Meia Livraria, sempre em busca de novo artigo. E nada aparece.

segunda-feira, setembro 05, 2005

O Homem Certo

"Estima muito os carrinhos!" disse o senhor mais velho. "E isso chegará? Talvez precisemos de alguém mais audaz!" respondeu o mais novo. "Nem penses nisso! Este é o homem certo! Acabam-se os problemas nos carros, o tipo muda o óleo, cola os autocolantes, é muito certinho ao volante, não esquece um pisca e vem por uma pechincha. Aliás, paga para vir!"

Convencido, o homem mais novo pegou no telefone e, encontrado o número, disse para o aparelho: "Estou? Tiago Monteiro?"

terça-feira, agosto 30, 2005

O Cidadão

Encostado à grande máquina de café do escritório, Manuel queixava-se aos colegas: "Eu sei os meus direitos! Os tipos não me enganam! Tenho direito ao dia, o percurso até casa conta como hora de trabalho, no meu contrato está lá tudo, eu disse ao Mendonça do departamento de pessoal que ia ao sindicato, ou ao tribunal de trabalho, onde fosse, mas eu tenho direito ao dia!"

A pouca atenção que os colegas lhe prestavam não o desmotivou e continuou o chorrilho de injustiças: "Lá no condomínio toda a gente tem TV Cabo! Uns ricaços que mal têm para comer, mas para a Sport TV há sempre! E ainda queriam que fosse eu a pagar os trezentos euros do arranjo da antena, só porque sou o único que a usa! Ainda me disseram que com esse dinheiro me pagavam a TV Cabo por um par de anos! Isso é que era bom! Eu sei os meus direitos! Pagaram e não bufaram!"

Tendo os interlocutores desamparado o corredor, Manuel regressou ao seu posto de trabalho para ralhar com os colegas de sala: "Eu tinha aqui o apara-lápis do lado esquerdo da secretária e agora está aqui ao meio: Alguém o usou sem me pedir autorização!" E continuou: "Já parecem o meu vizinho do primeiro esquerdo, que trabalha na junta, sempre a usar a mangueira da minha garagem para lavar o carro!"

Entretanto, pegou num monte de papéis, dirigiu-se ao corredor onde estavam os caixotes de lixo, devidamente separados por cores e feitios, e, com grande alarido, enfiou a papelada na caixa do lixo geral, dizendo: "Esses tipos lá nas lixeiras não fazem nada! Eles que separem o lixo, não sou criado de ninguém!"

segunda-feira, agosto 29, 2005

Se Eu Fosse Primeiro-Ministro

Se eu fosse Primeiro-Ministro mandava construir uma central de cisão nuclear no Mondego. Produziria um terço da energia necessária em Portugal, seria arrefecida por um rio caudaloso e nacional, constituiria um grande avanço para a economia portuguesa e pouparia aos olhos dos portugueses o horrendo espectáculo dos nóveis moinhos de vento, que a todos atemoriza, pensando que Portugal foi invadido por uma sinistra horda de extraterrestres.

Depois, à noite, sentado no meu sofá, assistiria com um sorriso matreiro aos pinotes e mortais encarpados que Manuel Alegre seguramente daria.

domingo, agosto 28, 2005

Bloguistas

Há dois tipos de bloguistas: Os que têm sempre o MSN ligado durante as horas de expediente, que só visitam blogues durante a semana, e os outros, que não sabem o que são empregos em que se possa usar o MSN. Há ainda os cruzamentos: tipos que, de semana, só vêm blogues e que, ao fim de semana, estão no MSN, há os vice-versa também e os que trabalham ao fim de semana e fazem nesses dias o que fazem os dos outros tipos durante a semana.

Não é ciência fácil, garanto-vos, a taxonomia blogosférica.

sexta-feira, agosto 26, 2005

A Idade da Reforma

O aumento do limite inferior para a idade de reforma na função pública causará profundas alterações no tecido social português. Os efeitos de tal medida são imprevisíveis mas seguramente devastadores! No entanto, pode-se adivinhar já algumas dessas consequências: A curto prazo reduzir-se-á para pouco mais de metade o actual número de jogadores de dominó na Praça José Fontana. A redução deste contingente condenará à fome centenas de pombos cujos cadáveres em decomposição poderão tornar a atmosfera de Lisboa irrespirável. Perderá a capital do país o seu reconhecido estatuto de pulmão do vale do Tejo que ganhou por um nariz, com os seus jardins e o lendário Monsanto, à custa da queima da Tapada de Mafra.

Lembremo-nos também da grande conquista com a redução do horário de trabalho nos anos 30: O aumento siginifcativo do número de pescadores à linha, tal como afirmado por Romains em 1938. Mesmo este grande passo no progresso dos Homens fica agora posto em causa! Também esta grande façanha do sindicalismo do início do século XX pode agora ver-se reduzida a quase nada. E, no final, quem se ficará a rir? Os peixes!

quinta-feira, agosto 25, 2005

Publicidade

Hoje vi um cartaz publicitário anunciando um produto sobejamente conhecido: A cerveja Super Bock. Lia-se no cartaz a seguinte frase: "Super Bock: A cerveja n.º 1 em Portugal. De Viana a Sagres".

