terça-feira, novembro 08, 2005

A Ponte de Granada

Morreram 6 operários nas obras de construção de uma ponte para a autoestrada do Mediterrâneo, em Granada. Este tipo de acidente é indesculpável. A direcção técnica do obra, a fiscalização, o dono de obra, o projectista da estrutura, o projectista do sistema de cimbre, todos, ou quase todos, têm de falhar para que colapse a estrutura de suporte construtivo de uma ponte desta dimensão.

O sistema utilizado, com recurso a uma viga metálica apoiada nos pilares, onde corre uma cofragem deslizante, é bastante complexo e exige um controlo rigoroso de todas as ligações metálicas aparafusadas e soldadas na viga, bem como uma verificação milimétrica do posicionamento das cargas, de forma a poder determinar os esforços actuantes na ligação entre a estrutura do cimbre e o pilar.

Sobre um modelo de cálculo correcto, bastará uma verificação topográfica adequada e um controlo de qualidade apertado aos equipamentos de cimbre (viga e carro) para que as coisas corram bem. Neste caso, o colapso deu-se no apoio da viga metálica sobre o pilar podendo-se questionar de imediato a suficiência das ligações entre a fase já consolidada do tabuleiro e a zona de arranque, bem como o estado das ligações aparafusadas do sistema de asnas que constitui a viga de suporte da cofragem.

Essas ligações aparafusadas são efectuadas com parafusos de aperto controlado com chave dinamométrica que só podem ser utilizados uma vez. Uma das prováveis causas do acidente será a eventual reutilização das asnas que poderiam estar dimensionadas para outro vão, ou a indevida utilização de parafusos já esforçados. Não seriam razões económicas a provocar este tipo de falha, seguramente o custo dos parafusos não pesará nesta empreitada, mas sim a eventual preocupação com prazos a causar algum desleixo neste importantíssimo ponto.

As asnas tinham sido inspeccionadas 3 meses antes do acidente, dizem os jornais. Isso pouco ou nada importa para este caso. Nessas inspecções é provavelmente verificado o estado de cada módulo com especial ênfase dado à corrosão das peças que compõem a estrutura e a eventuais cortes na mesma. A menos que as asnas estivessem quase apodrecidas ou com cortes evidentes, é improvável que seja essa a causa do colapso. Essas estruturas não colapsam na globalidade por ruptura de um dos seus elementos, mal seria de todos se um parafuso partido ou um perfil metálico podre deitasse abaixo o cimbre de uma ponte.

Se foi o modelo de cálculo que falhou, tudo é muito mais estranho. A validação técnica dos modelos é hoje bastante eficaz, com recurso a software apropriado, e, normalmente, este tipo de trabalho é executado por um gabinete de projecto tecnicamente sólido com engenheiros recrutados nas melhores universidades e com formação contínua: mestrados, pós-graduações, doutoramentos, etc. É a vertente mais académica da engenharia civil "práctica". Será, portanto, pouco provável que se trate de uma conta mal feita.

Por Espanha debate-se agora o problema da subcontratação como eventual causa de sinistralidade: é falso. A subcontratação resume-se à execução dos trabalhos e à sua coordenação localizada, e nunca à direcção da obra ou à elaboração dos projectos. Mesmo as normas de segurança devem ser implementadas pelo dono de obra, fiscalização e empreiteiro, cabendo a essas entidades assegurar o seu cumprimento. Não é o operário ou um conjunto de operários (que no fundo é o que significa subcontratação) que planeia o cimbre ou dá as ordens para o avanço da cofragem deslizante. Se o subcontratado falha, é porque toda a cadeia hierárquica falhou já. É porque não está lá ninguém, nem fiscal, nem director de obra, ou se está, falhou. Não foi o Manuel nem o Joaquim. Atribuir as responsabilidades do acidente aos subcontratados é uma falácia xenófoba e que só engana quem não conhece os meandros da construção em obras públicas, que, no fundo, é a larga maioria da população. Em suma, arranja-se um bode espiatório para as massas.

Além disso, não são os tradicionais problemas de segurança que estão por trás deste acidente. Não se trata de falta de guarda-corpos, ou de linhas de vida, ou de equipamento de protecção individual: Nenhum destes equipamentos de protecção valeu às vítimas deste aziago acidente. Neste caso, foi o colapso da estrutura metálica de suporte que causou a tragédia e este é um problema de engenharia e não de segurança e higiene no trabalho. Os protestos dos sindicatos espanhóis sobre a falta de condições de segurança nas obras podem ser muito pertinentes mas não se aplicam neste caso.

