sábado, janeiro 29, 2005

A Palavra "Blogue"

Por muitos lados se ouve a pergunta: será correcto grafar "blogue" quando se escreve em português? E questionam-se as gentes muito bem! Benditas sejam as gentes que se questionam! A resposta a esta pergunta, que, humildemente, quer o "blogue" Meia Livraria dar, é afirmativa, ou seja: escreva-se blogue e bloguista e blogosfera!

Atente-se na origem do termo "blog". Existe alguma análise linguística a fazer a semelhante expressão? Tem pés? Terá cabeça? Não. E porque quereremos nós dar pés e cabeças a conceitos importados assim mesmo, etimológicamente decapitados e linguisticamente pernetas?

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Casas Cheias

Ontem, Santana Lopes desmascarou uma "megafraude" contra ele urdida! Os das sondagens, todos eles (!), uniram-se para destabilizar Santana! Os malandros! E como prova o inefável Primeiro-Ministro tão grave acusação? É inacreditavelmente simples! Basta uma trivial contagem: Ele, Santana, enche, com os seus jantares e comícios, casas com cerca de dois milhares de pessoas. O outro, o Sócrates, dá apenas um jantar-comício semanal, e, às vezes, nem ao meio milhar chega! Ora, dois mil a dividir por quinhentos dá quatro; sete a dividir por um dá sete; sete vezes quatro são vinte oito: é simples, o PSD tem vinte e oito vezes mais apoiantes que o PS. Por cada voto em Sócrates, lá estarão nas urnas, devidamente preenchidos, vinte e oito no Inefável!

É no génio, na argúcia, na profunda inteligência e pelo claro raciocínio, que se distingue o grande Estadista e o magnífico Homem! Aquilo que, antes de ser tocado pelos tentáculos da sua inteligência, a todos parecia longínquo, parece agora, depois de descoberto e revelado pelo grande cérebro de Santana, próximo. Quase fácil! Assim são os homens como Santana e assim é a sua mágica inteligência!

terça-feira, janeiro 25, 2005

A "Precária"

Deu-me a RTP a notícia, esta manhã: Um triplo homicida saiu de Vale de Judeus em "precária". Foi a casa e não quis voltar. Escondeu-se, aterrorizou toda a gente na sua aldeia natal, ainda esfaqueou um cidadão que o tentou acalmar, enfim, uma "precária" como as outras. Lá foi apanhado, com a colaboração da população. Será, logo mais, presente ao tribunal de Leiria. Voltará para a cadeia de onde sairá, não tardará muito, 12 anos antes de cumprir a totalidade da pena, por bom comportamento. Matará mais 2 ou 3 pessoas e voltará mais 4 anos à prisão. Saindo todos os fins de semana em "precária" para esfaquear, violar, aterrorizar e matar.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Torga e Outros Esquecimentos

Ocupado com o meu conto natalício, deixei passar os dez anos do desaparecimento de Torga. Esqueci também o centenário da morte do Rafael do Zé Povinho e do seu inseparável manguito. Se da beleza granítica e serrana da dura prosa de Torga nunca nos livraremos, assim se continue a falar português, e ainda bem, já dos manguitos e das tristemente perenes qualidades das nossas gentes e políticos, que tão bem representou Rafael Bordalo Pinheiro, ainda mal.

A minha compreensão e leitura da obra de Torga aumenta a cada dia que passo nas inóspitas terras da alta beira, severamente interior. Sem Torga não veria os contrabandistas do Soito e de Quadrazais, não veria o guarda fiscal escondido, nem o miserável ceando com bonecos de pau numa igreja em Nave de Haver, ou em Vila Boa, ou no Rendo. Seriam apenas negras as figuras que, ao lado de burros e de carroças, transformam em jogos de azar qualquer viagem automobilística no lusco-fusco das esquecidas estradas nacionais do interior. Não são só negras, nem só trágicas, nem só o que quer que seja, são o que delas fez Torga nos seus contos e nas nossas almas. E quando um Escritor nos faz ver para lá do que pode ser visto, quando dá cor, ainda que plúmbea, ao que antes era invisível, então passamos a distinguir o negro das vestes das gentes do negro das noites. E até do vazio das nossas almas. E, já me esquecia, sem Torga estaria perfeitamente indefeso ante o Alma Grande.


