terça-feira, novembro 29, 2005

A Indonésia era Nossa!

Portugal poderia ter encurralado os indonésios em Timor após o 25 de Abril, dizem fontes seguríssimas dos EUA. E nem era preciso gastar muito dinheiro com munição, asseguram as mesmas fontes.

Aquela rapaziada que nos governou após a Revolução dos Cravos era, com efeito, malta de vistas curtas! Poderíamos ser hoje donos de um império com mais de 200 milhões de habitantes e vêmo-nos reduzidos a este canapé europeu (como lhe chamava D. João VI, o pai do Pedro e do Miguel). De Lisboa governaríamos todo o arquipélago indonésio e tudo isso em troca de quê? De meia dúzia de quilos de pólvora e um punhado de cartuchos!

Não ouviram os americanos e deixaram fugir a oportunidade de encurralar os indonésios! E se a todos parece evidente a superioridade física do soldado português face ao militar indonésio, já causa estranheza a não imposição atempada dessa manifesta força.

Deixámos fugir as Índias, o Brasil, o ouro do Brasil, Angola, o petróleo de Angola, os empréstimos do fomento do fim do século XIX, os fundos da UE, o ouro nazi e agora isto! Segurámos, valha-nos isso, o Euro 2004 e um 8º lugar na Eurovisão.


Indonésia: Província de Portugal?

sábado, novembro 26, 2005

Pássaros na Lezíria Grande

Águias, carraceiros, pardais, estorninhos, tordos, tudo o que é pássaro vôa pela grande lezíria. Não sendo a ornitologia uma das minhas habilidades, nutro pela vida alada uma forte curiosidade e pergunto-me: O que seria das águias sem os cabos de telefone? Onde pousariam? E o que seria das cegonhas sem a EDP e os seus postes de alta tensão? E os pardais que comeriam se nada fosse semeado?

Triste seria a vida dos pássaros da Lezíria Grande sem nós! Sem um coelhito atropelado na Estrada do Camarão, o que comeria a águia? E se não deitássemos a sande de torresmos a meio pela janela do carro o que depenicaríam os pobres tordos!

Haverá algo mais belo que a simbiose entre o homem e o animal?

quinta-feira, novembro 24, 2005

A Casa dos Couratos

Hoje almocei na casa dos couratos em Vila Franca de Xira. Não se assustem os leitores que não transformarei o Meia Livraria em diário pueril onde se desbaratem os nadas e as vulgaridades que constituem o dia a dia do comum cidadão. Para dizer uma expressão que há muito não dizia, e que é do O'Neil, não vos aborrecerei com a minha vidinha.

Falo-vos dos melhores couratos que a humanidade consegue extraír do porco: os couratos da tasca "O Túnel" em Vila Franca de Xira, para muitos, o ex libris da cidade! Foi a segunda incursão a este mítico local que efectuei nos passados meses. Na primeira, fiz-me acompanhar pela "Morte em Veneza" de Thomas Mann cujas primeiras páginas devorei segurando o livro com a mão esquerda e o courato escorrendo molho picante com a direita. Lembro-me da sensação inebriante e quase mágica que o gondoleiro bandido me causou quando empurrei um pedaço da pele do porco pela goela abaixo com o auxílio de uma farta golada de "Frutol". E qual não foi o meu espanto quando mirei com Mann a família polaca no hotel não perdendo de vista, pelo canto do olho, a tropa trolha que entrara ululante pela taberna!

Hoje fiz-me acompanhar pelo "meu" encarregado, um tipo bem disposto com quem partilho o amor pelo courato. Somos, por assim dizer, irmãos de alma courateira. Recordou-se da última vez que ali viera, esforçou-se por apurar o ano, 1996 ou 1997, e contou-me com precisão a história desse dia. Lembrei-me também do distante ano de 1991 em que, após a elaboração da prova específica de matemática para acesso à universidade, que por me chamar Cláudio e por começar Cláudio pela letra C me tocou fazer em Vila Franca, ali estive. Chamasse-me eu Xavier e calhar-me-ia Malveira da Serra, ou Cabo da Roca, mas assim não é e assim colmatei a dura prova na casa dos couratos com alguns amigos de nome César, ou Carlos, ou Daniel. Partilhei esta história com o meu irmão de courato e revelei-lhe a nota que tive, os problemas que saíram, o meu método de estudo, enfim, partilhei aquilo que sempre se partilha com um dos nossos. Falando de boca cheia e mão pingada de picante para ouvidos que guardavam, como guardam as asas das aves os seus ovos, uma boca também cheia de divino courato.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Homossexuais de Fora das Igrejas

A decisão do Vaticano de impedir a ordenação de padres homossexuais despertou já diversas reacções indignadas: Desde as associações de homossexuais, directamente afectadas pela decisão, até ao corpo de bailarinos do Politeama!