É sabido que estas coisas possuem mensagens ocultas, que perturbam o regular funcionamento do processo cerebral. Minutos após a descoberta do cartaz, já sentado num restaurante, um empregado dirigiu-se à minha mesa e perguntou-me o que queria beber. No meu cérebro ouvia uma voz longínqua que dizia repetidamente: "de Viana a Sagres...".

"Traga-me uma cerveja!", respondi e acrescentei: "Pode ser uma Sagres."

quarta-feira, agosto 24, 2005

Embustes

Soube-se há dias que o Homem do Piano, encontrado no ínicio deste ano algures em Inglaterra, é um embuste! O tipo não sabe o que é uma clave de Sol, desconhece as diferenças entre as teclas brancas e as negras do piano e confunde Carlos Paredes com Maria João Pires! Cai assim um mito que apaixonou o mundo civilizado.

Tendo descoberto há pouco tempo que as letras das músicas de Luís Represas e Trovante são um embuste, sofro agora este abanão na minha fé nos homens! Que mito ruirá de seguida? Será que, dentro de algum tempo se revelará ser a linda cabeleira do Elvis da Golegã, José Cid, falsa?

terça-feira, agosto 23, 2005

Histórias

Segundo S. Lucas (XXIV), quando os discípulos do Mestre, após a sua morte, o procuraram no sepulcro, deram com a lápide movida: Não estava lá o corpo do Senhor Jesus! Perplexos, encontraram dois homens com vestes resplandecentes que lhes disseram: "Porque buscais o vivente entre os mortos?"

Sem dúvida, os autores da Bíblia sabiam contar uma história: E logo a segunda melhor de sempre! Claro é que a primeira de todas se contou há quatrocentos anos certos pelo infinito Cervantes: "El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha".

sexta-feira, agosto 19, 2005

Betandwin

O patrocionador da Liga de Futebol da época que hoje começa será a firma Betandwin, dedicada ao mercado de apostas. Ouço já o Lopes, na tasca, decidido e sabedor, após o terceiro penalty tinto, tentando envangelizar o Mendonça e o Santos: "Diz-se betadim! É uma casa de apostas lá na internel!"

Adivinho a resposta do Santos: "Isso da internel tem muito que se lhe diga, parece que é perto de Gibraltar!"

"México, não é?" concluirá Mendonça. "Pois, um ofexore nas ilhas!" dirá Lopes. "É uma ladroagem, mas mais gatunos são os da Santa Casa: Gastei já meia reforma no euromilhões e só me sairam 2 euros!", rematará Santos.

sábado, agosto 13, 2005

Sensibilidade com Asas

Estendido no areal da Praia Grande, fitando a linha do horizonte fixa algures no Atlântico, Manuel, com ar concentrado e meditador, disse a sua mulher: "Deolinda, sabes que se formos pelo mar, sempre em frente, sem parar, chegamos à China!"

Espantada com a sabedoria do marido, Deolinda não deu pelo súbito levantar vôo de três enormes gaivotas a poucos metros de distância. Sobrevoaram parte da praia, rumando a Sul, viraram a Oeste, entrando no mar até darem a volta, deixando o Sol que se punha nas suas costas. Passando por cima do casal, a maior das três soltou uma volumosa massa quase liquefeita, nauseabunda, que acertou em cheio na face sonhadora de Manuel, apagando-lhe o cigarro que ele acabara de acender.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Os Blogues e os Fogos

Numa visita pela vizinhança, recolhi vários artigos sobre os incêndios que lavram Portugal.

No Ma-Schamba vem uma ligação para um enxuto artigo do José Gomes Ferreira da SIC. Os créditos da descoberta são dos Quatro Caminhos que trazem um texto pertinente.

Pelo Substrato, um delicioso artigo desperta-nos para uma singela evidência: Se as pessoas limpassem a mata em redor das suas casas, talvez chorassem menos para as câmaras de televisão.

O Mar Salgado, aqui e aqui, fala novamente da negociata infame dos fogos e lança uma questão sobre a prisão preventiva dos incendiários que é assustadora.

O Boticário traz-nos a notícia que a Reuters está atenta à nossa desgraça, pelos vistos, motivo de análise dos povos avançados e civilizados.

O Estrago da Nação é um blogue dedicado ao nosso ambiente e manifesta a sua enorme preocupação com a tragédia que se abate sobre a nossa floresta de forma bastante aguda.

E o leitor? Já fez a sua análise?

O Grego e a Grécia

Talvez por lhe fazer lembrar a sua selecção natal, o árbitro da partida Sporting-Udinese, jogada há minutos, assinou uma das mais excêntricas exibições de sempre em jogos da UEFA.

