sexta-feira, junho 24, 2005

Manobras de Diversão

Na ingrata e infausta tarefa de aplicar as medidas impopulares anunciadas há cerca de um mês, o nosso governo adoptou uma conduta táctica de admirável eficácia: Disparar diariamente um conjunto de pseudo-acontecimentos, pueris e cacofónicos, com o fito único de distrair os restos de massas pensantes que Portugal ainda possui.

Se aos ignaros e biltres basta o copo de vinho na tasca e a novela ao serão, se aos pulsantes machos e nóveis fêmeas chega a vacuidade do desporto-rei, com as suas minudências repelentes, casos de arbitragem, carisma dos treinadores e sageza dos dirigentes desportivos, o que fazer aos poucos que sobram?

Sabedores da grande capacidade mobilizadora dos grupos sociais, sempre e só quando lhes toca o odioso da governação, a saber, polícias, professores, magistrados e outros sinistros bandos, o governo que faz para os apaziguar? Ou para os silenciar? Pudessem engavetar o Pinto da Costa, mesmo, e bastaria. Mas nem sempre se consegue tão sonante evento. Pudessem descobrir mais ilustres figuras ligadas a escândalos vários, e lá estariam todos, de olhos postos na porta do TIC, servidos por quase toda a comunicação social do país que não hesitaria em mobilizar todos os seus meios para esse importante desígnio. Pelos vistos, também está a secar este filão.

Mas Sócrates e os seus são sagazes. Possuidores de ilimitados recursos tácticos, afincando-se sempre ao mais elevado mote político da nação, as contas públicas, lançaram esta semana, coincidindo com as manifestações de rua daqueles que só se manifestam quando lhes tiram a vaquinha, ou o borreguinho, uma formidável e inventiva campanha de diversão. Bem urdida, calmamente delineada e de resultados práticos controlados, essa campanha conta com a participação à vez ou em simultâneo de diversos ministros e secretários de estado:

O ministro da saúde chega ao Hospital de São João no Porto e acusa os médicos de varrasquice: Não lavam as mãos, disse o ministro. Aparentemente a coisa não chegou para tirar os polícias e os incêndios da primeira linha informativa. Havia que continuar.

À noite, ou final da tarde, a ministra da educação dispara esta: Ah, isso nos Açores é outro mundo, aquilo nem sequer é bem Portugal! Dito a propósito da diferente interpretação dos tribunais de Lisboa e Ponta Delgada sobre a providência cautelar que impediria a classificação da garantia de normalidade na execução dos exames do nono ano como serviço mínimo, a ministra oferece uma genial gaffe para gáudio das massas ainda residualmente pensantes!

Imagino o riso que, no conselho de ministros, deverá ter soado, ao serem urdidas tão interessantes atoardas! "Esta deve dar para dois dias!", vejo Sócrates a dizer, de boca aberta e sorriso ainda mais franco, "Ó Campos, chama porcos aos gajos"! Risada geral.

4 comentários:

olga disse...

É por causa de post como este que os sucessivos governos portugueses nada fazem em prol da educação e cultura nacionais. Se o povo se apercebe destes esquemas os politicos são mesmo obrigados a governar e bem para progredirem na carreira!!

O Micróbio disse...

Acho que deviam transmitir o "Conselho de Ministros" em directo num dos canais televisivos, talvez se encaixasse na perfeição no SIC COmédia...

meiekita disse...

Tom jocoso e sarcástico!:) Bom, muito bom!:) Crítica mordaz... não queria ser Ministra nem estar no Governo! :)

Anónimo disse...

Para lá das manobras de diversão, ficam as medidas impopulares que, a meu ver, são, de uma forma geral, acertadas e necessárias.

Abraço,
Pedro Farinha