A Granítica Face de Miguel Torga

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Um Conto de Natal (8)

Os poucos operários que tentavam laborar, a maior parte estava empoleirada junto às janelas da fábrica, apanharam o susto das suas vidas. Divinamente seguros, não obstante, nada lhes sucedeu, nem ataques cardíacos nem embranquecimento capilar, assustaram-se e é tudo. Não será coisa para ver duas vezes, rebentarem-se com raios eléctricos matrizes e moldes, derreterem-se assim tantos bonecos de São Cristóvão e só dele, era coisa, já se disse, para não mais se ver!

Algo de mais estranho viria ainda a suceder, menos perceptível mas mais abrangente, mais global: em todos os automóveis, onde antes figurava protector o São Cristóvão, estava agora uma pequena mas bonita imagem de uma Crucificação, com pouco mais que um polegar de altura, brilhante e dourado, muitos dos automobilistas, ainda ao volante e espantados pela mágica transformação, reconheceram o novo boneco: Era um pormenor da obra de Agnolo Gaddi. Uma vez mais, e graças à divina protecção, ninguém se despistou, nenhum acidente se registou. Não seria a trannsformação das chapas que causaria dissabores às pessoas. Jesus pensou com cuidado todos estes pormenores.

Atónitos, os que se manifestavam em frente à fábrica viram girar, sem que nada o fizesse prever, a Roda de Santa Catarina, girou e continuou a girar, cada vez mais rápido, até que se descolou da carrinha que lhe servia de andor e, com grande silvo e maior brilho, disparou em direcção aos céus, sempre em rotação. Nenhuma das lâminas se soltou, mostrando o que no parágrafo anterior se disse sobre a cuidadosa preparação de tudo isto.

Ao longe, na autoestrada, poucos minutos depois, ouve-se um chiar de pneus. Cheira-se a borracha queimada e, acto contínuo, um estrondo metálico. Disparam os "airbags" e o carro atravessa toda a faixa para embater, já quase parado, no separador de betão. Ninguém se aleijou e a reparação não seria muito complicada. Menos mal. Pior estava o tipo que se tinha estampado na faixa contrária, pensou o condutor.

A manifestação desmobilizou-se muito rapidamente. Todos estavam assustados e Silveira, pelo megafone, gritara: "Voltemos para os nossos postos de trabalho e empresas! Voltemos para as nossas casas ordeiramente!" e todos foram. Alfredo foi dos últimos. Despediu-se dos mais chegados, encontrada que estava Lucinda, rumaram ambos a casa. Depois de almoço, Alfredo foi para a sua oficina e pouco tardou para que lhe aparecesse um cliente à porta, "Tenho aqui uma amolgadela no guarda-lamas...". Alfredo sorriu e, mesmo precisando como precisava de dinheiro, respondeu: "Eu vejo isso homem. E até lhe vou fazer um desconto de Natal!".

A ruidosa "Playstation" deliciava o catraio enquanto a rapariga enviava furiosamente SMS do seu telemóvel. Na sala, Alfredo comentava com Lucinda a triste notícia: Silveira havia morrido ontem, véspera de Natal, a caminho de casa, no seu automóvel. "Ele há coisas do Diabo!", disse Alfredo enquanto enchia o seu terceiro copo de vinho.

(Fim)

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Um Conto de Natal (7)

Santo Honório pouco tinha que ver com a história, mas agradava-lhe Lucinda. Agradava-lhe, isto é, Honório era Santo e ser Santo dá seguramente à gente que o é outro gostar, não aquele gostar rude, dos biltres, animalesco e primário, pelo contrário, era o gostar sagrado e sublime, singelo e belo. Era assim que Santo Honório gostava de Lucinda e era por essas que Honório era Santo e por outras que era Padeiro.

Santa Catarina, sensibilizada, falou com aquele a quem chamam Cristo. E expôs-lhe o problema antes de tomar alguma medida. Quando se tratava de pequenos milagres, de menores prodígios, Santa Catarina resolvia os assuntos sózinha, avaliava o problema, a fé de quem pedia, e por fim decidia. Mas este caso era diferente, envolvia outro Santo, que lhe era antagónico, neste caso Cristóvão, e havia que pedir moderação superior. E isto dito falava já a Santa com o mais Divino.

Chamado inesperadamente, São Cristóvão estava visivelmente aborrecido com a situação. Vendo-o assim, de ar obstipado, entupido, irado e rubicundo, Jesus mudou o fiel da sua balança para o lado da sensata Catarina. Ainda por cima, Cristóvão apresentara-se "à bizantina", ou seja, com a cabeça de cão, o que lhe conferia ar um ar bizarro e até atoleimado. Cristóvão causava irritação no Mestre, que a não escondeu: "Olha lá, sabes quantos faço no próximo fim de semana?" perguntou Jesus. "São muitos, meu rapaz! Quando me carregaste às costas tinha eu já muitos séculos!" concluíu. São Cristóvão assustou-se momentâneamente para logo recuperar o fôlego e a audácia: "As minhas competências são conhecidas, só faço o meu dever!". Santa Catarina mantinha-se calada. Jesus não sabia o que fazer.