Se por cá seria uma arbitragem normalíssima num qualquer jogo do Benfica, na UEFA é coisa bem de espantar: 1 penalty contra o Sporting resultante de uma pretensa falta involuntaríssima cometida fora de área, 3 penalties reais por assinalar contra a Udinese, faltas incríveis (aquela do Liedson imóvel junto ao guarda-redes será proverbial), a permissividade gritante em relação à besta que envergava a camisa 9 dos italianos, em suma, um absoluto record em termos de UEFA.

Nota: Só a brutal ignomínia do espectáculo a que assisti me levou a escrever este artigo. Nem as mais execráveis roubalheiras nos jogos do Glorioso (a seu favor, claro) da passada época me causaram semelhante incontinência. E repare o leitor que foram muitas e boas.

terça-feira, agosto 09, 2005

Catástrofes Naturais

Chove hoje em Portugal. Há poucos dias, ardia o país de Sul a Norte, sem perdão, levando concelhos inteiros na gigantesca voragem das chamas. Pombal desapareceu do mapa, a Beira Alta transformou-se num imenso amontoado de cinzas, magros milhares de bombeiros desunharam-se, impotentes, com os seus pequenos carros de brincar, mirando de baixo as chamas, fugindo, rodeando, cercando, sendo cercados, atacando aqui, defendendo acolá, dando o couro à refrega sempre perdida. Tudo quanto quis o fogo queimar, queimou.

Poder-se-ia tratar de uma calamidade natural, ou assim pareceria, mas não. Nada há de natural nesta tragédia. O desordenamento territorial, a selvajaria analfabeta dos poderes autárquicos, inábeis e incapazes de gerir os seus espaços, permitindo construções no meio de pinhais, cedendo a tudo e a todos, em troca de umas esmolas para construir rotundas que consomem num ano a água bastante para que tudo se apagasse na zona centro. São essas as nossas calamidades naturais.

A patética justiça portuguesa contribui também para o massacre, soltando no mesmo dia um incendiário apanhado em flagrante para que, no dia seguinte, incendeie outra mata, sendo outra vez apanhado e outra vez solto pela Senhora Doutora Juíza. A cretinice desta Juíza compete apenas com a dos jornalistas apresentadores de noticiários televisivos que, após o anúncio com voz séria das "lavradelas" incandescentes, noticiam, com sorriso imbecil e beatífico, o bom tempo para o fim de semana que chega: Nem uma nuvem no céu, diz o idiota, feliz como um lobotomizado. Pelo menos esta calamidade não tem efeitos tão perniciosos como as outras, mas consegue rebentar-nos com a fé nos homens.

Chove em Portugal. Apagam-se os incêndios por hoje mas, se parar de chover amanhã antes de almoço, ao final da tarde arderá de novo o país. E se tivermos o azar de se prolongar o "mau tempo" por uma semana, veremos seguramente nos telejornais a inevitável notícia: Três aleias no Ribatejo estão isoladas, prejuízos incalculáveis, colheitas perdidas no Alentejo e no Vale do Douro. Não pingará uma gota de vinho do Porto.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Alcunhas Etílicas

O grupo de alcunhas mais ilustre e luminoso será porventura o das etílicas. Atente-se num seca-adegas, ou num alambique, ou mesmo o bezana ou torneira. E que dizer de um securas ou bezerrão? E do narsas?

As expressões utilizadas para o estado de embriaguez são também de uma riqueza inesgotável: O grãozinho na asa, o vinha tocado, o vens com ela calçada, o magnífico e singelo vens lindo, enfim, uma riqueza que a todos deve encher de orgulho.

terça-feira, agosto 02, 2005

Alcunha Intraduzível

Há alguns anos, tinha um colega de escola que se chamava Jorge Borrego. A sua alcunha entre os amigos era: "O Bura".

sábado, julho 30, 2005

Adágio Intraduzível

Vive a tua vida como se não houvesse daqui a oito.

sábado, julho 23, 2005

Uma Troca

Deitado na praia há um par de horas, apertou-me a fome e atacou-me a sede. Desprevenido, sem nada que se comesse ou bebesse, olhei para o lado onde uma mulher com uma mão cheia de filhos se afadigava a distribuir bolinhos, maçãs e pacotes de leite vitaminado. Invejoso, olhando faminto para as belas maçãs, lembrei-me de uma velha campanha que vira no dia do não fumador e tentei: "Minha senhora, não me trocava uma dessas belas maçãs por este lucky strike?"

Enquanto eu mitigava a fome com o fruto, a senhora regalava-se, de olhos fechados e alma apaziguada, fumando o seu cigarro.

domingo, julho 17, 2005

O Senhor Paulo Trindade e o Raio que o Parta

Paulo Trindade, da Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública, anunciou com mal disfarçado orgulho e comoção na voz que os efeitos da greve da função pública foram excelentes. Ufano, começou por dizer que 95% do lixo ficou por recolher. Claramente orgulhoso disse ainda que a maior parte das consultas externas dos hospitais ficaram por realizar e, alegria das alegrias, até os blocos operatórios, quase todos, pararam! Estava feliz, o Paulo Trindade.

