segunda-feira, março 28, 2005

Togo (3)

Nem só o checo se enfadava naquela obra. Com a pele gretada como um hipopótamo, um dos indígenas por pouco não se descarnava em vã tentativa de aliviar a comichão que o assolava como vendaval em oceano que não tem por onde fugir. Arroz ao almoço, arroz ao jantar, duas sacas de milho ao fim de semana, sabemos nós que´é fim de semana, ele não conhece esse conceito, o de semana, mas sabe que não lhe chega o cereal para tanta lama. Além disso, estava no Chade, longe do seu Togo natal, e, ainda que tivesse com ele a mulher e quatro dos seus presumíveis filhos, fazia-lhe falta a sua aldeia com a sua tasca de palma e grades de cerveja de plástico. Sentia saudades do cheiro da tinta queimada e do colorido das chapas de platex, mordia-se de desejo de ouvir o crepitar da telha de zinco na igreja da sua aldeia. Queria banhar-se no ribeiro que sempre soubera cinzento e especial, apesar de não fazer ideia do que seja mercúrio.

Adivinhamos nós, muito lhe agradaria sentar-se numa tina desse denso líquido, ver pedaços de aço flutuar no bidon de reserva de mercúrio dos manómetros da barragem que, há muito desactivada, ainda condenava os peixes do ribeiro da sua aldeia a uma vida nova. Curta, mas nova. O progresso chegara ao Togo. Os parafusos de brilhante inox que guardava como um tesouro atestavam essa boa nova. E como brilhavam, esses parafusos! Peças mágicas que utilizara já em tempos numa velha bomba submersível a gasolina com mistura que estivera a seu cargo nos tempos coloniais. Assim que despedido do serviço, retirou os cintilantes parafusos e trazía-os sempre consigo. Nunca se sabia quando lhe fariam falta. Da expedição que viera com o checo, era ele o único a possuír tão esdrúxulo valor.

domingo, março 27, 2005

Togo (2)

Inchado, com a tez de um camarão cozido, o capataz, um rubicundo checo carregado de pústulas e de careca luzidía, olhava enfadado para a azáfama em redor do buraco. O calor era tanto que o checo tentava respirar mantendo o imenso abdómen estável, para que não descolassem as costas dele das da cadeira de palha onde se sentava. Era doloroso aquele processo de colar e descolar. Sempre estavam mais frescas as costas inundadas de suor quando solidárias com a cadeira. Não havia dinheiro que chegasse para pagar esta aventura, pensava muitas vezes o checo. E sempre que isso lhe ocorria, chamava um dos seus rapazes e gritava-lhe no dialecto local, Traz-me um gin tónico, meu rapaz! Dissessem o que dissessem, o paludismo ria-se à grande do gin tónico, mas não eram esses efeitos terapêuticos que buscava o europeu. Eram os outros.

(Continua)

quarta-feira, março 23, 2005

Togo (1)

Com pás e picaretas, carros de mão e largos cestos de vime, arrastaram para longe a terra e o lodo que retiraram do buraco. Eram dezenas de trabalhadores para tão pequena obra. A braço, descarregaram sacas de mágicos polímeros que depositaram na cova tão a custo aberta, agora cheia de água. Para a encherem, rolaram barris, cheios de água do rio com o auxílio de um balde, rolaram mais barris, agora meios de água do rio, e acabaram de encher a cova a balde. Não podiam os braços com mais. A estranha reacção que faziam os polímeros na água maravilhava os homens e as mulheres do Togo. Com grandes pás, calçando barbatanas e valendo-se dos intrumentos que improvisavam, esforçavam-se por manter a mistura agitada, garante de sucesso posterior. Se a lama não ficasse bem mexida, de nada serviria. Ainda que fossem iletrados, os do Togo sabiam muitas coisas e esta era só mais uma.

(Continua)

sábado, março 19, 2005

A Fidalguia

Sou pouco dado a realezas e linhagens. Excepção feita aos evidentes "Rei dos Frangos", "Marquês dos Leitões" e "Rei dos Atoalhados de Campo de Ourique", pouca importância dou ao sangue azul. Sou, salvando os casos atrás expostos, perfeitamente republicano.

