sábado, abril 30, 2005

Apitos Vermelhos

Ainda mal começou o processo "apito dourado" e já se assiste ao esboçar de outro, ainda maior e mais sinistro, quiçá mais porco e torcido: O "apito vermelho". Suspeito que, tal como no famoso caso do "apito salazarento", que durou 48 anos e que nunca chegou à barra dos tribunais, também este novo caso, autenticamente calabotiano, fique para sempre arquivado na sala de troféus da grande instituição que é o SL Benfica! Clube que se prepara para aumentar o seu vasto palmarés com mais um campeonato português ganho como tantos outros em tempos de outras senhoras. Mudam-se os tempos, mas os bigodes e as carapinhas benfiquistas não. São imortais.

Consultem aqui a cara do apito da vitória.

Conflitos em Timor

Os recentes acontecimentos no nosso amado Timor, com violentos confrontos, questionam a utilidade dos lenços brancos e velinhas que acendemos, por Portugal fora, em 1999. Se as bandeiras nacionais de 2004 sempre deram o título de vice-campeão europeu de futebol à pátria lusitana, os lencinhos brancos por Timor para nada serviram. Conflitos entre o governo e a igreja católica? Querem obrigatoriedade de aulas de religião e moral? Valha-lhes deus! Percebe-se agora porque razão os indonésios entregaram com tanta facilidade aquela região à sua sorte! Livra!

"Talvez se devesse ter auscultado mais a hierarquia católica" antes de se ter tornado facultativo, e já não obrigatório, o ensino de Religião e Moral, reconheceu já o ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, José Ramos-Horta, que em 1996 partilhou com Ximenes Belo o Prémio Nobel da Paz, pela acção de ambos contra a ocupação de Timor-Leste pela Indonésia."

Absolutamente sinistro.

quinta-feira, abril 28, 2005

Fortunas

Os seus olhinhos, muito juntos, examinavam cautelosamente o papel. Lia devagar, nunca tivera gosto pelos livros, sempre preferira o ar livre, as brincadeiras com os amigos, o jogo da calhoada, do "lá vai alho" e jogar à bola. Aborrecia-se quando estava em casa, no seu tempo não havia televisão nem desenhos animados, e nunca lá entrara um jornal, muito menos um livro. Lia devagar, mas tinha visão apurada! Quando catraio, não havia ninho que lhe escapasse, por mais densa que fosse a ramagem. Depois de localizado o ninho trepava, ágil como um macaco, pelo tronco da árvore e, em dois tempos, estava o ninho no chão. Era assim que se divertia, imaginando o que pensaria o pássaro ao voltar! Tinha muita imaginação, apesar de ler pouco, era um sonhador.

Já crescido, sonhava ter um carro potente e uma casa grande. Era vivaço e facilmente fez fortuna no ramo das pavimentações betuminosas. Realizara os seus sonhos e era agora um homem satisfeito.

Releu o papel. Era um aviso da polícia. Rasgou-o em pequenos pedaços, fez as malas, entrou no carro potente e arrancou. A curta distância, o motor de um carro menos potente soou. Lá dentro, dois homens conversavam amenamente enquanto se preparavam para perseguir, e apanhar, o sujeito.

segunda-feira, abril 25, 2005

25 de Abril

Em cada esquina um amigo. Em cada rosto igualdade. Se houve revolução com pinta, com audácia e com garbo, foi esta. A dos cravos e do Zeca Afonso e do Salgueiro Maia. Riquíssima em simbolismo e em estilo, a nossa revolução é digna de um povo milenar e civilizado. Digna da Terra da fraternidade.

quinta-feira, abril 21, 2005

Livros

Bastou um par de dias para que, na Alemanha, os interessantes livros esctitos por Bento XVI ultrapassassem, em número de exemplares vendidos, as aventuras do nosso feiticeiro preferido, o nosso amado Harry Potter.

Prova-se assim, sem margem para dúvidas, que a Igreja tradicional ainda mantém o lugar cimeiro nas crenças das gentes! Nem as últimas peripécias da criação de Rowling conseguem bater o "O Sal da Terra"! O próprio Brown, lendário autor do "Código Da Vinci", viu-se derrotado na sua coutada. Julgava-se imbatível na disciplina "teologia para todos", mas reconhece agora que nada pode contra Bento XVI, que possui, no "top" dos 20 mais vendidos na Alemanha, nada menos que 8 títulos de sua autoria! Os leitores alemães ficaram entusiasmados e nem Jean-Paul Sartre, nos seus melhores momentos, ombreou com o agora Santo Padre!

Mesmo em Portugal, despacharam-se em 2 horas os exemplares existentes de "O Sal da Terra". 2000 exemplares! 1000 por hora! 1 exemplar vendido a cada 3,6 segundos! Em Portugal!

A feitiçaria de Potter ainda tem muito que aprender com a sereníssima Igreja Católica!

quarta-feira, abril 20, 2005

Frustação

Ontem escrevi um longo artigo sobre uma conspiração universal, assunto bastante pertinente. No entanto, assim que tentei publicá-lo, o programa deu erro e todo o meu trabalho foi perdido. É inacreditável o poder das multinacionais de produtos para o banho.

É claro que o alvo da minha campanha eram essas sinistras entidades.

sábado, abril 16, 2005

Telefonema a Uma Voz

Quica? Sou eu. O Jorge telefonou-me, pensou que eu estava em casa, ainda demoro um bocadinho, estou a caminho, não me esqueço! Olha, filha, o Jorge disse que tinha umas cervejas no congelador e que era para as tirarmos antes que inchem. Pois, e rebentam. Não demoro nada, sabes como é o Lopes, não me deixa sair, é boa malta, Quica.

