sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Modernidade

Sentado num banco aquecido, feito de uma liga metalo-polimérica, perfeitamente inodora e ergonómica, observava a sintética paisagem através de uma película de fibra muitíssimo resistente, quer a impactos mecânicos, quer à temperatura e som, mas que, apesar da sua extraordinária capacidade de isolamento, permitia ao viajante a sensação de nada estar entre ele e o exterior. Assim eram agora os comboios. No ar, por cima da carruagem, passara segundos antes um formidável avião movido a uma forma totalmente nova de energia, não poluente, barata e eficaz.

Carregou num botão à sua esquerda e instantaneamente se transformou a película que o separava da paisagem num estonteante écran multicolor sensível ao toque, onde podia, interactivamente, aceder à Grande Rede Universal e a qualquer emissão de televisão ou rádio. O som respectivo era canalizado em exclusivo para o seu aparelho auditivo.

A viagem era longa. Entre Figueira de Castelo Rodrigo e Lisboa demorava o comboio cerca de uma hora no percurso. Era assim a sua rotina diária: levantava-se às sete para pegar às nove. Sempre foi duro viver nos subúrbios. Ao longe via já a Nova Gare Oriente, já preparada para aero-táxis e com ligações aos tubos acrílicos onde circulavam os autocarros automáticos.

Saíu do comboio, apanhou um autocarro e rumou até à central distribuidora. Lá chegado, olhou para a porta metálica, que o reconheceu lendo-lhe, como a um livro ou a um cartão, a retina. Deu-lhe os bons dias, a porta, e franqueou-se, permitindo-lhe a entrada. Já lá dentro rumou à sua secção onde um colega lhe entregou uma larga saca de couro, já parcialmente esgarçada, que pesava, estava cheia, mais de cinco quilogramas. Gracejou com o colega sobre a derrota do Benfica no anterior domingo, pôs a sacola ao ombro e saíu do edifício em direcção ao parque áutomóvel.

Abriu a porta da sua carrinha eléctrica, que o cumprimentou, sentou-se no banco esquerdo, jogou o saco para o banco direito e partiu. Já à porta da primeira casa, fintou o cão, atirou como podia três cartas e um pequeno embrulho, saltou para a carrinha aliviado por não ter sido mordido e continuou a distribuição. Só às quatro da tarde estaria despachado. A vida de carteiro sempre fora dura.

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