Eu também estaria feliz, Paulo, quase tanto como você está, se o meu bom amigo precisasse de um daqueles blocos operatórios para lhe desencravar o intestino. E, graças à greve, a tivesse de aguentar mais uns dias. Até que o governo cedesse, claro!

segunda-feira, julho 11, 2005

Terrorismo

Londres teve uma nova oportunidade de mostrar ao Mundo o que o Mundo já sabia: Os londrinos são as pessoas mais calmas e civilizadas do Planeta. Após os atentados da passada semana, lá estavam eles, os londrinos, em fila indiana, aguardando pacientemente a sua vez de escapar ao flamejante inferno em que os míticos túneis do metropolitano se transformaram.

Por todo o lado, na parte civilizada do Mundo, claro está, surgiu a interrogação: E se fosse aqui? Seríamos capazes de reagir da forma ordeira e exemplar dos cidadãos de Londres?

Um pouco por toda a parte, vão-se tomando medidas: Em Pau, Sul de França, duplicaram-se as rondas dos gendarmes pelas imediações do seu belo jardim muncipal, prestando especial atenção às casas de banho públicas, posicionadas por baixo do mesmo jardim, alvo fácil e evidente para a colocação de uma carga explosiva capaz de rebentar latrinas por baixo e bancos de jardim por cima, some-se este devastador efeito a uma soalheira manhã de domingo, com o jardim apinhado de gente, e veja-se o que dá.

Também em Inguias, concelho de Belmonte, as necessárias precauções avançam: as silvas por baixo do tabuleiro da sua famosa ponte serão ainda antes do fim do Verão removidas, de forma a mais facilmente se poder detectar qualquer objecto estranho que contenha a monstruosa carga explosiva. Assim que o Sr. Oliveira, manobrador de rectroescavadora da Junta de Freguesia das Inguias, regresse de férias, será essa a sua primeira e fundamental tarefa. O combate ao terrorismo assim o exige.

Na Noruega, em 00en4sen, o sistema de levantamento de livros da biblioteca local está a ser rigidamente alterado. Cada leitor poderá agora levar apenas dois volumes e deverá devolvê-los espaçadamente, distando a data das devoluções de um período não inferior a seis dias, de forma a que os serviços possam analisar cuidadosamente cada um dos livros. Também as devoluções de livros dentro de embrulhos passaram a ser rigorosamente proíbidas.

Acima de tudo, o Mundo prepara-se para o pior, mas nunca, mesmo nunca, alterará os seus modos de viver e o pleno respeito pelas liberdades individuais e colectivas. Por isso mesmo, em Lanfratini, Sul de Itália, as cobranças mais dificeis, antes feitas com um célebre procedimento, a saber, o depósito de uma cabeça de porco à porta do devedor, são agora feitas com apenas um dos hemisférios da dita cabeça, de modo a que nenhuma carga explosiva seja ocultada no espaço onde antes estava o cérebro do animal

quinta-feira, julho 07, 2005

História Cor-de-Rosa ou Togo (6)

Era uma vez um príncipe do Mónaco que namorou durante anos uma moça, hospedeira, natural do Togo. Engravidou-a e é hoje pai de uma bela criança de lindos caracóis com dois anos.

Como não casou com a moça togolesa, não poderá a criança ostentar o sobrenome Grimaldi. Para desgraça dos bloquistas, não haverá finalmente um chefe de estado europeu mulato. São episódios destes que fazem a história do nosso amado Togo.

terça-feira, julho 05, 2005

Religião e Capital

O tecido produtivo e comercial das sociedades tem um papel decisivo na religiosidade dos cidadãos. É obscena esta ligação, é certo, é seguramente polémica e será negada com veemência pelos CEO das multinacionais. Mas perante as evidências, nada há a fazer.

Tome-se o meu exemplo. Sou moço de fraca fé, pouco dado à doutrina do Senhor e li, sem nada compreender, parte do Envangelho. Mas gosto do Natal. É sabida a grande mobilização da economia das nações nesta efeméride, e essa mesma actividade, pouco religiosa, levou-me, desde a infância, a contar, assim que caiem as primeiras folhas, os dias que faltam para o Natal.

No que respeita à religião quotidiana, militante, há, infelizmente, um grande défice de investimento. Há um lamentável afastamento do Capital a Deus. A coisa até se resolvia facilmente: Se na quadra natalícia posso comer um Pai Natal de chocolate, porque não posso eu comer um bolicao em forma de Menino Jesus na bucha da manhã?

sábado, julho 02, 2005

Concertos

Hoje ninguém anda pelos blogues. Estamos todos de olhos pregados na televisão, assistindo ao espectáculo Live 8. Podia ser pior, podíamos estar de olhos no concerto que os Queen dão hoje em Lisboa. Já vieram os Doors, agora os Queen... para quando os Joy Division? Ou a Janis Joplin?


