quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Distâncias

Numa localidade escondida na Malcata, Vila Boa, vive um casal de idosos vizinho de um senhor que está emigrado em França. Por coisas de tubos a atrevessar terrenos, e por árvores a cortar, buracos a fazer, enfim, por coisas dessas se falou com o casal e só ela, a senhora, é que falava, estridente e sonora. O marido falava baixo e engolido, nada saía, tudo era abafado pelas notas agudas e quase monossilábicas debitadas pela dona da casa. E resumia-se o que dizia a senhora assim, Se o vizinho não deixa passar o tubo no terreno dele, eu também não deixo que passe no meu, E se, por acaso, ele vier a deixar, tendes autorização para passar por aqui. O marido disse que sim porque percebeu que era altura de dizer que sim.

Baseava a sua decisão num facto que a poucos ocorreria,´é que o vizinho, o tal que está na França, apesar de não ser de cá, é de Pouca Farinha, é boa pessoa. Pois claro. Está tudo explicado.

Para que o leitor compreenda a dimensão do que se disse, importa esclarecer: Pouca Farinha é uma localidade igualmente escondida na Malcata e da casa deste casal de idosos até à placa onde se lê "Pouca Farinha", distam, bem medidos, seiscentos metros.

3 comentários:

Anónimo disse...

É um episódio enternecedor. Gosto da lógica e do bom senso que as pessoas demonstraram. Importa bater o pé às grandes obras que com estaleiros comilões tentam aproveitar-se e abusar de quem é pequeno e pobre.
O outro, para além de boa pessoa e bom vizinho, teve a sensatez de escapar para a França. É, portanto, normal que uma qualquer decisão tenha que ter o seu aval.

Um abraço irlandês,
Pedro Farinha

Francisco disse...

És provocador!

p disse...

Apanhaste bem a essência da coisa... O problema é que este episódio é reincidente. Não só na Malcata... Não só na serra...