terça-feira, junho 21, 2005

A Rota

Muito raramente oferece o ventre da Humanidade pessoas como Álvaro Cunhal. Num país pequeno como o nosso, por vezes, um século não chega para que se gere um homem com as qualidades do incansável e indestrutível combatente antifascista. Muito se disse e escreveu neste par de dias sobre a sua vida, sobre a sua obra plástica e literária, insistiu-se na sua coerência, na sua verticalidade, também se falou na sua intransigência, afinal, consequência necessária das suas profundas convicções.

Falou-se também dos seus sinistros planos para instaurar um regime totalitário de esquerda em Portugal. No entanto, suspeito que quem assim pense não tenha conseguido manter a clareza de raciocínio, a honestidade intelectual e a objectividade que deveriam ser obrigatórias no gerar de ideias para consumo próprio ou alheio. Não é a ignorância mãe do preconceito?

Na passada quarta-feira foi cremado e as suas cinzas, agora depositadas nos canteiros do cemitério, levarão uma importante parte da História de Portugal. Levarão um mito, um modelo, um herói. E porque cremado quis ser, não figurará aqui imagem sua. Nada de imagens, nem santinhos nem múmias embalsamadas. Apenas um par de versos de José Afonso, que, talvez melhor que uma fotografia, descrevam Álvaro Cunhal:

"Nem o vôo do milhano, ao vento Leste
Nem a rota, da gaivota, ao vento Norte
Nem toda a força do pano, todo o ano
Quebra a proa do mais forte,
Nem a morte."

5 comentários:

Papo-seco disse...

Um aplauso

Walter Tarira disse...

E foi aqui em Porto Velho,capital do Estado de Rondônia, Brasil, que acabo de tomar conhecimento da "partida" do grande Alvaro Cunhal.

Que as cinzas do seu corpo mantenham a chama acesa para todo o sempre.

Um abraço muito especial para o amigo Boino

meiekita disse...

Relativamente às cinzas, dizias «Levarão um mito, um modelo, um herói». Não sei se posso concordar...

Camões, quando se propôs cantar os feitos dos lusitanos na Descoberta do caminho marítimo para a Índia, pretendeu também enaltecer todos «aqueles que por obras valerosas/Se vão da lei da Morte libertando».

As cinzas não levam nada... Até porque ele deixou tudo cá! A obra e as convicções!

olga disse...

Bem vindo, Cláudio. Gostei.

Anónimo disse...

Gostei muito do teu post.
Há alturas em que o sangue nos corre com tanta rapidez nas veias que o nosso cérebro palpita, sentimo-nos possuidos por uma força poderosa. Já me senti assim em algumas ocasiões, sobretudo por indignação com algo ou na defesa da verdade que conhecia, e ao ver o funeral do Álvaro Cunhal (e só pelas imagens)voltei a sentir essa força, um desespero de estarmos cada vez mas pobres, do nosso destino ser conduzido por corruptos que conspurcam as nossas vidas com mentiras, com falsas esperanças, com ideias de "merda" que só nos derrubam e nos deprimem. A emoção das pessoas que foram ao funeral de Álvaro Cunhal e que choravam como se o funeral fosse de uma pessoa da família próxima, não é mais do que tristeza pelo enfraquecimento da luta. A luta ficou sem pai, sem a sua maior inspiração, resta-nos "o brilho nos olhos" daqueles que ainda tentam mudar o rumo das coisas aqui e ali,com honestidade, e a troco de nada.

Leonor