O novo papa Bento XVI começa a impôr a sua lei e as vítimas são as do costume: os homossexuais agora, os ciganos depois, os judeus logo a seguir, eslavos em geral, africanos, enfim, o cheiro das fogueiras depressa se fará sentir por todo o mundo católico. Em breve curar-se-ão os males do mundo em autos de fé e churrascos humanos pelas praças das cidades tementes a Deus e respectivo séquito de santinhos.

A polémica medida faz ainda temer pelo contigente sacerdotal da santa igreja! Impedidos de celebrar missa, que farão os padres homossexuais já em funções? Dos 7 e tal percento de desempregados em Portugal, por exemplo, passar-se-á num ápice para os 10 ou 12!

E que pode agora fazer um pobre homossexual de provínicia para esconder as suas tendências naturais? Sem o refúgio do seminário? Será sinistro o seu futuro!

segunda-feira, novembro 21, 2005

Arriba Franco!

Comemora-se agora os 30 anos de uma data feliz para todo o Mundo e para quase toda a Espanha: A morte do ditador e torcionário Franco. Que a terra lhe pese bastante! Sobre essa sinistra figura lembro-me sempre daquela célebre frase: "Arriba Franco! Mas alto que Carrer Blanco!"

Uma frase bem disposta que alude ao assassinato de Carrer Blanco que foi pelos ares num atentado à bomba. Terá subido bem alto, esse senhor, e muitos queriam ver o ditador subir mais alto que ele. Infelizmente não subiu tão cedo como deveria e acabou descendo, há 30 anos, ao Inferno, de onde nunca deveria ter saído.

domingo, novembro 20, 2005

Presidenciais

Quem ganhará? Soares ou Alegre? Louçã ou Jerónimo? Carmelinda ou Garcia Pereira? Três excitantes duelos esperam por nós no dia 22 de Janeiro de 2006! Cá vão as minhas apostas: Soares x Alegre 1X; Louçã x Jerónimo X2; Carmelinda x G Pereira X2.

Façam também as vossas!

sexta-feira, novembro 18, 2005

Aveiras e a Coluna Dorsal

Motivos profissionais mandaram-me ontem para as altas serras da Beira Alta. Para tal, havia que acordar cedo. Feitas as contas e para uma viagem calma, teria de me levantar às seis da manhã. Tocou o despertador e, confrontado com a necessidade de me levantar, equacionei as costumeiras desculpas para adiar tão indesejado acto. Venceu a espinha dorsal e, levantando-me corajosamente, consegui chegar ao destino meia hora antes do combinado para um um café descansado e uma leitura do jornal antes do encontro marcado. Tudo correu como previsto.

Ao almoço, através de um televisor, soube que na autoestrada A1, em Aveiras, no sentido Sul-Norte, houve um brutal acidente por volta das oito da manhã envolvendo oitenta viaturas e causando a morte a três pessoas. Tivesse o meu lado invertebrado vencido e não teria passado pelo aziago local meia hora antes do acidente, como passei. Talvez os planos revistos não acertassem no eventual atraso admitido, talvez me atrasasse mais um bocado, se lá chegasse de todo.

De vez em quando sabe bem ter coluna dorsal.

quarta-feira, novembro 16, 2005

O Tabuleiro na Montra

Um prestigiado xadrezista holandês, Hans Ree, conta uma história que a todos diverte e dispõe bem: Numa loja de Amesterdão, estava um tabuleiro de Xadrez na montra, com as respectivas peças dispostas ao contrário. Como o leitor mais versado nas artes do nobre jogo sabe, fica a casa branca à mão direita de ambos os jogadores, regra ditada pelas leis do jogo e da simetria. Ree, ao passar pela tal loja e ao dar com o erro do lojista, entrou. Falou com o proprietário, fez-lhe saber que trilhava ínvios caminhos e quis-lhe emendar os lamentáveis lapsos, para ouvir uma inesperada resposta: "Pensará o senhor que é o primeiro pedante a entrar na loja para me elucidar? Pois saiba que muitos o fizeram já e todos alguma coisa compraram, que para isso tenho eu os dotes de vendedor. Com o tabuleiro assim montado, em jeito de engodo, não me faltam xadrezistas dentro da loja". Eventualmente Ree terá, que remédio, comprado algo.