"Que queres tu, Honório?" pergunto o Mestre, "Não vês que estou ocupado?". Santo Honório respondeu: "Bem vejo, mas é o assunto que Te ocupa que me traz!" E falou-lhe de Lucinda e de Alfredo e de Lucinda novamente. E Jesus ficou contente. Tinha agora dois santos de um lado e aproveitaria para castigar a audácia de Cristóvão. Mandou-os a todos retirar dizendo: "Saiam! Aborrecem-me já em demasia. Vou resolver já o problema!"

Em frente da fábrica acotovelavam-se já mecânicos com jornalistas e com ociosos. Vinham bate-chapas de todo o distrito, a polícia perdia o controlo da situação. Lucinda, já de farnel pronto, mal conseguira chegar perto da Roda, tal era a azáfama. Mas chegou e disse a Alfredo: "Come estas azevias, precisas de te alimentar!" Alfredo nem chegou a responder. De repente, e sem nada o prever, estava o dia limpo, já aqui se disse, um forte trovão ecoou nos céus! E sem mais aviso furou pela cobertura da fábrica um fino mas potentíssimo raio eléctrico, visivelmente divino. Novo estrondo se ouviu, alguns berraram, outros ficaram calados, mas mais nada se passou. Os céus silenciaram-se.

(Continua)

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Aniversário

Interrompo o Conto de Natal para anunciar que o Meia Livraria faz hoje um ano de existência. E para manter a firme ameaça de continuar a escrever com frequência, contribuindo assim para o aumento quantitativo do espaço virtual ocupado pela blogosfera. Ah pois é! E se não cantam vocês, canto eu: "Parabéns a você..."

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Um Conto de Natal (6)

"Os mecânicos, os bate-chapas e os pintores de automóveis são indefesas vítimas da tenebrosa maquinação de São Cristóvão!" gritou Silveira para logo ouvir um coro de aprovadores assobios. A frase de ordem não tardou a surgir: "Cristóvão! Ladrão! Roubas-nos o pão! Cristóvão Ladrão! Roubas-nos o pão!" e durante breves minutos nada mais se ouviu naquele largo.

Silveira recobrou fôlego e gritou: "Parem de fabricar essas malditas chapas com o São Cristóvão, protector dos viajantes! Matam-nos à fome!" E era verdade. Desde a sua divulgação e produção em grandes números, e desde que em cada automóvel passara a figurar uma imagem de São Cristóvão, que o número de sinistros reduzira drasticamente. Já só o número insignificante de descrentes neste início do século XXI é que ainda tinha, ocasionalmente, algum acidente de automóvel. Era pouco. Todos os outros, tementes a Deus e adoradores de Santos, deixaram há bastante tempo de sofrer o mais ligeiro toque que fosse ao volante das suas viaturas, protegidas pelo Santo da Cabeça de Cão, pelo que carregou Cristo: São Cristóvão!

Lucinda olhava agora para o seu Santo Honório. Fixamente. E sem dizer pensou: "Ajuda o meu Alfredo na sua súplica, fala com Santa Catarina, põe-te do lado dela, põe-te do lado do meu Alfredo, ajuda-o, não queiras nada a São Cristóvão, ajuda a Santa supliciada na Roda, ajuda a padroeira dos mecânicos e dos bate-chapas, tu que nunca me deixaste queimar o óleo das azevias, tu que nunca me deixaste esquecer açúcar ou sal e que nunca permitiste que faltasse a fome a quem gosta de bolos, tu que sempre me ajudaste, ajuda agora Alfredo..." e continuava na sua mental ladaínha enquanto Santo Honório, lá no alto onde estão os santos e Jesus e os anjos e todos os eleitos por Deus, lá nesse alto Honório ouviu Lucinda e, apesar de ser Santo bem disposto, são-no sempre os padeiros e boleiros, ficou pensativo.

