terça-feira, agosto 30, 2005

O Cidadão

Encostado à grande máquina de café do escritório, Manuel queixava-se aos colegas: "Eu sei os meus direitos! Os tipos não me enganam! Tenho direito ao dia, o percurso até casa conta como hora de trabalho, no meu contrato está lá tudo, eu disse ao Mendonça do departamento de pessoal que ia ao sindicato, ou ao tribunal de trabalho, onde fosse, mas eu tenho direito ao dia!"

A pouca atenção que os colegas lhe prestavam não o desmotivou e continuou o chorrilho de injustiças: "Lá no condomínio toda a gente tem TV Cabo! Uns ricaços que mal têm para comer, mas para a Sport TV há sempre! E ainda queriam que fosse eu a pagar os trezentos euros do arranjo da antena, só porque sou o único que a usa! Ainda me disseram que com esse dinheiro me pagavam a TV Cabo por um par de anos! Isso é que era bom! Eu sei os meus direitos! Pagaram e não bufaram!"

Tendo os interlocutores desamparado o corredor, Manuel regressou ao seu posto de trabalho para ralhar com os colegas de sala: "Eu tinha aqui o apara-lápis do lado esquerdo da secretária e agora está aqui ao meio: Alguém o usou sem me pedir autorização!" E continuou: "Já parecem o meu vizinho do primeiro esquerdo, que trabalha na junta, sempre a usar a mangueira da minha garagem para lavar o carro!"

Entretanto, pegou num monte de papéis, dirigiu-se ao corredor onde estavam os caixotes de lixo, devidamente separados por cores e feitios, e, com grande alarido, enfiou a papelada na caixa do lixo geral, dizendo: "Esses tipos lá nas lixeiras não fazem nada! Eles que separem o lixo, não sou criado de ninguém!"

segunda-feira, agosto 29, 2005

Se Eu Fosse Primeiro-Ministro

Se eu fosse Primeiro-Ministro mandava construir uma central de cisão nuclear no Mondego. Produziria um terço da energia necessária em Portugal, seria arrefecida por um rio caudaloso e nacional, constituiria um grande avanço para a economia portuguesa e pouparia aos olhos dos portugueses o horrendo espectáculo dos nóveis moinhos de vento, que a todos atemoriza, pensando que Portugal foi invadido por uma sinistra horda de extraterrestres.

Depois, à noite, sentado no meu sofá, assistiria com um sorriso matreiro aos pinotes e mortais encarpados que Manuel Alegre seguramente daria.

domingo, agosto 28, 2005

Bloguistas

Há dois tipos de bloguistas: Os que têm sempre o MSN ligado durante as horas de expediente, que só visitam blogues durante a semana, e os outros, que não sabem o que são empregos em que se possa usar o MSN. Há ainda os cruzamentos: tipos que, de semana, só vêm blogues e que, ao fim de semana, estão no MSN, há os vice-versa também e os que trabalham ao fim de semana e fazem nesses dias o que fazem os dos outros tipos durante a semana.

Não é ciência fácil, garanto-vos, a taxonomia blogosférica.

sexta-feira, agosto 26, 2005

A Idade da Reforma

O aumento do limite inferior para a idade de reforma na função pública causará profundas alterações no tecido social português. Os efeitos de tal medida são imprevisíveis mas seguramente devastadores! No entanto, pode-se adivinhar já algumas dessas consequências: A curto prazo reduzir-se-á para pouco mais de metade o actual número de jogadores de dominó na Praça José Fontana. A redução deste contingente condenará à fome centenas de pombos cujos cadáveres em decomposição poderão tornar a atmosfera de Lisboa irrespirável. Perderá a capital do país o seu reconhecido estatuto de pulmão do vale do Tejo que ganhou por um nariz, com os seus jardins e o lendário Monsanto, à custa da queima da Tapada de Mafra.

Lembremo-nos também da grande conquista com a redução do horário de trabalho nos anos 30: O aumento siginifcativo do número de pescadores à linha, tal como afirmado por Romains em 1938. Mesmo este grande passo no progresso dos Homens fica agora posto em causa! Também esta grande façanha do sindicalismo do início do século XX pode agora ver-se reduzida a quase nada. E, no final, quem se ficará a rir? Os peixes!

quinta-feira, agosto 25, 2005

Publicidade

Hoje vi um cartaz publicitário anunciando um produto sobejamente conhecido: A cerveja Super Bock. Lia-se no cartaz a seguinte frase: "Super Bock: A cerveja n.º 1 em Portugal. De Viana a Sagres".