Live 8. Visto por 5 biliões de pessoas, segundo Margarida Pinto Correia. 800 vezes mais que a população do planeta Terra.

sexta-feira, julho 01, 2005

Trabalhos

Francisco José Viegas recupera o ancestral significado de trabalho e, por razões sinistras que desconheço, tem agora um suplício monstruoso: Ler o Paulo Coelho... Todo! Que pestes terá o de Aviz trazido às gentes? Que águas terá inquinado? Que campos salgou? Que horrível segredo o obriga a tamanha atrocidade?

Por razões de trabalho, estou a ler Paulo Coelho. (...) O primeiro deu-me vontade de queimá-lo; o segundo, de rir. O Alquimista não volto a ler, recordo bem as consequências funestas. (...) Tenho dúvidas sobre o resultado desta semana e meia de dedicação a Coelho, mas a vida não é fácil.

À infausta tarefa, Viegas chama: Esfolar o Coelho!

Desejo boa sorte ao homem que, pelos vistos, não a tem... Coragem!

quarta-feira, junho 29, 2005

Uivos

Ao atravessar a localidade de Rendo, parei num daqueles semáforos que detectam a velocidade. À minha esquerda, ligeiramente afastada, estava uma criança vestida com cores garridas, brincava com uma bola. Parou e olhou para mim. À direita, mais próximo, um cão vadio, malhado como uma vaca leiteira, também parou e observou-me com atenção e cautela. Ainda à direita, mais afastado, um homem já velho, seco e de pernas arqueadas, vestido com cores escuras imitou-os. Parou e fitou-me directamente.

Observado por aquelas três criaturas ocorreu-me estar perante os três estágios da evolução humana: A Criança, o Cão e o Velho. O Sol inundou os insectos mortos cravados no meu para-brisas que mo devolveram fragmentado e quase místico. Pus em marcha o automóvel, separei-me do tapete betuminoso e dos olhares da Humanidade. Desliguei o rádio do carro e, certificando-me que já ninguém ouvia, uivei, tentando olhar de frente para o parcialmente desfeito Astro-Rei.

terça-feira, junho 28, 2005

A Explosão e o TIC

Uma explosão num prédio do Porto provocou, esta noite, a morte a duas pessoas. Esta tragédia conseguiu o feito extraordinário de arrancar os jornalistas da porta do TIC. Acostumados à pergunta inteligente, tisnados pelo Sol de Lisboa, curtidos pelo frio das ruas, lá estavam eles, os jornalistas TIC, em grande, pertinentes, perspicazes, oportunos, questionando o transeunte e morador sobre a desgraça que se abatera sobre aquelas pessoas.

É bom saber que o selo TIC continua a assegurar informação de qualidade.

sexta-feira, junho 24, 2005

Manobras de Diversão

Na ingrata e infausta tarefa de aplicar as medidas impopulares anunciadas há cerca de um mês, o nosso governo adoptou uma conduta táctica de admirável eficácia: Disparar diariamente um conjunto de pseudo-acontecimentos, pueris e cacofónicos, com o fito único de distrair os restos de massas pensantes que Portugal ainda possui.

Se aos ignaros e biltres basta o copo de vinho na tasca e a novela ao serão, se aos pulsantes machos e nóveis fêmeas chega a vacuidade do desporto-rei, com as suas minudências repelentes, casos de arbitragem, carisma dos treinadores e sageza dos dirigentes desportivos, o que fazer aos poucos que sobram?

Sabedores da grande capacidade mobilizadora dos grupos sociais, sempre e só quando lhes toca o odioso da governação, a saber, polícias, professores, magistrados e outros sinistros bandos, o governo que faz para os apaziguar? Ou para os silenciar? Pudessem engavetar o Pinto da Costa, mesmo, e bastaria. Mas nem sempre se consegue tão sonante evento. Pudessem descobrir mais ilustres figuras ligadas a escândalos vários, e lá estariam todos, de olhos postos na porta do TIC, servidos por quase toda a comunicação social do país que não hesitaria em mobilizar todos os seus meios para esse importante desígnio. Pelos vistos, também está a secar este filão.

Mas Sócrates e os seus são sagazes. Possuidores de ilimitados recursos tácticos, afincando-se sempre ao mais elevado mote político da nação, as contas públicas, lançaram esta semana, coincidindo com as manifestações de rua daqueles que só se manifestam quando lhes tiram a vaquinha, ou o borreguinho, uma formidável e inventiva campanha de diversão. Bem urdida, calmamente delineada e de resultados práticos controlados, essa campanha conta com a participação à vez ou em simultâneo de diversos ministros e secretários de estado:

O ministro da saúde chega ao Hospital de São João no Porto e acusa os médicos de varrasquice: Não lavam as mãos, disse o ministro. Aparentemente a coisa não chegou para tirar os polícias e os incêndios da primeira linha informativa. Havia que continuar.

À noite, ou final da tarde, a ministra da educação dispara esta: Ah, isso nos Açores é outro mundo, aquilo nem sequer é bem Portugal! Dito a propósito da diferente interpretação dos tribunais de Lisboa e Ponta Delgada sobre a providência cautelar que impediria a classificação da garantia de normalidade na execução dos exames do nono ano como serviço mínimo, a ministra oferece uma genial gaffe para gáudio das massas ainda residualmente pensantes!