Agora pararam todas as obras naquele tramo de autoestrada: Uma medida histérica sem nexo algum que parece questionar de uma assentada toda a engenharia. Uma coisa é certa: Para cair uma estrutura daquele tipo falharam demasiadas coisas. E não é essa a regra, por muito iluminadas que sejam agora todas as almas aflitas. Não há magias nem misticismos, nem sortes nem azares e não se vai agora descobrir que afinal todas as pontes estão a cair.


Acidente em Granada.

5 comentários:

Furão disse...

Li e reli este texto, porque tive sempre o bom hábito de respeitar quem sabe muito mais do que eu de determinados assuntos. Neste caso específico nem ouso questionar a milésima parte. Porém, fiquei um bocadinho frustrado ao perceber que ainda não seria com este post que eu iria perceber as causas da tragédia. Se não, vejamos:

“o colapso deu-se no apoio da viga metálica sobre o pilar podendo-se questionar de imediato a suficiência das ligações entre a fase já consolidada do tabuleiro e a zona de arranque, bem como o estado das ligações aparafusadas do sistema de asnas que constitui a viga de suporte da cofragem”.
...
“Uma das prováveis causas do acidente será a eventual reutilização das asnas que poderiam estar dimensionadas para outro vão, ou a indevida utilização de parafusos já esforçados”.

(aqui pensei que estava descoberta a origem do problema)

“A menos que as asnas estivessem quase apodrecidas ou com cortes evidentes, é improvável que seja essa a causa do colapso”.

(aqui voltei à estaca zero)

“Se foi o modelo de cálculo que falhou, tudo é muito mais estranho. A validação técnica dos modelos é hoje bastante eficaz, com recurso a software apropriado, e, normalmente, este tipo de trabalho é executado por um gabinete de projecto tecnicamente sólido com engenheiros recrutados nas melhores universidades e com formação contínua: mestrados, pós-graduações, doutoramentos, etc. É a vertente mais académica da engenharia civil "práctica". Será, portanto, pouco provável que se trate de uma conta mal feita.”

(portanto, já coloquei de lado também esta hipótese)

“Por Espanha debate-se agora o problema da subcontratação como eventual causa de sinistralidade: é falso”.

(também a coloquei de lado, após a explicação que sustentou esta frase)

“Neste caso, foi o colapso da estrutura metálica de suporte que causou a tragédia e este é um problema de engenharia e não de segurança e higiene no trabalho”.

(ok, volta então a ser um problema de engenharia, ai, em que ficamos?)

Eis que de repente, voltando atrás pela enésima vez no texto, reparei que não era preciso explicar tanto, já estava tudo no primeiro parágrafo:

“A direcção técnica do obra, a fiscalização, o dono de obra, o projectista da estrutura, o projectista do sistema de cimbre, todos, ou quase todos, têm de falhar para que colapse a estrutura de suporte construtivo de uma ponte desta dimensão”.

Falharam então TODOS. Julgava que não, mas afinal fiquei esclarecido. De qualquer forma, obrigado pela explicação, acabou por ser útil (eu nem sabia da existência de asnas, apenas dos “maridos” que por aí pululam à nossa volta).

Considera isto como uma crítica construtiva de quem tem por ti e pelas tuas obras um enorme respeito.

Um abraço

Cláudio disse...

Neste caso, a questão fundamental é essa: muita coisa falhou para que se desse o colapso. No entanto esclareço um pormenor: as asnas são estruturas metálicas modulares qie se ligam entre si através de uniões aparafusadas. Há que distinguir as peças em si das ligações entre elas.

socrates1001 disse...

JÁ ALGUMA VEZ EXPERIMENTASTE PROJECTAR UM CIMBRE?
Se tivesses tentado provavelmente tiravas este post do teu blog... Falar é fácil! E é a falar que se vê quem sabe e quem não sabe: tu não sabes. Eu sei pouco, mas chega-me para saber que não sabes.
Obrigado

Cláudio disse...

O que entenderá o amigo socrates por projectar um cimbre? Terá o amigo socrates agora começado e busca pela net, desesperadamente, quem lhe ensine? Estará num gabinete de projecto com o rabinho apertado e cheio de medo para calcular 3 torres BB50 e um par de asnas para segurar meia PS? Ou na Peri ou Ulma ou quejandas usando as tabelas? Aprenda menino. E tenha juízo e respeito.

socrates1001 disse...

Não é dizendo meia dúzia de termos técnicos ou da gíria da construção que se mostra alguma autoridade ou sabedoria. Você não sabe com quem fala... E mostrou no seu post não saber suficiente do assunto para falar com tal autoridade; da minha parte, não sei o que disse que possa justificar as suas deduções acerca de onde trabalho, o que procuro ou o que sei.

Respeito quer-se mútuo!