É sabido que estas coisas possuem mensagens ocultas, que perturbam o regular funcionamento do processo cerebral. Minutos após a descoberta do cartaz, já sentado num restaurante, um empregado dirigiu-se à minha mesa e perguntou-me o que queria beber. No meu cérebro ouvia uma voz longínqua que dizia repetidamente: "de Viana a Sagres...".

"Traga-me uma cerveja!", respondi e acrescentei: "Pode ser uma Sagres."

quarta-feira, agosto 24, 2005

Embustes

Soube-se há dias que o Homem do Piano, encontrado no ínicio deste ano algures em Inglaterra, é um embuste! O tipo não sabe o que é uma clave de Sol, desconhece as diferenças entre as teclas brancas e as negras do piano e confunde Carlos Paredes com Maria João Pires! Cai assim um mito que apaixonou o mundo civilizado.

Tendo descoberto há pouco tempo que as letras das músicas de Luís Represas e Trovante são um embuste, sofro agora este abanão na minha fé nos homens! Que mito ruirá de seguida? Será que, dentro de algum tempo se revelará ser a linda cabeleira do Elvis da Golegã, José Cid, falsa?

terça-feira, agosto 23, 2005

Histórias

Segundo S. Lucas (XXIV), quando os discípulos do Mestre, após a sua morte, o procuraram no sepulcro, deram com a lápide movida: Não estava lá o corpo do Senhor Jesus! Perplexos, encontraram dois homens com vestes resplandecentes que lhes disseram: "Porque buscais o vivente entre os mortos?"

Sem dúvida, os autores da Bíblia sabiam contar uma história: E logo a segunda melhor de sempre! Claro é que a primeira de todas se contou há quatrocentos anos certos pelo infinito Cervantes: "El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha".

sexta-feira, agosto 19, 2005

Betandwin

O patrocionador da Liga de Futebol da época que hoje começa será a firma Betandwin, dedicada ao mercado de apostas. Ouço já o Lopes, na tasca, decidido e sabedor, após o terceiro penalty tinto, tentando envangelizar o Mendonça e o Santos: "Diz-se betadim! É uma casa de apostas lá na internel!"

Adivinho a resposta do Santos: "Isso da internel tem muito que se lhe diga, parece que é perto de Gibraltar!"

"México, não é?" concluirá Mendonça. "Pois, um ofexore nas ilhas!" dirá Lopes. "É uma ladroagem, mas mais gatunos são os da Santa Casa: Gastei já meia reforma no euromilhões e só me sairam 2 euros!", rematará Santos.

sábado, agosto 13, 2005

Sensibilidade com Asas

Estendido no areal da Praia Grande, fitando a linha do horizonte fixa algures no Atlântico, Manuel, com ar concentrado e meditador, disse a sua mulher: "Deolinda, sabes que se formos pelo mar, sempre em frente, sem parar, chegamos à China!"

Espantada com a sabedoria do marido, Deolinda não deu pelo súbito levantar vôo de três enormes gaivotas a poucos metros de distância. Sobrevoaram parte da praia, rumando a Sul, viraram a Oeste, entrando no mar até darem a volta, deixando o Sol que se punha nas suas costas. Passando por cima do casal, a maior das três soltou uma volumosa massa quase liquefeita, nauseabunda, que acertou em cheio na face sonhadora de Manuel, apagando-lhe o cigarro que ele acabara de acender.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Os Blogues e os Fogos

Numa visita pela vizinhança, recolhi vários artigos sobre os incêndios que lavram Portugal.

No Ma-Schamba vem uma ligação para um enxuto artigo do José Gomes Ferreira da SIC. Os créditos da descoberta são dos Quatro Caminhos que trazem um texto pertinente.

Pelo Substrato, um delicioso artigo desperta-nos para uma singela evidência: Se as pessoas limpassem a mata em redor das suas casas, talvez chorassem menos para as câmaras de televisão.

O Mar Salgado, aqui e aqui, fala novamente da negociata infame dos fogos e lança uma questão sobre a prisão preventiva dos incendiários que é assustadora.