Em casa, a Quica interrogava-se, quem será esse Jorge? Foi à cozinha, abriu o congelador e, claro, nada de cervejas.

sexta-feira, abril 15, 2005

Imagem

Há bastante tempo que não colocava uma imagem no Meia Livraria. Por isso, hoje, apresento uma, escolhida à sorte.


Símbolo do Sporting Clube de Portugal.

quinta-feira, abril 14, 2005

Filósofos e Sapateiros

Enquanto o Presidente passeiava pela França, o nosso Primeiro-Ministro visitava o irmão Sapateiro. Se o meu amigo não se importasse, ajudava-me a despachar o Guterres para a ONU, e, já agora, lembrava-se de nós para umas negociatas, terá dito Sócrates ao seu homólogo. Concerteza, terá respondido o Sapateiro, é evidente que o ajudo a mandar o Guterres para a ONU e, já agora, não me quer ajudar a mandar o Gonçalves para ajudante de campo do Hugo Chaves?

quarta-feira, abril 13, 2005

Uma Pausa

Resolvi fazer uma pausa na história "Togo". Desde que iniciei este texto, tenho recebido ameaças de ataque viral ao blogue, cartas anónimas com letras recortadas de revistas (VIP, caras, Time, TV Guia, Maria e Ana + Atrevida) com palavras iradas mas coloridas, perdi alguns amigos e até alguns dos meus familiares mais próximos me olham de esguelha. Tal é a maldição deste texto.

Entretanto morreram alguns Papas, casaram-se uns principes e morreram outros, ou quase, ou estão muito doentes, e tudo isso, de fulcral importância para o Caminho da Humanidade, passou incólume pelo Meia Livraria. Não sei até que ponto as grandes tragédias para a Humanidade, que assolaram o Globo nas passadas semanas, não terão que ver com este amaldiçoado texto! Dá que pensar, pelo menos!

Até a visita de Sampaio à França estava esquecida. O Presidente combate a triste imagem deixada pela nossa rapaziada emigrada nos loucos sessentas e, mais difícil ainda, tenta colmatar a intrigante impressão deixada em 1989 pelo seu antecessor, Mário Soares, ao falar em dialeto franco-konakri para os meios de comunicação franceses, algo que terá deixado a população gaulesa bastante perplexa. Eles já sabiam que éramos excelentes porteiros e óptimas lavadeiras e vice-versa, sabiam que, para nós, negro é uma cor. O que eles não sabiam é que o nosso Presidente dominava o baixo francês da Guiné-Konakri!

domingo, abril 10, 2005

Togo (5)

Cansado, o proprietário dos parafusos de inox regressou aos seus aposentos. Os colegas terminavam ainda o jantar, em grande algazarra, felizes com as aguardentes e com o calor que, vindo de dentro, rivalizava e diminuia o que vinha de fora. Certificou-se que não estava ninguém, não podia ser visto, e debaixo da sua esteira, desenterrou uma pequena caixa de plástico onde ainda se podia ler: "Nesquick". Dela extraíu diversos objectos, entre eles os famigerados parafusos. Sentiu-os na sua mão, brilhantes e frios, quase tão cintilantes como os seus olhos, sempre que os mirava.

A algumas dezenas de metros, o ensurdecedor barulho do aparelho de ar condicionado não bastava para abafar o da paródia dos trabalhadores. O checo tentava em vão concentrar-se numa revista "Time" de há quatro meses atrás quando decidiu abrir o cofre. Estava meio embriagado mas ainda assim conseguiu lembrar-se da combinação. Lá dentro estava, ocultado por um conjunto interminável de papéis, pastas e catálogos, o frasquinho de vidro com as preciosidades. As suas posses não terminavam nesse frasco, mas era nele que estava a maior parte. Os poucos diamantes que possuía brilhavam à luz da lâmpada fluorescente como se fossem parafusos de inox. Fechou novamente o frasco, com cuidado, tornou a colocá-lo no cofre e, com um estrondo, fechou o garante dos seus haveres. A pistola, essa tinha-a sempre à mão. Nunca se sabe, com esta gente, nem com a outra, pensava muitas vezes o europeu.

segunda-feira, abril 04, 2005

Togo (4)

Em quase meia década de África, o checo amealhara já o bastante para encher um cintilante frasco de vidro com pedras preciosas e alguns pedaços de marfim. Uma pequena fortuna. E esperava agora encher o segundo frasco, se possível em menos tempo, e regressar para a sua terra natal onde seguramente o paludismo não o atacaria tanto. Todas as noites, desenterrava o frasco do seu esconderijo, e ficava a mirá-lo, embevecido e feliz, como um rafeiro que dorme todo o dia a sonhar com a altura de fazer surgir da terra o nauseabundo osso de vaca. Dorme para que passe rápido o tempo. O checo, que não dorme, bebe gins.

Com essa fortuna construiria casa, compraria um carro rápido, alemão, e poderia passar o resto da vida gastando o que sobrasse, e seria muito, em prostitutas e bebida. Viveria no mais requintado deboche que conseguisse, do boçal estava já farto, até que deus o levasse. Pelo fígado, ou pelo pâncreas, ou pelo que fosse.

Até lá aguentava-se, tão sólido quanto possível, à frente desta empresa de fundações especiais africana. Onde, de resto, não ganhava mal, cerca do dobro do que ganhavam todos os outros trabalhadores. Esse pensamento não raro o reconfortava em momentos de maior depressão ou de mais funda ressaca.

(Continua)