Termina assim uma bonita história que, por cá, teria contornos bem diversos. Nas lojas onde se vendem tabuleiros de Xadrez em Portugal é costume distribuir-se as peças pelas casas negras do damasquinado, preenchendo todo o tabuleiro que aparenta assim raquitismo e consequente desproporção. Nenhum xadrezista entrará pela porta para corrigir o relapso vendedor, em primeiro lugar pela vergonha que têm sempre os portugueses de ser o que são e, em segundo, pela evidente inutilidade do esforço, dado o grotesco afastamento do exposto à singela realidade. No entanto, estou seguro que entrasse o incauto xadrezista na loja e dela não sairia sem tapete ou candeeiro de pé debaixo do braço.

terça-feira, novembro 15, 2005

O Conhecimento

Porque razão nos dá o conhecimento, ainda que incompleto e canhestro, tanta alegria? Existirá algo melhor que compreender, que sentir o clarão que o saber sempre acende nas nossas almas? E porque será que tantos elogiam a ignorância? Ter-se-ão esquecido da magia da aprendizagem, da vertigem da descoberta?

Assustar-se-ão com o estatuto de neófito, de ignorante, de derrotado? Como, se a mim nada me entusiasma mais que descobrir-me numa sala onde sou eu o menos sabedor e logo o que tem mais a aprender? Não rejuvenescemos todos quando começamos algo de novo? Qual será a sinistra razão que senta agora milhões de portugueses em frente ao aparelho de televisão onde apenas lhes é dado o que já sabiam: Que o Francisco José traíu a Jocimara e que a Neide afinal é filha do Coronel?

segunda-feira, novembro 14, 2005

Manifestações em Belém

Sempre que passo por Belém ao domingo dou com uma razoável manifestação. Não muito grande nem muito pequena. Constituída na sua maioria por gente cigana e por gente de fato de treino preto, verde fluorescente e lilás, lá estão eles, os manifestantes, apinhados, tapando a bela calçada à portuguesa, tão nossa, nossa dos do fato de treino que aos outros nunca ninguém viu assentar o mais pequeno paralelipídedo que fosse, que fique claro.

E que terá feito o Presidente, pensará o leitor, para que tantos e tão patuscos se reunam em Belém num ritual dominical? Seria válida essa questão se não estivesse o magote deslocado um bom quarteirão do Palácio Presidencial. Escorrem, fique o leitor sabendo, escorrem luzidios, derramando-se pela rua, vindos de dentro da casa dos pastéis de Belém!

domingo, novembro 13, 2005

Deliciosamente Migado

Num destes dias, tomava um café no único estabelecimento aberto em toda a Lezíria Grande, e ouvi, como sempre faço com desavergonhança, uma alheia conversa em que um cidadão, calramente alterado, explicava a dois atentos companheiros a sua aventura do dia: "Se eu não me tenho desviado com o carro ficava todo migado!"

Deixei em itálico a palavra migado por a considerar, acima de todas, um dos mais belos vocábulos da língua portuguesa! Confesso-me até um pouco baralhado, taralhouco, e feliz por se ter o homem safado de boa!

Que bonita é a nossa língua!

sábado, novembro 12, 2005

Os Assassinos

Ontem, à porta de um tribunal algarvio, acotovelava-se a turba guinchante, clamando vingança contra os algozes da pequenita Joana! Assassinos, gritava uma mostrando os dentes que lhe restavam, Tragam-na cá para fora, ribombava outra, com falsetes rompidos pelo catarro.

Não tenha o leitor a menor dúvida: Daquela turba revoltada poderá recrutar assassinos tão ou mais tenebrosos do que os julgados ali. São os assassinos em botão que agora se indignam e que amanhã desabrocharão em sinistras flores vermelhas de sangue. E negras de ignorância.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Inveja

O Dr. Soares candidata-se à Presidência da República aos 81 anos. Hoje está em Espanha para umas conferências, ou entrevistas, ou lá o que é. Mandata-o, para a juventude, uma boneca que tanto é do Bloco de Esquerda como do Soares como do Sporting ou do Benfica mas que enfeita bem e alegra a alma. Soares tem 81 anos e não joga dominó na tasca do ardina.