No entanto, ao assistir na passada quinta-feira ao jogo do Sporting, não pude deixar de admitir: Nos momentos especiais é a fidalguia quem decide. Por isso, obrigado Pedro Barbosa!

quarta-feira, março 16, 2005

Maus Hábitos

Desenvolvi nos últimos tempos um estranho procedimento. Aguardo pelos comentários ao meu último artigo andes de escrever um novo. É seguramente um mau hábito, mas que fazer?

sexta-feira, março 11, 2005

A Bancada Central

Numa destas sextas-feiras, atravessando o país na A23, chegadas as oito da noite, ouvidas as notícias na TSF, surgiu-me "A Bancada Central". Um senhor muito canastrão falava de forma muito canastrona e pediu a um outro senhor a que chamava "poeta" que declamasse. E foi então que ouvi alguns dos mais belos versos da minha vida: "A Balada do Vérilaite". Vieram-me as lágrimas aos olhos com algumas das rimas "nada fazia (...) praça da alegria (...) vérilaite levou(...) federação não pagou (...)". O esquema poético, simples na aparência, quadras de rima ora emparelhada, ora cruzada, suporta a temática do futebol (e não só, falava-se de Joaquim Agostinho ("O nosso Joaquim Agostinho (...) na subida ligeirinho (...)") e de Carlos Lopes: "O Lopes magrinho (...) na subida ligeirinho (...). Mas é o futebol a grande paixão deste poeta! "No relvado mole (...) jogava-se bom futebol (...)".

Foi um prazer muito grande,
Um enorme conforto espiritual,
Ouvir a bancada central,
Esperando por uma sande;

Ouvi ao conduzir o automóvel,
Mais companheiros de bancada,
O programa escutei imóvel,
Fiquei até com a alma inchada.

segunda-feira, março 07, 2005

Fios

Apesar de não usar, talvez por me julgar indigno, gosto muito de fios. Em especial daqueles grossos, mesmo de prata, mas pesados e que se vejam bem. Daqueles que se envergam com orgulho por cima da camisa de manga comprida com cavalos desenhados à frente mal escondidos por uma malha quadrada, de furo apertado, divindo o pano em quadrados multicolores. Por cima dessas camisas, cintilante, brilha sempre o bem amado fio de prata.

Realmente incomum é o uso de corta-unhas pendurado no tal fio. Conheci um tipo, numa taberna, que trazia tal ferramenta pendente, qual talismã ou Nossa Senhora de PVC. Siderado, perguntei-lhe: "Para que traz o meu amigo um corta-unhas ao pescoço?" Misterioso, sorveu o resto do copo de vinho e respondeu-me, com os pequenos olhos brilhantes de orgulho e de vinho: "Deu-mo a minha esposa! E trago-o sempre comigo. Não reparou, mas esta pecinha aqui é de marfim, ou melhor, é de um material ainda melhor que o marfim!"

Sorvi também eu o meu resto de vinho e, espantado mas revigorado perguntei: "Isso não deve dar jeito nenhum para cortar as unhas, assim nessa posição?" A resposta, pronta e inesperada veio de seguida: "Paradoxalmente, são as unhas das mãos que me dão mais trabalho. As dos pés, com alguma ginástica, cortam-se bem. Além disso, cortam-se com menor frequência!" Pedi outro copo de vinho e reflecti na resposta, rendido à sabedoria do Homem que Usava um Corta-Unhas ao Pescoço.

sexta-feira, março 04, 2005

Livro dos Saberes

"Se num lugar ermo, longe de tudo, vires sair de trás de uma moita um homem com um capacete amarelo e um colete reflector laranja, sabes que existe uma obra de infra-estruturas por perto."

(Do Livro dos Saberes)

quarta-feira, março 02, 2005

Curiosidades do Futebol (2)

Para Jorge Coroado, afamado árbitro e bronco de renome, a arbitragem do clássico do Dragão pautou-se por um conjunto de decisões "napoliónicas".

terça-feira, março 01, 2005

Curiosidades do Futebol

Já repararam que os golos do benfiquista Geovani são extraordinariamente parecidos com a cara do próprio Geovani? Tal homem, tal golo!