domingo, abril 10, 2005

Togo (5)

Cansado, o proprietário dos parafusos de inox regressou aos seus aposentos. Os colegas terminavam ainda o jantar, em grande algazarra, felizes com as aguardentes e com o calor que, vindo de dentro, rivalizava e diminuia o que vinha de fora. Certificou-se que não estava ninguém, não podia ser visto, e debaixo da sua esteira, desenterrou uma pequena caixa de plástico onde ainda se podia ler: "Nesquick". Dela extraíu diversos objectos, entre eles os famigerados parafusos. Sentiu-os na sua mão, brilhantes e frios, quase tão cintilantes como os seus olhos, sempre que os mirava.

A algumas dezenas de metros, o ensurdecedor barulho do aparelho de ar condicionado não bastava para abafar o da paródia dos trabalhadores. O checo tentava em vão concentrar-se numa revista "Time" de há quatro meses atrás quando decidiu abrir o cofre. Estava meio embriagado mas ainda assim conseguiu lembrar-se da combinação. Lá dentro estava, ocultado por um conjunto interminável de papéis, pastas e catálogos, o frasquinho de vidro com as preciosidades. As suas posses não terminavam nesse frasco, mas era nele que estava a maior parte. Os poucos diamantes que possuía brilhavam à luz da lâmpada fluorescente como se fossem parafusos de inox. Fechou novamente o frasco, com cuidado, tornou a colocá-lo no cofre e, com um estrondo, fechou o garante dos seus haveres. A pistola, essa tinha-a sempre à mão. Nunca se sabe, com esta gente, nem com a outra, pensava muitas vezes o europeu.

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