terça-feira, maio 24, 2005

O Barbeiro

Entrara na barbearia, deserta, havia poucos minutos. Decidiu esperar e observou a pequena sala, com as suas duas cadeiras de barbeiro e a pequena mesa cheia de vetustas revistas, cheias de heróis populares há muito desaparecidos. Sentou-se no banco de espera corrido, esticou as pernas e pegou numa "Nova Gente" de 1981 em cuja capa ainda se podia reconhecer Armando Gama e Valentina Torres. O primeiro, aclamado vencedor do festival da canção da RTP, a segunda, apresentadora da extinta continuidade, ainda aguardando as quatro arrobas que viria a acumular nos próximos anos.

Vindo da taberna ao lado, entrou o barbeiro. Desfez-se em etílicas desculpas, comentou enquanto punha a bata branca dos talhantes e dos empregados das clínicas de análises a urina, sangue e fezes: O nosso Sporting foi-se abaixo. Foi mesmo, respondeu, era bem curto, acrescentou e nisso, ligeiro como Joaquim Agostinho, levantou-se do banco corrido e alapou-se, inerte e expectante, ficava sempre assim quando ia ao barbeiro, nervoso, na enfeitada cadeira de afeite.

Postas tolhas e toalhetes, protegida a roupa do paciente, perguntou o barbeiro ao cliente: Importa-se que ligue o rádio? Gosto de ouvir música enquanto trabalho, justificou. Claro que não, respondeu o cliente, de olhos presos no espelho que o mirava.

Ligado o rádio soou música anódina, nada de muito entusiasmante e o trabalho decorreu naturalmente, tesourada aqui, raspadela acolá. Às tantas muda a música, agora do agrado do barbeiro, que começa a esboçar pequenos passos de dança em redor do cada vez mais assustado freguês. Vem o refrão, o passo ganha nova cadência, mais leveza, voa a tesoura, rodopia a navalha, e com ela o barbeiro, feliz e certeiro no corte e no vôo.

O pé esquerdo do cliente, até então expectante e sossegado, ganha vontade sua e deixou que a planta descolasse levemente do chão cheio de cabelos, para voltar a poisar, num movimento repetido, cada vez mais sonoro e feliz. O ritmo batido no chão repetia-se no passo do barbeiro que, na fase mais empolgante da música, tamborila agora suavemente no couro cabeludo, que é o seu local de trabalho, primeiro com a ponta dos dedos, agora com o cabo da navalha, o cliente já não se importa, ergue já os pés a descompasso, um sempre, outro de quatro em quatro batidas, e, de súbito, tudo volta a acalmar com o leve desmontar da melodia, desconstruída após a última repetição do estribilho. Tudo reduz, param os pés, volta o cabo da navalha à palma da dextra do barbeiro, está o corte quase pronto.

Quanto é, pergunta o cliente, remirando-se feliz no espelho, seis euros, é barato, pois é. Deu uma nota de dez ao barbeiro, sacudiu o cabelo das calças e deixou ficar o troco.

5 comentários:

Anónimo disse...

barbeiros e do sporting já são dificeis de encontrar.

O Micróbio disse...

Cada ida ao barbeiro é uma autêntica aventura... o meu tb é do sporting! Só tenho pena de ter cortado o cabelo à pouco tempo, senão teria uma justificação para lá ir mandar umas bocas...

Leonor disse...

Se eu fosse um Homem e do Benfica, nunca iria fazer a barba a um barbeiro do Sporting. Livra... Se eles já dizem tudo o que lhes vem à cabeça contra o Benfica, imaginem o que não podem fazer com uma navalha na mão e um pescoço de Benfiquista`"à mão de semear".

Até para escolher um Barbeiro é preciso ter "olhinho"...

Leonor Gonçalves

Cláudio disse...

Que rapaziada tão clubista! O homem diz Sporting, mas podia dizer Atlético, Oriental ou Águias da Musgueira! Estou até arrependido de não ter substituido o Sporting por Oriental!

olga disse...

Armando Gama e Valentina Torres?! Só tu para te lembrares desta dupla! Muito giro.