quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Distâncias

Numa localidade escondida na Malcata, Vila Boa, vive um casal de idosos vizinho de um senhor que está emigrado em França. Por coisas de tubos a atrevessar terrenos, e por árvores a cortar, buracos a fazer, enfim, por coisas dessas se falou com o casal e só ela, a senhora, é que falava, estridente e sonora. O marido falava baixo e engolido, nada saía, tudo era abafado pelas notas agudas e quase monossilábicas debitadas pela dona da casa. E resumia-se o que dizia a senhora assim, Se o vizinho não deixa passar o tubo no terreno dele, eu também não deixo que passe no meu, E se, por acaso, ele vier a deixar, tendes autorização para passar por aqui. O marido disse que sim porque percebeu que era altura de dizer que sim.

Baseava a sua decisão num facto que a poucos ocorreria,´é que o vizinho, o tal que está na França, apesar de não ser de cá, é de Pouca Farinha, é boa pessoa. Pois claro. Está tudo explicado.

Para que o leitor compreenda a dimensão do que se disse, importa esclarecer: Pouca Farinha é uma localidade igualmente escondida na Malcata e da casa deste casal de idosos até à placa onde se lê "Pouca Farinha", distam, bem medidos, seiscentos metros.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Página Negra

Uma das mais negras páginas da História de Portugal foi ontem virada. Ao que tudo indica, será pouco provável que essa página se volte a levantar, qualquer que seja o vento ou maré, porque Santana, é dele que falo, foi escarrado pelo povo português. Não foi corrido, nem cuspido, nem afastado. Santana foi escarrado. E conto com a gosma lusitana para que a mais negra página da nação se não volte a descolar.

domingo, fevereiro 20, 2005

Votos

No Soito guardaram-se os domingueiros, mas em Unhais sairam calças brancas e botas castanhas, casacos azuis com quadrados verdes, bem grossos e luzidíos! Na missa, no Sernancelho de Broternazes, perto de Roque da Pedra Grande, grasnou o padre esta manhã: Votaide aqui que são esses que estimam o que é de Deus e o que é dos homens, e que dizem fazendo-o que não deixarão que deixem as coisas de ser como Deus as deixou. Amén.

domingo, fevereiro 13, 2005

A Sobrinha do Lobo Antunes

Era uma vez uma menina, filha de um famoso cirurgião e sobrinha de um ainda mais notável escritor, também ele médico, que foi estudar artes de representação para a cidade de Londres. Já adivinhou o leitor, essa menina era filha do Lobo Antunes cirurgião e sobrinha do outro Lobo Antunes, o afamado escritor. Nunca os consegui distinguir.

Sendo sobrinha do homem que melhor escreve sobre Benfica, sobre a Estrada da Luz, sobre o SL Benfica, sobre as mercearias de Benfica e da Estrada da Luz, sobre a Angola da guerra e sobre as tascas de Benfica, poder-se-ia esperar o melhor dessa criança! E se estudou no estrangeiro, artes de palco, e ainda por cima em Londres... Upa, upa! E não se desengana quem assim pensa!

Acontece que a jovem e talentosa actriz rumou um destes dias para o Brasil para filmar aquelas coisas que se filmam no Brasil. Na bagagem levava, mostrou-o orgulhosa às camaras da televisão, para além do CD de Norah Jones, um livro! E que livro, questiona-se o leitor, sabedor já do bom gosto que tem a menina para a música? Não menos que um dos romances do igualmente talentoso Paulo Coelho! E, feliz, o leitor concluía já, a cachopa sai mesmo ao tio, tem uma insuperável cultura e grande amplitude de horizontes. Pois não descanse já, meu amigo ou amiga, deixe-me que lhe diga que o exemplar dessa bela literatura de Coelho que a catraia levou consigo no avião era uma tradução da obra, certamente prima, do génio brasileiro para o inglês! Mostra-se assim a sobrinha do génio: além de evidentemente culta, a moça revela, acanhada como convém, os seus fabulosos dotes de poliglota! Convenço-me, e isto invento eu, que terá lido o magnífico romance do tio, Manual dos Inquisidores, em francês! Ainda que não o soubesse, adivinharia, é mesmo sobrinha de quem é!

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Kinder é Bueno

Os anúncios televisisivos que publicitam detergentes são, é ideia amplamente divulgada e aceite, os mais imbecis e acéfalos de todos os comerciais que ocupam os écrans. Ora, semelhante ideia não passa de uma simplificação injusta. Esquecer clássicos como o "Kinder é bueno e bueno é bom!... Topas!?" é uma absoluta grosseria. E quando hoje vi novo anúncio a esses chocolates, fantásticamente cretino e inigualavelmente foleiro ocorreu-me estar perante o trabalho de um génio do Mal. Qual será o seu público alvo? Quem se deixará cativar por tamanha estupidez?

Ocorreu-me ainda: será este homem, o do Kinder, o responsável pela campanha eleitoral do PSD? Será ele o da ideia genial de colar os cartazes do PSD sobre os das outras forças políticas? Ou de lançar boatos e ataques pessoais de péssimo gosto e de baixíssima categoria aos adversários políticos? Creio que não! Será alguém menos talentoso, seguramente, mas ainda mais vil, mais grotesco, mais monstruoso. Topas?

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Modernidade

Sentado num banco aquecido, feito de uma liga metalo-polimérica, perfeitamente inodora e ergonómica, observava a sintética paisagem através de uma película de fibra muitíssimo resistente, quer a impactos mecânicos, quer à temperatura e som, mas que, apesar da sua extraordinária capacidade de isolamento, permitia ao viajante a sensação de nada estar entre ele e o exterior. Assim eram agora os comboios. No ar, por cima da carruagem, passara segundos antes um formidável avião movido a uma forma totalmente nova de energia, não poluente, barata e eficaz.

Carregou num botão à sua esquerda e instantaneamente se transformou a película que o separava da paisagem num estonteante écran multicolor sensível ao toque, onde podia, interactivamente, aceder à Grande Rede Universal e a qualquer emissão de televisão ou rádio. O som respectivo era canalizado em exclusivo para o seu aparelho auditivo.

A viagem era longa. Entre Figueira de Castelo Rodrigo e Lisboa demorava o comboio cerca de uma hora no percurso. Era assim a sua rotina diária: levantava-se às sete para pegar às nove. Sempre foi duro viver nos subúrbios. Ao longe via já a Nova Gare Oriente, já preparada para aero-táxis e com ligações aos tubos acrílicos onde circulavam os autocarros automáticos.

Saíu do comboio, apanhou um autocarro e rumou até à central distribuidora. Lá chegado, olhou para a porta metálica, que o reconheceu lendo-lhe, como a um livro ou a um cartão, a retina. Deu-lhe os bons dias, a porta, e franqueou-se, permitindo-lhe a entrada. Já lá dentro rumou à sua secção onde um colega lhe entregou uma larga saca de couro, já parcialmente esgarçada, que pesava, estava cheia, mais de cinco quilogramas. Gracejou com o colega sobre a derrota do Benfica no anterior domingo, pôs a sacola ao ombro e saíu do edifício em direcção ao parque áutomóvel.

Abriu a porta da sua carrinha eléctrica, que o cumprimentou, sentou-se no banco esquerdo, jogou o saco para o banco direito e partiu. Já à porta da primeira casa, fintou o cão, atirou como podia três cartas e um pequeno embrulho, saltou para a carrinha aliviado por não ter sido mordido e continuou a distribuição. Só às quatro da tarde estaria despachado. A vida de carteiro sempre fora dura.