quarta-feira, janeiro 05, 2005

Um Conto de Natal (5)

A manhã estava fria, mas o céu estava limpo. Não choveria. Animados e esperançosos, os mecânicos, pintores e bate-chapas avançaram, ladeando uma carrinha de caixa aberta onde se encontrava, bem atirantada, a Roda. Posicionada ao alto, com mais de dois metros de diâmetro, a Roda era de facto impressionante. Feita de aço, seria o sonho de qualquer inquisidor do século XVIII. Era uma Roda de tortura, com lâminas cortantes, que pretendia ser igual à que supliciara Santa Catarina de Alexandria no final do século III.

A estranha procissão, que já levava mais de quarenta homens entretanto granjeados para a luta, causava espanto a todos quantos a vissem, levando esse assombro a um engrossamento do magote com o costumeiro bando de curiosos. E assim marchando e engrossando, chegou a pequena multidão a um pequeno largo, mesmo à entrada da fábrica "Velas e Santos".

Lucinda não quisera ir com eles logo de manhã. Fritaria mais algumas azevias e, talvez pela hora de almoço lá aparecesse, logo se veria. Tinha medo de que algo pudesse acontecer, alguma carga policial, já se sabe, estas coisas são sempre tão perigosas, não pode uma pessoa pedir o que é dela que logo é atacada e silenciada. Valia agora a Lucinda um pequeno Santo Honório que comprara, com as três hóstias na sua pá, padroeiro de padeiros e boleiros mas, mal suspeitava ela, fabricado na fábrica "Velas e Santos"! Precisamente o local onde Alfredo ajudava agora, com mil cuidados, a descarregar a Roda de Santa Catarina de Alexandria. Feita com as suas mãos e com as dos seus colegas de ofício.

Faltavam apenas cinco dias para o Natal mas o ambiente junto à fábrica não o fazia lembrar! Com megafone na mão, Silveira saltou para cima da carrinha; panos com dizeres pintados foram estendidos pelo chão; cabeças espantadas assomaram-se às exíguas janelas da fábrica, intrigadas com o aparato; à cautela, a polícia foi chamada por um dos responsáveis da "Velas e Santos"; ao fundo, ainda não se via bem, parecia vir uma pequena barraca móvel de venda de bifanas e cervejas; e no alto, Santa Catarina de Alexandria olhava intrigada pensando: "Que quererão estes meus afilhados?".

(Continua)

3 comentários:

Anónimo disse...

Why not put part 6 in English the true language of Christmas?Ho Ho Ho!

sibylla disse...

Também eu estou em protesto, á porta deste blogue! Este suspense é uma forma de tortura sobre os leitores ;-o).
Que delícia esta riqueza de pormenores, de personagens e estilo linguístico.
Aguarda-se o Rodar da "coisa"...:-)

Anónimo disse...

Queremos mais!!! Olha q sei onde moras!
Este suspense pode ser considerado atentado ao bem psiquico dos leitores. Ou acaba ou parto para a manif!!
Olga