O Dr. Soares tem uma fundação, tem um séquito de apoiantes, é famoso e diz o que quer. O maior partido português apoia-o. Ele tem 81 anos e não está no lar sentado numa cadeira mirando de cérebro desligado a parede por trás da televisão que devolve a Praça da Alegria. Soares não espera o Domingo para ver algum dos netos.

Não sei se vou votar no Soares nem isso importa. Nem gosto por aí além do Dr. Soares. Sei apenas que tenho uma profunda inveja antecipada por esse homem de 81 anos. E mais inveja ainda de um homem que manda à merda quem achar que deve mandar. E que mandou à merda o chinelo quentinho e a manta sobre os joelhos.


Dr. Mário Soares.

quinta-feira, novembro 10, 2005

"Chess Bitch"

Por outras paragens, o Xadrez evolui e mostra-se à altura dos tempos modernos. Em Nova Iorque, no lendário Marshall Chess Club em Manhattan, foi lançado um livro escrito por Jennifer Shahade, a campeã norte-americana de Xadrez de 2004, com o sugestivo título "Chess Bitch". Pelo que consta, versa a invasão feminina da cena xadrezística nos EUA focando-se nas diferenças entre géneros e atacando alguns preconceitos. Parece que nem Garry Kasparov foi poupado.

Para os leitores que não dominam inglês, traduzo a palavra que não conhecem: Chess significa Xadrez. Para os bloguistas de direita esclareço: Manhattan é aquilo a que vocês nos vossos blogues chamam, com afecto, "Big Apple".

Para finalizar, deixo esta opinião: "One woman’s fascinating true story of the life of a champion chess player. All women should take up the challenge and pick up a board! Chess anyone?" – Yoko Ono (Alguém se lembrava dela?)


Chess Bitch de Jennifer Shahade.

quarta-feira, novembro 09, 2005

TVI

Nos noticiários da TVI a palavra medicamento foi abolida devido à sua enorme complexidade. Substitui-se para os fins necessários pela palavra remédio.

O mais sinistro de tudo é a absoluta veracidade do anterior parágrafo, caro leitor.

terça-feira, novembro 08, 2005

A Ponte de Granada

Morreram 6 operários nas obras de construção de uma ponte para a autoestrada do Mediterrâneo, em Granada. Este tipo de acidente é indesculpável. A direcção técnica do obra, a fiscalização, o dono de obra, o projectista da estrutura, o projectista do sistema de cimbre, todos, ou quase todos, têm de falhar para que colapse a estrutura de suporte construtivo de uma ponte desta dimensão.

O sistema utilizado, com recurso a uma viga metálica apoiada nos pilares, onde corre uma cofragem deslizante, é bastante complexo e exige um controlo rigoroso de todas as ligações metálicas aparafusadas e soldadas na viga, bem como uma verificação milimétrica do posicionamento das cargas, de forma a poder determinar os esforços actuantes na ligação entre a estrutura do cimbre e o pilar.

Sobre um modelo de cálculo correcto, bastará uma verificação topográfica adequada e um controlo de qualidade apertado aos equipamentos de cimbre (viga e carro) para que as coisas corram bem. Neste caso, o colapso deu-se no apoio da viga metálica sobre o pilar podendo-se questionar de imediato a suficiência das ligações entre a fase já consolidada do tabuleiro e a zona de arranque, bem como o estado das ligações aparafusadas do sistema de asnas que constitui a viga de suporte da cofragem.

Essas ligações aparafusadas são efectuadas com parafusos de aperto controlado com chave dinamométrica que só podem ser utilizados uma vez. Uma das prováveis causas do acidente será a eventual reutilização das asnas que poderiam estar dimensionadas para outro vão, ou a indevida utilização de parafusos já esforçados. Não seriam razões económicas a provocar este tipo de falha, seguramente o custo dos parafusos não pesará nesta empreitada, mas sim a eventual preocupação com prazos a causar algum desleixo neste importantíssimo ponto.

As asnas tinham sido inspeccionadas 3 meses antes do acidente, dizem os jornais. Isso pouco ou nada importa para este caso. Nessas inspecções é provavelmente verificado o estado de cada módulo com especial ênfase dado à corrosão das peças que compõem a estrutura e a eventuais cortes na mesma. A menos que as asnas estivessem quase apodrecidas ou com cortes evidentes, é improvável que seja essa a causa do colapso. Essas estruturas não colapsam na globalidade por ruptura de um dos seus elementos, mal seria de todos se um parafuso partido ou um perfil metálico podre deitasse abaixo o cimbre de uma ponte.