Imagino o riso que, no conselho de ministros, deverá ter soado, ao serem urdidas tão interessantes atoardas! "Esta deve dar para dois dias!", vejo Sócrates a dizer, de boca aberta e sorriso ainda mais franco, "Ó Campos, chama porcos aos gajos"! Risada geral.

terça-feira, junho 21, 2005

A Rota

Muito raramente oferece o ventre da Humanidade pessoas como Álvaro Cunhal. Num país pequeno como o nosso, por vezes, um século não chega para que se gere um homem com as qualidades do incansável e indestrutível combatente antifascista. Muito se disse e escreveu neste par de dias sobre a sua vida, sobre a sua obra plástica e literária, insistiu-se na sua coerência, na sua verticalidade, também se falou na sua intransigência, afinal, consequência necessária das suas profundas convicções.

Falou-se também dos seus sinistros planos para instaurar um regime totalitário de esquerda em Portugal. No entanto, suspeito que quem assim pense não tenha conseguido manter a clareza de raciocínio, a honestidade intelectual e a objectividade que deveriam ser obrigatórias no gerar de ideias para consumo próprio ou alheio. Não é a ignorância mãe do preconceito?

Na passada quarta-feira foi cremado e as suas cinzas, agora depositadas nos canteiros do cemitério, levarão uma importante parte da História de Portugal. Levarão um mito, um modelo, um herói. E porque cremado quis ser, não figurará aqui imagem sua. Nada de imagens, nem santinhos nem múmias embalsamadas. Apenas um par de versos de José Afonso, que, talvez melhor que uma fotografia, descrevam Álvaro Cunhal:

"Nem o vôo do milhano, ao vento Leste
Nem a rota, da gaivota, ao vento Norte
Nem toda a força do pano, todo o ano
Quebra a proa do mais forte,
Nem a morte."

quinta-feira, junho 09, 2005

Postiço

Este artigo é postiço. Serve apenas para anunciar que preparo um regresso à publicação diária em breve. Falarei de Reis e de Cidades Esquecidas, da Vida e das Coisas, da Alma e da Morte. Em breve. Até já.

terça-feira, maio 31, 2005

Não!

Os franceses disseram não ao tratado constitucional. Por pouco, é certo, mas disseram não. Não à política interna de Chirac, não às deslocalizações das empresas para Leste, não ao tratado em si, não à Europa, não à carestia de vida, não ao desemprego, não à selecção de futebol francesa, não à programação televisiva do seu país, não aos massacres no Darfur, não à fome no Mundo e não à guerra.

Os seus ideais foram mais fortes! Todos os homens franceses são iguais! Todos os homens franceses são livres! Todos os homens franceses são solidários com os outros homens franceses!

A França disse sim à França e não à Europa. O grande problema é que a França ainda pensa que é a França e isso é duplamente preocupante. Por um lado, se realmente ainda existe a França, então não pode existir Europa Una e Indivísivel. Portugal, a Letónia e a Eslovénia podem ser o que são, ser europeus, e tudo está bem, nada há que o impeça, as suas identidades nacionais em nada beliscam a Grande Pátria Europeia. O caso francês é absolutamente distinto. A existência orgulhosa e nacionalista de países como a Alemanha, a Inglaterra e a França é precisamente o oposto do conceito europeu, é a sua antítese. É a génese de todos os males, crónicos, deste continente.

Repete-se sempre a mesma história: Uma pequena crise económica gera nestes países a estigmatização acéfala dos nacionalismos idiotas, aparecem os partidos de extrema direita, agiganta-se a esquerda folclórica e trauliteira. Enfraquece-se consequentemente a democracia com estes avanços niilistas, com os efeitos do costume: intolerância, acentuamento do declínio económico, falta de confiança generalizada, surgimento de conflitos e guerra.

Se, por outro lado, a França realmente não existe, então o caso ainda é pior. Se até lá, na grande França, se deixa fugir o bem estar social, os direitos adquiridos e até as liberdades, o que acontecerá aqui, em Portugal, eternamente sentado no chão, atrasado e rural, com a mão direita estendida?

terça-feira, maio 24, 2005

O Barbeiro

Entrara na barbearia, deserta, havia poucos minutos. Decidiu esperar e observou a pequena sala, com as suas duas cadeiras de barbeiro e a pequena mesa cheia de vetustas revistas, cheias de heróis populares há muito desaparecidos. Sentou-se no banco de espera corrido, esticou as pernas e pegou numa "Nova Gente" de 1981 em cuja capa ainda se podia reconhecer Armando Gama e Valentina Torres. O primeiro, aclamado vencedor do festival da canção da RTP, a segunda, apresentadora da extinta continuidade, ainda aguardando as quatro arrobas que viria a acumular nos próximos anos.

