sexta-feira, janeiro 07, 2005

Um Conto de Natal (6)

"Os mecânicos, os bate-chapas e os pintores de automóveis são indefesas vítimas da tenebrosa maquinação de São Cristóvão!" gritou Silveira para logo ouvir um coro de aprovadores assobios. A frase de ordem não tardou a surgir: "Cristóvão! Ladrão! Roubas-nos o pão! Cristóvão Ladrão! Roubas-nos o pão!" e durante breves minutos nada mais se ouviu naquele largo.

Silveira recobrou fôlego e gritou: "Parem de fabricar essas malditas chapas com o São Cristóvão, protector dos viajantes! Matam-nos à fome!" E era verdade. Desde a sua divulgação e produção em grandes números, e desde que em cada automóvel passara a figurar uma imagem de São Cristóvão, que o número de sinistros reduzira drasticamente. Já só o número insignificante de descrentes neste início do século XXI é que ainda tinha, ocasionalmente, algum acidente de automóvel. Era pouco. Todos os outros, tementes a Deus e adoradores de Santos, deixaram há bastante tempo de sofrer o mais ligeiro toque que fosse ao volante das suas viaturas, protegidas pelo Santo da Cabeça de Cão, pelo que carregou Cristo: São Cristóvão!

Lucinda olhava agora para o seu Santo Honório. Fixamente. E sem dizer pensou: "Ajuda o meu Alfredo na sua súplica, fala com Santa Catarina, põe-te do lado dela, põe-te do lado do meu Alfredo, ajuda-o, não queiras nada a São Cristóvão, ajuda a Santa supliciada na Roda, ajuda a padroeira dos mecânicos e dos bate-chapas, tu que nunca me deixaste queimar o óleo das azevias, tu que nunca me deixaste esquecer açúcar ou sal e que nunca permitiste que faltasse a fome a quem gosta de bolos, tu que sempre me ajudaste, ajuda agora Alfredo..." e continuava na sua mental ladaínha enquanto Santo Honório, lá no alto onde estão os santos e Jesus e os anjos e todos os eleitos por Deus, lá nesse alto Honório ouviu Lucinda e, apesar de ser Santo bem disposto, são-no sempre os padeiros e boleiros, ficou pensativo.

Santa Catarina de Alexandria, atraída pela Roda que a invocava, ouviu Silveira e Alfredo, ouviu Barnabé e a todos os outros e comoveu-se com o sofrimento dos seus, como sempre acontece a gente de grande sabedoria e inteligência. E podiam vir cinquenta sábios, os mais capazes do reino que agora era República, que nada poderiam contra o sereno saber da sua fé. Mas não vieram. Vieram apenas os bate-chapas, os mecânicos e os pintores, esquecendo de propósito os curiosos, desocupados e bisbilhoteiros, porque a esses não há santo que guarde e ainda bem.

(Continua)

3 comentários:

mfc disse...

Cá continuamos... a rezar a todos os Santos!

vmiguel disse...

"Comentários só no fim." Estou a gostar!! apesar de não ter bolinha no canto superior direito do Blog (faltam as cenas violentas e sexo).

vmiguel disse...

"Comentários só no fim." Estou a gostar!! apesar de não ter bolinha no canto superior direito do Blog (faltam as cenas violentas e sexo).