Se foi o modelo de cálculo que falhou, tudo é muito mais estranho. A validação técnica dos modelos é hoje bastante eficaz, com recurso a software apropriado, e, normalmente, este tipo de trabalho é executado por um gabinete de projecto tecnicamente sólido com engenheiros recrutados nas melhores universidades e com formação contínua: mestrados, pós-graduações, doutoramentos, etc. É a vertente mais académica da engenharia civil "práctica". Será, portanto, pouco provável que se trate de uma conta mal feita.

Por Espanha debate-se agora o problema da subcontratação como eventual causa de sinistralidade: é falso. A subcontratação resume-se à execução dos trabalhos e à sua coordenação localizada, e nunca à direcção da obra ou à elaboração dos projectos. Mesmo as normas de segurança devem ser implementadas pelo dono de obra, fiscalização e empreiteiro, cabendo a essas entidades assegurar o seu cumprimento. Não é o operário ou um conjunto de operários (que no fundo é o que significa subcontratação) que planeia o cimbre ou dá as ordens para o avanço da cofragem deslizante. Se o subcontratado falha, é porque toda a cadeia hierárquica falhou já. É porque não está lá ninguém, nem fiscal, nem director de obra, ou se está, falhou. Não foi o Manuel nem o Joaquim. Atribuir as responsabilidades do acidente aos subcontratados é uma falácia xenófoba e que só engana quem não conhece os meandros da construção em obras públicas, que, no fundo, é a larga maioria da população. Em suma, arranja-se um bode espiatório para as massas.

Além disso, não são os tradicionais problemas de segurança que estão por trás deste acidente. Não se trata de falta de guarda-corpos, ou de linhas de vida, ou de equipamento de protecção individual: Nenhum destes equipamentos de protecção valeu às vítimas deste aziago acidente. Neste caso, foi o colapso da estrutura metálica de suporte que causou a tragédia e este é um problema de engenharia e não de segurança e higiene no trabalho. Os protestos dos sindicatos espanhóis sobre a falta de condições de segurança nas obras podem ser muito pertinentes mas não se aplicam neste caso.

Agora pararam todas as obras naquele tramo de autoestrada: Uma medida histérica sem nexo algum que parece questionar de uma assentada toda a engenharia. Uma coisa é certa: Para cair uma estrutura daquele tipo falharam demasiadas coisas. E não é essa a regra, por muito iluminadas que sejam agora todas as almas aflitas. Não há magias nem misticismos, nem sortes nem azares e não se vai agora descobrir que afinal todas as pontes estão a cair.


Acidente em Granada.

segunda-feira, novembro 07, 2005

A Linha Maginot

Os franceses sempre souberam defender o seu território! Voltem a construir a linha Maginot!


A inviolável Ligne Maginot.

domingo, novembro 06, 2005

Limpezas

Esta tarde fiz uma limpeza na minha lista de ligações "Recíprocos". Descobri 33 embalagens vazias de blogues (que depositei na lista "Inactivos") e 22 blogues que se arrependeram de ter "linkado" o Meia Livraria. Já lá tiveram o "link" e, por alguma razão, removeram-no! Esses estão na lista dos "Arrependidos"! Malta culta, já se vê, que sabe muito e não precisa de ler na Meia Livraria!

(Amanhã retomo o tema de ontem.)

sábado, novembro 05, 2005

Juventude e Veterania

Há dias falei aqui da vitória do jovem Wang Hao no Torneio Aberto de Kuala Lumpur. Trata-se de um rapaz de 15 anos, que ainda não tinha o título de Grande Mestre (atribuído pela FIDE de acordo com um conjunto de critérios definido) e que o ganhou nesta prova.

Confesso que me sinto um pouco irritado quando a canalhada imberbe vinga, ainda que episodicamente, no circuíto internacional de Xadrez. É certo que neste caso se trata de um torneio aberto, onde as hipóteses de surpresa são mais prováveis, mas penso que estes acontecimentos descredibilizam de alguma forma o Nobre Jogo.