O Boticário traz-nos a notícia que a Reuters está atenta à nossa desgraça, pelos vistos, motivo de análise dos povos avançados e civilizados.

O Estrago da Nação é um blogue dedicado ao nosso ambiente e manifesta a sua enorme preocupação com a tragédia que se abate sobre a nossa floresta de forma bastante aguda.

E o leitor? Já fez a sua análise?

O Grego e a Grécia

Talvez por lhe fazer lembrar a sua selecção natal, o árbitro da partida Sporting-Udinese, jogada há minutos, assinou uma das mais excêntricas exibições de sempre em jogos da UEFA.

Se por cá seria uma arbitragem normalíssima num qualquer jogo do Benfica, na UEFA é coisa bem de espantar: 1 penalty contra o Sporting resultante de uma pretensa falta involuntaríssima cometida fora de área, 3 penalties reais por assinalar contra a Udinese, faltas incríveis (aquela do Liedson imóvel junto ao guarda-redes será proverbial), a permissividade gritante em relação à besta que envergava a camisa 9 dos italianos, em suma, um absoluto record em termos de UEFA.

Nota: Só a brutal ignomínia do espectáculo a que assisti me levou a escrever este artigo. Nem as mais execráveis roubalheiras nos jogos do Glorioso (a seu favor, claro) da passada época me causaram semelhante incontinência. E repare o leitor que foram muitas e boas.

terça-feira, agosto 09, 2005

Catástrofes Naturais

Chove hoje em Portugal. Há poucos dias, ardia o país de Sul a Norte, sem perdão, levando concelhos inteiros na gigantesca voragem das chamas. Pombal desapareceu do mapa, a Beira Alta transformou-se num imenso amontoado de cinzas, magros milhares de bombeiros desunharam-se, impotentes, com os seus pequenos carros de brincar, mirando de baixo as chamas, fugindo, rodeando, cercando, sendo cercados, atacando aqui, defendendo acolá, dando o couro à refrega sempre perdida. Tudo quanto quis o fogo queimar, queimou.

Poder-se-ia tratar de uma calamidade natural, ou assim pareceria, mas não. Nada há de natural nesta tragédia. O desordenamento territorial, a selvajaria analfabeta dos poderes autárquicos, inábeis e incapazes de gerir os seus espaços, permitindo construções no meio de pinhais, cedendo a tudo e a todos, em troca de umas esmolas para construir rotundas que consomem num ano a água bastante para que tudo se apagasse na zona centro. São essas as nossas calamidades naturais.

A patética justiça portuguesa contribui também para o massacre, soltando no mesmo dia um incendiário apanhado em flagrante para que, no dia seguinte, incendeie outra mata, sendo outra vez apanhado e outra vez solto pela Senhora Doutora Juíza. A cretinice desta Juíza compete apenas com a dos jornalistas apresentadores de noticiários televisivos que, após o anúncio com voz séria das "lavradelas" incandescentes, noticiam, com sorriso imbecil e beatífico, o bom tempo para o fim de semana que chega: Nem uma nuvem no céu, diz o idiota, feliz como um lobotomizado. Pelo menos esta calamidade não tem efeitos tão perniciosos como as outras, mas consegue rebentar-nos com a fé nos homens.

Chove em Portugal. Apagam-se os incêndios por hoje mas, se parar de chover amanhã antes de almoço, ao final da tarde arderá de novo o país. E se tivermos o azar de se prolongar o "mau tempo" por uma semana, veremos seguramente nos telejornais a inevitável notícia: Três aleias no Ribatejo estão isoladas, prejuízos incalculáveis, colheitas perdidas no Alentejo e no Vale do Douro. Não pingará uma gota de vinho do Porto.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Alcunhas Etílicas

O grupo de alcunhas mais ilustre e luminoso será porventura o das etílicas. Atente-se num seca-adegas, ou num alambique, ou mesmo o bezana ou torneira. E que dizer de um securas ou bezerrão? E do narsas?

As expressões utilizadas para o estado de embriaguez são também de uma riqueza inesgotável: O grãozinho na asa, o vinha tocado, o vens com ela calçada, o magnífico e singelo vens lindo, enfim, uma riqueza que a todos deve encher de orgulho.

terça-feira, agosto 02, 2005

Alcunha Intraduzível

Há alguns anos, tinha um colega de escola que se chamava Jorge Borrego. A sua alcunha entre os amigos era: "O Bura".