terça-feira, novembro 01, 2005

Fedro

"Num dia cálido de Verão da década que decorre entre 420-410 a.C., Fedro, vindo de junto de Lísias, onde estivera a exercitar-se na arte oratória, trazia o manuscrito de um discurso deste sobre amor, dirigia-se em passeio para fora das muralhas. Encontra Sócrates, e os dois sentam-se sob um plátano copado, junto do Ilissos, a conversar sobre a retórica, ou melhor, a genuína are de falar, que se deve basear na filosofia."

Assim se introduz Fedro, de Platão, num exemplar das edições 70, colecção "clássicos gregos e latinos".

Este texto exemplifica com esmero a dimensão dos filósofos atenienses da época. Só o grande e elevado desprendimento das coisas do corpo permitiam a Sócrates e Fedro conversar sobre oratória debaixo de um plátano.

2 comentários:

Anónimo disse...

Um belo post, Cláudio! Um belo post!

Um abraço,
Pedro Farinha

Furão disse...

Eu diria que nada aconteceu por acaso. Se não, vejamos:
Sócrates utilizava a sua ironia debaixo do plátano, isto é, partia de um conceito, como por exemplo: "nos plátanos há muitos pardais a cagar" para, através de inúmeras questões em torno deste conceito demonstrar que este teria enormes imprecisões(nessa altura ainda não poderia ser utilizado o método experimental com viaturas estacionadas). Após reconhecidas as grandes limitações do conceito, Sócrates, através da sua maiêutica, multiplicava as questões até à obtenção de uma definição mais completa do objecto em estudo. Nestas questões, tudo era perguntado, desde a escolha de um plátano em vez de um carvalho no que repeita a pardais, a própria existência de pardais em vez de chapins, verdilhões ou pintassilgos, as horas das refeições, o diâmetro das cloacas, a voluntariedade ou involuntariedade no acto da expulsão de dejectos, etc etc... Só mesmo quando reparou que tanto ele como Fedro tinham as vestes salpicadas do tão fertilizante guano, terá tomado conscxiência das limitações do seu próprio saber e terá dito: "Eu só sei que nada sei! Anda daí, Fedro, senão vamos ficar cheios de merda"