Crianças prodígio, máquinas que jogam Xadrez, são números de circo, tal como o torneio Melody Amber jogado anualmente no Mónaco, patrocionado pelo milionário pai de uma menina chamada Melody Amber (!) em que parte da elite mundial joga umas partidas às cegas e umas rápidas. Toda essa parafernália circense contribui para que uma boa parte da Humanidade veja o Jogo como uma excentricidade, deixando de ver a grande contribuição que o Xadrez pode dar, e dá, para o desenvolvimento das capacidades intelectuais e carácter dos seus praticantes.

Aos grandes campeões Gary Kasparov e Anatoly Karpov nunca puderam os euros do Sr. Amber comprar números de circo.

Amanhã desenvolverei o tema das crianças prodígio seguindo um recente artigo publicado por Kasparov na publicação New in Chess.

sexta-feira, novembro 04, 2005

O Coelho Xadrezista

Gente mal informada apelidava o Coelho de boçal, labrego, mafioso. Gozavam-lhe o "hadem ver", riam-se das suas gravatas, caçoavam das suas camisas e dos casacos azuis com botões de punho dourados! "Parece um revisor da Carris!", diziam, os chocarreiros!

E afinal, calam-se agora essas vozes! Descobriram no Coelho um homem de gostos requintados, um caprichoso xadrezista, nada de dominó belga na tasca em frente à estátua do ardina! Qual sueca! Este homem desvenda em tabuleiros de marfim os segredos de Steinitz e Chigorin! Com que volúpia repõe com as suas pesadas peças de prata os mágicos passos de Morphy ao som do Barbeiro de Sevilha! E ainda mais estará para vir! Em breve, os leitores hadem ver quem é o verdadeiro Coelho!

quinta-feira, novembro 03, 2005

Ditosa Pátria 2

Na sala de espera, uma menina ainda adolescente, grávida, conversa com a mãe, que também o foi adolescente, sobre o nome a dar à cria caso seja do sexo feminino. O pai quer pôr-lhe Inês, disse a rapariga. Acho feio, acrescentou. Para mim, ou fica Bianca, ou Maura, ou Bruna.

A realidade assume contornos que de tão sinistros fazem do damista Poe um inocente contador de fábulas para crianças.

(Sabia o leitor que Edgar Poe preferia o jogo das damas ao Xadrez? Considerava-o demasiado complicado... talvez considerasse a verdadeira literatura muito complicada também!)

quarta-feira, novembro 02, 2005

Ditosa Pátria

Ao balcão do que pensei ser uma pastelaria, cheia de espelhos e com balcão de vidro côncavo, com cadeiras e mesas lacadas de branco e rosa, ouvi um senhor dizer que tinha bebido cinco litros de vinho desde a hora de almoço. Faltavam poucos minutos para as sete da tarde.

Intrigado por semelhante discurso em tão elegante sala de chá, espreitei sobre o ombro direito e descobri, numa extremidade já em mármore do balcão, três cavalheiros que se batiam com minusculos copos daquilo a que se convencionou chamar "penalties". Tintos dois deles, o outro com mistura. A conversa continuava. O dono do estabelecimento disse ao tipo que se gabava de ter despejado o garrafão naquela tarde que o vizinho do outro bebia nada mais nada menos que dez litros num dia. Cinco de manhã e cinco à tarde, claro está. O primeiro insistia que não era água pé nem nenhuma zurrapa, era mesmo vinho o que havia bebido. Como o segundo insistia nos dez litros do outro, o primeiro rematou com um brilhante: "Eu antigamente despejava duas garrafas de licôr beirão depois de almoço!"

Saí do estabelecimento radiante por ser desta ditosa pátria. Que tais filhos tem.

terça-feira, novembro 01, 2005

Fedro

"Num dia cálido de Verão da década que decorre entre 420-410 a.C., Fedro, vindo de junto de Lísias, onde estivera a exercitar-se na arte oratória, trazia o manuscrito de um discurso deste sobre amor, dirigia-se em passeio para fora das muralhas. Encontra Sócrates, e os dois sentam-se sob um plátano copado, junto do Ilissos, a conversar sobre a retórica, ou melhor, a genuína are de falar, que se deve basear na filosofia."

Assim se introduz Fedro, de Platão, num exemplar das edições 70, colecção "clássicos gregos e latinos".

Este texto exemplifica com esmero a dimensão dos filósofos atenienses da época. Só o grande e elevado desprendimento das coisas do corpo permitiam a Sócrates e Fedro conversar sobre oratória debaixo de um plátano.