sexta-feira, janeiro 14, 2005

Um Conto de Natal (7)

Santo Honório pouco tinha que ver com a história, mas agradava-lhe Lucinda. Agradava-lhe, isto é, Honório era Santo e ser Santo dá seguramente à gente que o é outro gostar, não aquele gostar rude, dos biltres, animalesco e primário, pelo contrário, era o gostar sagrado e sublime, singelo e belo. Era assim que Santo Honório gostava de Lucinda e era por essas que Honório era Santo e por outras que era Padeiro.

Santa Catarina, sensibilizada, falou com aquele a quem chamam Cristo. E expôs-lhe o problema antes de tomar alguma medida. Quando se tratava de pequenos milagres, de menores prodígios, Santa Catarina resolvia os assuntos sózinha, avaliava o problema, a fé de quem pedia, e por fim decidia. Mas este caso era diferente, envolvia outro Santo, que lhe era antagónico, neste caso Cristóvão, e havia que pedir moderação superior. E isto dito falava já a Santa com o mais Divino.

Chamado inesperadamente, São Cristóvão estava visivelmente aborrecido com a situação. Vendo-o assim, de ar obstipado, entupido, irado e rubicundo, Jesus mudou o fiel da sua balança para o lado da sensata Catarina. Ainda por cima, Cristóvão apresentara-se "à bizantina", ou seja, com a cabeça de cão, o que lhe conferia ar um ar bizarro e até atoleimado. Cristóvão causava irritação no Mestre, que a não escondeu: "Olha lá, sabes quantos faço no próximo fim de semana?" perguntou Jesus. "São muitos, meu rapaz! Quando me carregaste às costas tinha eu já muitos séculos!" concluíu. São Cristóvão assustou-se momentâneamente para logo recuperar o fôlego e a audácia: "As minhas competências são conhecidas, só faço o meu dever!". Santa Catarina mantinha-se calada. Jesus não sabia o que fazer.

"Que queres tu, Honório?" pergunto o Mestre, "Não vês que estou ocupado?". Santo Honório respondeu: "Bem vejo, mas é o assunto que Te ocupa que me traz!" E falou-lhe de Lucinda e de Alfredo e de Lucinda novamente. E Jesus ficou contente. Tinha agora dois santos de um lado e aproveitaria para castigar a audácia de Cristóvão. Mandou-os a todos retirar dizendo: "Saiam! Aborrecem-me já em demasia. Vou resolver já o problema!"

Em frente da fábrica acotovelavam-se já mecânicos com jornalistas e com ociosos. Vinham bate-chapas de todo o distrito, a polícia perdia o controlo da situação. Lucinda, já de farnel pronto, mal conseguira chegar perto da Roda, tal era a azáfama. Mas chegou e disse a Alfredo: "Come estas azevias, precisas de te alimentar!" Alfredo nem chegou a responder. De repente, e sem nada o prever, estava o dia limpo, já aqui se disse, um forte trovão ecoou nos céus! E sem mais aviso furou pela cobertura da fábrica um fino mas potentíssimo raio eléctrico, visivelmente divino. Novo estrondo se ouviu, alguns berraram, outros ficaram calados, mas mais nada se passou. Os céus silenciaram-se.

(Continua)

1 comentário:

mfc disse...

Cá continuamos... dia após dia...