quarta-feira, junho 29, 2005

Uivos

Ao atravessar a localidade de Rendo, parei num daqueles semáforos que detectam a velocidade. À minha esquerda, ligeiramente afastada, estava uma criança vestida com cores garridas, brincava com uma bola. Parou e olhou para mim. À direita, mais próximo, um cão vadio, malhado como uma vaca leiteira, também parou e observou-me com atenção e cautela. Ainda à direita, mais afastado, um homem já velho, seco e de pernas arqueadas, vestido com cores escuras imitou-os. Parou e fitou-me directamente.

Observado por aquelas três criaturas ocorreu-me estar perante os três estágios da evolução humana: A Criança, o Cão e o Velho. O Sol inundou os insectos mortos cravados no meu para-brisas que mo devolveram fragmentado e quase místico. Pus em marcha o automóvel, separei-me do tapete betuminoso e dos olhares da Humanidade. Desliguei o rádio do carro e, certificando-me que já ninguém ouvia, uivei, tentando olhar de frente para o parcialmente desfeito Astro-Rei.

3 comentários:

Bina Ladina disse...

Por vezes os olhares dos outros têm um efeito transcendente em nós.
Um efeito perturbador de auto-consciência: apercebemo-nos que somos meros insectos esborrachados num pára-brisa invisível!
Muito inspirador este teu post :)

MRF disse...

Também podia uivar...:)
Gosto destas fotografias pensadas (e poéticas) do quotidiano.

rita disse...

muito bom este texto.