Vindo da taberna ao lado, entrou o barbeiro. Desfez-se em etílicas desculpas, comentou enquanto punha a bata branca dos talhantes e dos empregados das clínicas de análises a urina, sangue e fezes: O nosso Sporting foi-se abaixo. Foi mesmo, respondeu, era bem curto, acrescentou e nisso, ligeiro como Joaquim Agostinho, levantou-se do banco corrido e alapou-se, inerte e expectante, ficava sempre assim quando ia ao barbeiro, nervoso, na enfeitada cadeira de afeite.

Postas tolhas e toalhetes, protegida a roupa do paciente, perguntou o barbeiro ao cliente: Importa-se que ligue o rádio? Gosto de ouvir música enquanto trabalho, justificou. Claro que não, respondeu o cliente, de olhos presos no espelho que o mirava.

Ligado o rádio soou música anódina, nada de muito entusiasmante e o trabalho decorreu naturalmente, tesourada aqui, raspadela acolá. Às tantas muda a música, agora do agrado do barbeiro, que começa a esboçar pequenos passos de dança em redor do cada vez mais assustado freguês. Vem o refrão, o passo ganha nova cadência, mais leveza, voa a tesoura, rodopia a navalha, e com ela o barbeiro, feliz e certeiro no corte e no vôo.

O pé esquerdo do cliente, até então expectante e sossegado, ganha vontade sua e deixou que a planta descolasse levemente do chão cheio de cabelos, para voltar a poisar, num movimento repetido, cada vez mais sonoro e feliz. O ritmo batido no chão repetia-se no passo do barbeiro que, na fase mais empolgante da música, tamborila agora suavemente no couro cabeludo, que é o seu local de trabalho, primeiro com a ponta dos dedos, agora com o cabo da navalha, o cliente já não se importa, ergue já os pés a descompasso, um sempre, outro de quatro em quatro batidas, e, de súbito, tudo volta a acalmar com o leve desmontar da melodia, desconstruída após a última repetição do estribilho. Tudo reduz, param os pés, volta o cabo da navalha à palma da dextra do barbeiro, está o corte quase pronto.

Quanto é, pergunta o cliente, remirando-se feliz no espelho, seis euros, é barato, pois é. Deu uma nota de dez ao barbeiro, sacudiu o cabelo das calças e deixou ficar o troco.

terça-feira, maio 17, 2005

Aparição

Encostados ao balcão, dois goliardos olhavam gulosamente o enorme traseiro da moça que os atendera e que agora buscava num armário frigorífico as cervejas pedidas. Lambeu-se um, olhando para o outro, que, num esgar cúmplice, emitiu um pequeno grunhido. Por cima da máquina de café, repousava uma colecção de chávenas velhas, ladeadas por dois pequenos candeeiros de petróleo, há muito desactivados.

Quem entrasse pela porta da taberna e olhasse demoradamente para as chávenas ao centro do seu horizonte visual, veria, simétricos em relação a um imaginário eixo que dividisse a máquina de café a meio, um par de bêbados coroados pelos tais candeeiros a petróleo.

Aprofundasse o forasteiro a sua visão, tentasse ele entrar com os olhos pela parede, esforçando-se para ver o que do lado de lá houvesse, e os goliardos coroados pelos candeeiros juntar-se-iam, de forma aparente, no centro do seu campo de visão, sobrepondo-se.

Acender-se-iam então, numa ilusão que forçosamente se criaria no viajante, os candeeiros que agora eram só um. Brilharia sob essa luz a ébria e oleosa cabeleira agora unificada dos clientes, criando-se assim um clarão mágico, como um pedaço de âmbar circunscrito numa coroa de ouro e prata. Levantar-se-ia então a empregada, virar-se-ia, e, naquele divino enquadramento, tapar-se-ia na mente do forasteiro o dente incisivo que a moça não tem com um canino que lhe sobra e resplandeceria na face da menina, antes rubicunda, agora alva e marmórea, o mais belo e angelical sorriso que aos olhos humanos pode aparecer.

Soaria o curto grunhido dos goliardos a doce repenicar de violinos, puxando a alma e os olhos do forasteiro para a frente, na direcção da aparição miraculosa. Fora de enquadramento, à esquerda, um calendário deste ano, empilhado sobre o do ano passado, anunciando uma empresa de transportes, cargas e descargas, desfolhar-se-ia, rendido também ele à paragem do antes inexorável tempo, que era a sua única razão de existir.

sábado, maio 14, 2005

Jorge Perestrelo

Morreu na passada semana Jorge Perestrelo.

Hoje é dia de Benfica-Sporting e talvez não falte quem chame miúdo ao João Moutinho, mas faltará quem puxe clamorosamente pelo Sporting enquanto relata a partida.

Muitos criticaram o locutor pelo seu estilo exuberante e excessivo. Neste país de gente miúda e acagaçada com o que os outros possam pensar, faz falta quem diga, com paixão, o que lhe vai na alma.

Sempre foi muito difícil não ser cinzento e enfadonho neste país enfadonho e cinzento. Com Perestrelo, foi-se um bocadinho de cor.


Jorge Perestrelo.

