segunda-feira, abril 04, 2005

Togo (4)

Em quase meia década de África, o checo amealhara já o bastante para encher um cintilante frasco de vidro com pedras preciosas e alguns pedaços de marfim. Uma pequena fortuna. E esperava agora encher o segundo frasco, se possível em menos tempo, e regressar para a sua terra natal onde seguramente o paludismo não o atacaria tanto. Todas as noites, desenterrava o frasco do seu esconderijo, e ficava a mirá-lo, embevecido e feliz, como um rafeiro que dorme todo o dia a sonhar com a altura de fazer surgir da terra o nauseabundo osso de vaca. Dorme para que passe rápido o tempo. O checo, que não dorme, bebe gins.

Com essa fortuna construiria casa, compraria um carro rápido, alemão, e poderia passar o resto da vida gastando o que sobrasse, e seria muito, em prostitutas e bebida. Viveria no mais requintado deboche que conseguisse, do boçal estava já farto, até que deus o levasse. Pelo fígado, ou pelo pâncreas, ou pelo que fosse.

Até lá aguentava-se, tão sólido quanto possível, à frente desta empresa de fundações especiais africana. Onde, de resto, não ganhava mal, cerca do dobro do que ganhavam todos os outros trabalhadores. Esse pensamento não raro o reconfortava em momentos de maior depressão ou de mais funda ressaca.

(Continua)

14 comentários:

olga disse...

Cláudio, posso lançar um concurso? :)

Cláudio disse...

Um concurso? Que concurso?

Anónimo disse...

Não gostei desta parte, Cláudio.

Um abraço,
Pedro Farinha

Cláudio disse...

Mas tu não és checo, Pedro! Nem a Irlanda é o Togo!

Anónimo disse...

Gostei bastante da analogia entre o checo e o frasco com pedras preciosas e o rafeiro com o seu osso de vaca mal cheiroso. Muito imaginativo. Porém, a história tem um senão: os checos, e os povos de leste de uma maneira geral, não são muito dados aos prazeres da carne. A ideia da prostituição já deve ter a ver com o que tu farias, se fosses checo e tivesses um pote cheio de pedras preciosas. Os latinos são tramados.

Continua

olga disse...

Um concurso para o final da história. Os leitores vão dando dicas e tu escolhes o melhor...O que achas :)?!
Seria um post interactivo e dava ânimo para se continuar a seguir atentamente os desenvolvimentos do povo do Togo, do Checo, dos indigenas, da exploração de pedras preciosas e eventualmente de alguma prostituta que ganhe protagonismo na história!

vmiguel disse...

Em Praga e na estrada a caminho da fronteira (Praga-Dresda) com a Alemanha o Checo tem muito por onde escolher, eles até podem ser indiferentes à "carne" mas as Checas, que insistiam em saudar a passagem de cada carro na estrada com uma temperatura ambiente de nove graus negativos, aqueciam rápidamente a troco de umas quantas Coroas Checas (CK) ou qualquer outra divisa :).

Anónimo disse...

Não sou checo, a Irlanda não é o Togo e esta não é (e não será) a tua melhor história.

Abraço hercúleo,
Pedro Farinha

Cláudio disse...

Até nem a estava a achar muito mázinha, Pedro... Mas talvez acate a sugestão da Olga para que se encontre um final.

Sertorius disse...

Afinal é uma Livraria completa!! Um blog muito interessante. Parabéns

patrimonios.blog.com

Anónimo disse...

Não será a ideia da Olga, para além de exercício de interesse, uma ideia algo (pelo menos perto de ser) desconstrutivista?

Slán,
Pedro Farinha

Cláudio disse...

Pedro Farinha: Devias seguir o exemplo da Olga. Repara na forma elegante como ela afirma o mesmo que tu!

Anónimo disse...

Está muito bem visto, Cláudio!
(Pedro Farinha - 0 em perspicácia e 0 em elegância).

olga disse...

Estou portanto a ganhar 2 - 0.
Aguardo próximo capítulo para poder dar palpites à história, sem querer ser "desconstrutivista"... Bem pelo contrário! :)