quarta-feira, junho 29, 2005

Uivos

Ao atravessar a localidade de Rendo, parei num daqueles semáforos que detectam a velocidade. À minha esquerda, ligeiramente afastada, estava uma criança vestida com cores garridas, brincava com uma bola. Parou e olhou para mim. À direita, mais próximo, um cão vadio, malhado como uma vaca leiteira, também parou e observou-me com atenção e cautela. Ainda à direita, mais afastado, um homem já velho, seco e de pernas arqueadas, vestido com cores escuras imitou-os. Parou e fitou-me directamente.

Observado por aquelas três criaturas ocorreu-me estar perante os três estágios da evolução humana: A Criança, o Cão e o Velho. O Sol inundou os insectos mortos cravados no meu para-brisas que mo devolveram fragmentado e quase místico. Pus em marcha o automóvel, separei-me do tapete betuminoso e dos olhares da Humanidade. Desliguei o rádio do carro e, certificando-me que já ninguém ouvia, uivei, tentando olhar de frente para o parcialmente desfeito Astro-Rei.

terça-feira, junho 28, 2005

A Explosão e o TIC

Uma explosão num prédio do Porto provocou, esta noite, a morte a duas pessoas. Esta tragédia conseguiu o feito extraordinário de arrancar os jornalistas da porta do TIC. Acostumados à pergunta inteligente, tisnados pelo Sol de Lisboa, curtidos pelo frio das ruas, lá estavam eles, os jornalistas TIC, em grande, pertinentes, perspicazes, oportunos, questionando o transeunte e morador sobre a desgraça que se abatera sobre aquelas pessoas.

É bom saber que o selo TIC continua a assegurar informação de qualidade.

sexta-feira, junho 24, 2005

Manobras de Diversão

Na ingrata e infausta tarefa de aplicar as medidas impopulares anunciadas há cerca de um mês, o nosso governo adoptou uma conduta táctica de admirável eficácia: Disparar diariamente um conjunto de pseudo-acontecimentos, pueris e cacofónicos, com o fito único de distrair os restos de massas pensantes que Portugal ainda possui.

Se aos ignaros e biltres basta o copo de vinho na tasca e a novela ao serão, se aos pulsantes machos e nóveis fêmeas chega a vacuidade do desporto-rei, com as suas minudências repelentes, casos de arbitragem, carisma dos treinadores e sageza dos dirigentes desportivos, o que fazer aos poucos que sobram?

Sabedores da grande capacidade mobilizadora dos grupos sociais, sempre e só quando lhes toca o odioso da governação, a saber, polícias, professores, magistrados e outros sinistros bandos, o governo que faz para os apaziguar? Ou para os silenciar? Pudessem engavetar o Pinto da Costa, mesmo, e bastaria. Mas nem sempre se consegue tão sonante evento. Pudessem descobrir mais ilustres figuras ligadas a escândalos vários, e lá estariam todos, de olhos postos na porta do TIC, servidos por quase toda a comunicação social do país que não hesitaria em mobilizar todos os seus meios para esse importante desígnio. Pelos vistos, também está a secar este filão.

Mas Sócrates e os seus são sagazes. Possuidores de ilimitados recursos tácticos, afincando-se sempre ao mais elevado mote político da nação, as contas públicas, lançaram esta semana, coincidindo com as manifestações de rua daqueles que só se manifestam quando lhes tiram a vaquinha, ou o borreguinho, uma formidável e inventiva campanha de diversão. Bem urdida, calmamente delineada e de resultados práticos controlados, essa campanha conta com a participação à vez ou em simultâneo de diversos ministros e secretários de estado:

O ministro da saúde chega ao Hospital de São João no Porto e acusa os médicos de varrasquice: Não lavam as mãos, disse o ministro. Aparentemente a coisa não chegou para tirar os polícias e os incêndios da primeira linha informativa. Havia que continuar.

À noite, ou final da tarde, a ministra da educação dispara esta: Ah, isso nos Açores é outro mundo, aquilo nem sequer é bem Portugal! Dito a propósito da diferente interpretação dos tribunais de Lisboa e Ponta Delgada sobre a providência cautelar que impediria a classificação da garantia de normalidade na execução dos exames do nono ano como serviço mínimo, a ministra oferece uma genial gaffe para gáudio das massas ainda residualmente pensantes!

Imagino o riso que, no conselho de ministros, deverá ter soado, ao serem urdidas tão interessantes atoardas! "Esta deve dar para dois dias!", vejo Sócrates a dizer, de boca aberta e sorriso ainda mais franco, "Ó Campos, chama porcos aos gajos"! Risada geral.

terça-feira, junho 21, 2005

A Rota

Muito raramente oferece o ventre da Humanidade pessoas como Álvaro Cunhal. Num país pequeno como o nosso, por vezes, um século não chega para que se gere um homem com as qualidades do incansável e indestrutível combatente antifascista. Muito se disse e escreveu neste par de dias sobre a sua vida, sobre a sua obra plástica e literária, insistiu-se na sua coerência, na sua verticalidade, também se falou na sua intransigência, afinal, consequência necessária das suas profundas convicções.

Falou-se também dos seus sinistros planos para instaurar um regime totalitário de esquerda em Portugal. No entanto, suspeito que quem assim pense não tenha conseguido manter a clareza de raciocínio, a honestidade intelectual e a objectividade que deveriam ser obrigatórias no gerar de ideias para consumo próprio ou alheio. Não é a ignorância mãe do preconceito?

Na passada quarta-feira foi cremado e as suas cinzas, agora depositadas nos canteiros do cemitério, levarão uma importante parte da História de Portugal. Levarão um mito, um modelo, um herói. E porque cremado quis ser, não figurará aqui imagem sua. Nada de imagens, nem santinhos nem múmias embalsamadas. Apenas um par de versos de José Afonso, que, talvez melhor que uma fotografia, descrevam Álvaro Cunhal:

"Nem o vôo do milhano, ao vento Leste
Nem a rota, da gaivota, ao vento Norte
Nem toda a força do pano, todo o ano
Quebra a proa do mais forte,
Nem a morte."

quinta-feira, junho 09, 2005

Postiço

Este artigo é postiço. Serve apenas para anunciar que preparo um regresso à publicação diária em breve. Falarei de Reis e de Cidades Esquecidas, da Vida e das Coisas, da Alma e da Morte. Em breve. Até já.