Aniversários

No próximo dia 21, no Teatro Taborda, comemorar-se-á o aniversário d'O Código de Santiago, um blogue muito bem arranjadinho e escrito por AS. Soube do blogue e da festa pelo Francisco do Melga, grande entusiasta da actividade blogueira fora-de-portas. Os leitores interessados já sabem: Inscrições abertas n'O Código de Santiago!

domingo, maio 08, 2005

A Fuga

Todos fogem do Togo! Já não bastava a desenfreada fuga dos leitores do Meia Livraria ao Togo! Agora também franceses e alemães empacotam os seus pertences, alguns com frascos de vidro presumivelmente cheios de opalas e topázios, e saiem do Togo rumo a paragens mais pacíficas, tais como o Gana ou o Benin.


Mapa do Togo.

terça-feira, maio 03, 2005

Inquérito

A pedido da Olga do Simples Opiniões, vou responder a um inquérito. Apesar de, em condições normais, não passar cartão a esse tipo de exercício, vou abrir uma excepção, quer pela pertinência do tema (livros e literatura), quer pela pessoa que me pede e com os modos que o faz.

Então cá vai:

P: Não podendo sair do contexto de "Fahrenheit 451" que livro gostarias de ser?
R: Talvez o livrinho do Dan Brown, ou qualquer um do Coelho. Assim, mesmo que me queimassem, morria por uma nobre causa.

P: Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
R: Claro. O Sexta-Feira, do "Robinson Crusoe" ficou para sempre marcado no meu imaginário e já estou a prever a pergunta da ilha.

P: Qual o último livro que compraste?
R: Esta é difícil. Comprei uma remessa de livros num alfarrabista (em frente ao Convento do Carmo). Não sei qual deles foi o último. Talvez "O Judeu" do Bernardo Santareno. Temos de apoiar os jovens autores de Santarém.

P: Qual último livro que leste?
R: "Viagem ao Fim da Noite" de Céline. Recomendo. É a história de um tipo que viaja até quase ao fim da noite. E tem um amigo, que por acaso se chama Robinson.

P: Que livro estás a ler?
R: "As Aves" de Aristófanes e "Contos e Histórias" de Walter Benjamin. Leio sempre dois ao mesmo tempo. Estão situados em locais diferentes. O maior fica onde passo mais tempo, o menor onde passo menos. A logística é um dos meus dons naturais.

P: Que livros (cinco) levarias para uma ilha deserta?
R: Para uma ilha talvez fosse melhor levar umas revistas. Mas a pergunta pede livros, por isso, cá vai:

1-"Guia dos Vinhos 2004";
(Esperando que haja vinha na tal ilha.)

2-"Robinson Crusoe", de Daniel Defoe;
(Por razões evidentes e em homenagem ao Sexta-Feira)

3-"1001 Maneiras de Cozinhar Bacalhau",
(Só aplicável caso a ilha se encontre no Mar do Norte)

4-As obras completas de Goethe num só volume.
(Para me aborrecer de morte e ter literatura garantidamente boa para a vida inteira.)

5-"O Observador de Aves - Como Ser um Ornitólogo de Renome em Apenas 24 lições"
(Um tipo tem de se entreter com qualquer coisa quando está numa ilha deserta.)

P: A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
R: Um dos testemunhos vai para o Magnif porque merece, os outros dois vão para o Melga, que lê muitos livros.

sábado, abril 30, 2005

Apitos Vermelhos

Ainda mal começou o processo "apito dourado" e já se assiste ao esboçar de outro, ainda maior e mais sinistro, quiçá mais porco e torcido: O "apito vermelho". Suspeito que, tal como no famoso caso do "apito salazarento", que durou 48 anos e que nunca chegou à barra dos tribunais, também este novo caso, autenticamente calabotiano, fique para sempre arquivado na sala de troféus da grande instituição que é o SL Benfica! Clube que se prepara para aumentar o seu vasto palmarés com mais um campeonato português ganho como tantos outros em tempos de outras senhoras. Mudam-se os tempos, mas os bigodes e as carapinhas benfiquistas não. São imortais.

Consultem aqui a cara do apito da vitória.

Conflitos em Timor

Os recentes acontecimentos no nosso amado Timor, com violentos confrontos, questionam a utilidade dos lenços brancos e velinhas que acendemos, por Portugal fora, em 1999. Se as bandeiras nacionais de 2004 sempre deram o título de vice-campeão europeu de futebol à pátria lusitana, os lencinhos brancos por Timor para nada serviram. Conflitos entre o governo e a igreja católica? Querem obrigatoriedade de aulas de religião e moral? Valha-lhes deus! Percebe-se agora porque razão os indonésios entregaram com tanta facilidade aquela região à sua sorte! Livra!

"Talvez se devesse ter auscultado mais a hierarquia católica" antes de se ter tornado facultativo, e já não obrigatório, o ensino de Religião e Moral, reconheceu já o ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, José Ramos-Horta, que em 1996 partilhou com Ximenes Belo o Prémio Nobel da Paz, pela acção de ambos contra a ocupação de Timor-Leste pela Indonésia."

Absolutamente sinistro.