quinta-feira, novembro 24, 2005

A Casa dos Couratos

Hoje almocei na casa dos couratos em Vila Franca de Xira. Não se assustem os leitores que não transformarei o Meia Livraria em diário pueril onde se desbaratem os nadas e as vulgaridades que constituem o dia a dia do comum cidadão. Para dizer uma expressão que há muito não dizia, e que é do O'Neil, não vos aborrecerei com a minha vidinha.

Falo-vos dos melhores couratos que a humanidade consegue extraír do porco: os couratos da tasca "O Túnel" em Vila Franca de Xira, para muitos, o ex libris da cidade! Foi a segunda incursão a este mítico local que efectuei nos passados meses. Na primeira, fiz-me acompanhar pela "Morte em Veneza" de Thomas Mann cujas primeiras páginas devorei segurando o livro com a mão esquerda e o courato escorrendo molho picante com a direita. Lembro-me da sensação inebriante e quase mágica que o gondoleiro bandido me causou quando empurrei um pedaço da pele do porco pela goela abaixo com o auxílio de uma farta golada de "Frutol". E qual não foi o meu espanto quando mirei com Mann a família polaca no hotel não perdendo de vista, pelo canto do olho, a tropa trolha que entrara ululante pela taberna!

Hoje fiz-me acompanhar pelo "meu" encarregado, um tipo bem disposto com quem partilho o amor pelo courato. Somos, por assim dizer, irmãos de alma courateira. Recordou-se da última vez que ali viera, esforçou-se por apurar o ano, 1996 ou 1997, e contou-me com precisão a história desse dia. Lembrei-me também do distante ano de 1991 em que, após a elaboração da prova específica de matemática para acesso à universidade, que por me chamar Cláudio e por começar Cláudio pela letra C me tocou fazer em Vila Franca, ali estive. Chamasse-me eu Xavier e calhar-me-ia Malveira da Serra, ou Cabo da Roca, mas assim não é e assim colmatei a dura prova na casa dos couratos com alguns amigos de nome César, ou Carlos, ou Daniel. Partilhei esta história com o meu irmão de courato e revelei-lhe a nota que tive, os problemas que saíram, o meu método de estudo, enfim, partilhei aquilo que sempre se partilha com um dos nossos. Falando de boca cheia e mão pingada de picante para ouvidos que guardavam, como guardam as asas das aves os seus ovos, uma boca também cheia de divino courato.

5 comentários:

Luis Olival disse...

Em Vila Franca comi as melhores castanhas fritas dos últimos tempos.
E como regularmente bolos caseiros numa pastelaria cujo nome não me recordo :)

olga disse...

Estive lá há bem pouco tempo com uma amiga. Aquilo é muito bom. O que eu adoro aquela tasca e estas coisas da tradição que Vila Franca de Xira ainda mantém! :)

Cris(nuvemLiLas) disse...

Será por ser 6ª feira que se fala mais em boa comida, ou é só coincidência? ;)
Comer bem é um dos melhores prazeres desta vidinha.
Não...não sou gorducha, é possível gostar de comer e não ser gorducha, claro que é! hehehe
Obrigada pela tua visita, um bfds

JL disse...

Comi-os ontem na pacatez da minha humilde casa. E não deviam ser em nada inferiores a esses. Bem pelo contrário. Bom, mas cada um tem o que merece :-)

spirito disse...

Eu couratos não aprecio mas do porco extraem-se outras coisas boas. Como já disse noutra ocasião, gosto de sopa de peixe e em Vila Franca de Xira há-a bem boa e picante. E em Samora e Benavente também.
Não me convides para os couratos, a não ser que seja naquele tal sítio na Lezíria Grande.
Abraços.