quarta-feira, janeiro 19, 2005

Um Conto de Natal (8)

Os poucos operários que tentavam laborar, a maior parte estava empoleirada junto às janelas da fábrica, apanharam o susto das suas vidas. Divinamente seguros, não obstante, nada lhes sucedeu, nem ataques cardíacos nem embranquecimento capilar, assustaram-se e é tudo. Não será coisa para ver duas vezes, rebentarem-se com raios eléctricos matrizes e moldes, derreterem-se assim tantos bonecos de São Cristóvão e só dele, era coisa, já se disse, para não mais se ver!

Algo de mais estranho viria ainda a suceder, menos perceptível mas mais abrangente, mais global: em todos os automóveis, onde antes figurava protector o São Cristóvão, estava agora uma pequena mas bonita imagem de uma Crucificação, com pouco mais que um polegar de altura, brilhante e dourado, muitos dos automobilistas, ainda ao volante e espantados pela mágica transformação, reconheceram o novo boneco: Era um pormenor da obra de Agnolo Gaddi. Uma vez mais, e graças à divina protecção, ninguém se despistou, nenhum acidente se registou. Não seria a trannsformação das chapas que causaria dissabores às pessoas. Jesus pensou com cuidado todos estes pormenores.

Atónitos, os que se manifestavam em frente à fábrica viram girar, sem que nada o fizesse prever, a Roda de Santa Catarina, girou e continuou a girar, cada vez mais rápido, até que se descolou da carrinha que lhe servia de andor e, com grande silvo e maior brilho, disparou em direcção aos céus, sempre em rotação. Nenhuma das lâminas se soltou, mostrando o que no parágrafo anterior se disse sobre a cuidadosa preparação de tudo isto.

Ao longe, na autoestrada, poucos minutos depois, ouve-se um chiar de pneus. Cheira-se a borracha queimada e, acto contínuo, um estrondo metálico. Disparam os "airbags" e o carro atravessa toda a faixa para embater, já quase parado, no separador de betão. Ninguém se aleijou e a reparação não seria muito complicada. Menos mal. Pior estava o tipo que se tinha estampado na faixa contrária, pensou o condutor.

A manifestação desmobilizou-se muito rapidamente. Todos estavam assustados e Silveira, pelo megafone, gritara: "Voltemos para os nossos postos de trabalho e empresas! Voltemos para as nossas casas ordeiramente!" e todos foram. Alfredo foi dos últimos. Despediu-se dos mais chegados, encontrada que estava Lucinda, rumaram ambos a casa. Depois de almoço, Alfredo foi para a sua oficina e pouco tardou para que lhe aparecesse um cliente à porta, "Tenho aqui uma amolgadela no guarda-lamas...". Alfredo sorriu e, mesmo precisando como precisava de dinheiro, respondeu: "Eu vejo isso homem. E até lhe vou fazer um desconto de Natal!".

A ruidosa "Playstation" deliciava o catraio enquanto a rapariga enviava furiosamente SMS do seu telemóvel. Na sala, Alfredo comentava com Lucinda a triste notícia: Silveira havia morrido ontem, véspera de Natal, a caminho de casa, no seu automóvel. "Ele há coisas do Diabo!", disse Alfredo enquanto enchia o seu terceiro copo de vinho.

(Fim)

3 comentários:

Leonor disse...

É como eu sempre digo, antes pobre que morta.
Espero agora por outras histórias, de caríz popular ou não, inspirada em reis e rainhas, ou em magias brilhantes ou malignas.
Venham as histórias contadas com pormenores deliciosos, que provocam a agitação intelectual necessária à vida.

GoG disse...

história deliciosa, claudio :)... parabéns... e agora, estou como o Zeca: venham mais cinco...

Magnif disse...

Clap! Clap! Clap! Clap!
Bonito!
Continua...