Santa Catarina de Alexandria, atraída pela Roda que a invocava, ouviu Silveira e Alfredo, ouviu Barnabé e a todos os outros e comoveu-se com o sofrimento dos seus, como sempre acontece a gente de grande sabedoria e inteligência. E podiam vir cinquenta sábios, os mais capazes do reino que agora era República, que nada poderiam contra o sereno saber da sua fé. Mas não vieram. Vieram apenas os bate-chapas, os mecânicos e os pintores, esquecendo de propósito os curiosos, desocupados e bisbilhoteiros, porque a esses não há santo que guarde e ainda bem.

(Continua)

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Um Conto de Natal (5)

A manhã estava fria, mas o céu estava limpo. Não choveria. Animados e esperançosos, os mecânicos, pintores e bate-chapas avançaram, ladeando uma carrinha de caixa aberta onde se encontrava, bem atirantada, a Roda. Posicionada ao alto, com mais de dois metros de diâmetro, a Roda era de facto impressionante. Feita de aço, seria o sonho de qualquer inquisidor do século XVIII. Era uma Roda de tortura, com lâminas cortantes, que pretendia ser igual à que supliciara Santa Catarina de Alexandria no final do século III.

A estranha procissão, que já levava mais de quarenta homens entretanto granjeados para a luta, causava espanto a todos quantos a vissem, levando esse assombro a um engrossamento do magote com o costumeiro bando de curiosos. E assim marchando e engrossando, chegou a pequena multidão a um pequeno largo, mesmo à entrada da fábrica "Velas e Santos".

Lucinda não quisera ir com eles logo de manhã. Fritaria mais algumas azevias e, talvez pela hora de almoço lá aparecesse, logo se veria. Tinha medo de que algo pudesse acontecer, alguma carga policial, já se sabe, estas coisas são sempre tão perigosas, não pode uma pessoa pedir o que é dela que logo é atacada e silenciada. Valia agora a Lucinda um pequeno Santo Honório que comprara, com as três hóstias na sua pá, padroeiro de padeiros e boleiros mas, mal suspeitava ela, fabricado na fábrica "Velas e Santos"! Precisamente o local onde Alfredo ajudava agora, com mil cuidados, a descarregar a Roda de Santa Catarina de Alexandria. Feita com as suas mãos e com as dos seus colegas de ofício.

Faltavam apenas cinco dias para o Natal mas o ambiente junto à fábrica não o fazia lembrar! Com megafone na mão, Silveira saltou para cima da carrinha; panos com dizeres pintados foram estendidos pelo chão; cabeças espantadas assomaram-se às exíguas janelas da fábrica, intrigadas com o aparato; à cautela, a polícia foi chamada por um dos responsáveis da "Velas e Santos"; ao fundo, ainda não se via bem, parecia vir uma pequena barraca móvel de venda de bifanas e cervejas; e no alto, Santa Catarina de Alexandria olhava intrigada pensando: "Que quererão estes meus afilhados?".

(Continua)

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Um Conto de Natal (4)

Na manhã do dia seguinte o grupo encontrou-se na oficina da firma "Mabé". Os da casa chegaram naturalmente primeiro. Logo chegou Alfredo e pouco depois Silveira, que trazia consigo três novos elementos para o combate que agora se desenhava. E foi um desses homens, recrutados por Silveira, o Lopes, que de imediato se apresentou dizendo: "Sou o Lopes e sei como vamos resolver o problema. Nada de violências nem de sabotagens. Combater-se-á o fogo com mais fogo". E porque sempre que se termina uma frase com gotas de sabedoria popular todos acatam o que nela se disse, e porque desta vez não foi excepção, os presentes acomodaram-se o melhor que puderam e prepararam-se para ouvir o que Lopes tinha para dizer.

Não havia água que lavasse tanto unto, de tanto frito, e Lucinda afadigava-se em vão para me desmentir. Mas nada feito. Resignada, saiu de casa mesmo assim, buscando mais óleo e mais farinha para um novo dia de trabalho. Arreliada com o unto e preocupada com o Alfredo fez-se à mercearia, esquecida até do avental que exibiu pelas ruas.

Todos concordaram com Lopes. Silveira, tomando a liderança, afirmou "Comecemos de imediato a construir a Roda!" Apoiado na imagem da Roda que Lopes trouxera, Barnabé, homem habilidoso para o desenho, esboçou o projecto, todos contribuiram, todos participaram e, pela hora de almoço, todas as tarefas necessárias estavam distribuídas.

Tudo estava a postos para que, na penúltima segunda-feira do ano, pela manhã, se levasse a Roda já pronta para a entrada da fábrica. Nada poderia falhar, e nada falharia. Ainda que restasse menos de uma semana para concluir o trabalho. A sua determinação seria bastante.