terça-feira, dezembro 26, 2006

Cintos nos Comboios e o Teatrinho do Féria

Para quando cintos de segurança nos comboios? E cadeirinhas especiais, para crianças e adultos com menos de metro e meio? Para quando o uso obrigatório de capacete e botas de palmilha e biqueira de aço nos automóveis? A azáfama securitária está ainda muito aquém do desejado: Portugal tem de se civilizar. Em breve proibir-se-á o fumo em qualquer local fechado, público ou privado. Em breve terão os fumadores de carregar guizos ao pescoço para que a sua presença seja notada pelas gentes que assim se poderão precaver dos novos leprosos fugindo ou atirando pedras!

Aguardo com paciência o tempo, que não tardará, em que os passageiros do cacilheiro tenham de envergar coloridos coletes salva-vidas e galocha pelo joelho! O singelo peão terá de usar, sempre que saia de casa, o colete reflector e não apenas nas santas peregrinações a Fátima! Peregrinações que, por referendo, se tornarão compulsivas: assim o determinará a Santa Inquisição. Aos prevaricadores, ateus, biscaínhos e outros judeus, restar-lhes-á a correcção dos seus ínvios caminhos ou a purificadora e incandescente pira no Terreiro do Paço. Onde se juntarão às mulheres que façam o IVG! Findo o aroma a sardinha assada na falecida Feira Popular, venha o cheirinho a entrecosto na Baixa de Lisboa!

Em breve será La Féria o ministro da cultura e do entretenimento. Ou Berardo. Em breve se decretará ser cultura apenas o que é economicamente viável! Se Brecht tem cinquenta espectadores, se Féria enche casa atrás de casa, que conclusão se pode tirar? Evidentemente, Brecht vale menos que Féria! Ouçam o Rio do Porto e aprendam! Vejam o Féria no seu Politeama, confortavelmente sentados nas suaves cadeiras, com cinto de segurança, livres de fumo, seguros, quentinhos, com coletes reflectores, botas de segurança e bóias salva-vidas. Não vá o Tejo subir e inundar-lhes o teatrinho.

domingo, dezembro 17, 2006

Mais Dominicais

No Alverca-X, há mais do mesmo: Mais Dominicais! A infame história continua!

sábado, dezembro 02, 2006

A Lei e Marques Mendes

Um destes dias, Marques Mendes informou o burgo que votaria "Não" no próximo referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Tal como votou em 1998. Disse que não encontrou razões para alterar o seu sentido de voto. Admito que seja, para Marques Mendes, difícil, impossível, encontrar razões para alterar a lei. Admito até que seja difícil a Marques Mendes encontrar razões para alterar o que quer que seja.

Nada disto seria digno de nota... mas Marques Mendes avançou: é pena que a lei (que é tão boa) não seja cumprida! Esta é a opinião do líder do PSD! Destas inteligentes palavras conclui-se que Marques Mendes tenha pena de não ver as criminosas e ímpias mulheres que cometem o hediondo crime de interromper a sua gravidez atrás das grades! Tem pena que os médicos, enfermeiras e restantes cumplices não vejam agora o Sol aos quadradinhos! Tem talvez ainda mais pena de que brigadas pró-vida do puritano e muito nosso Portugal não invadam as sinistras clínicas de Badajoz e Madrid empunhando paus e atirando pedras! Tem muita pena, o nosso Marques Mendes.

Eu tenho muita pena também. Do nosso Marques Mendes. E, mais ainda, do nosso puritano Portugal. Que Deus nos ajude e guarde!

segunda-feira, outubro 30, 2006

A Bota Eterna

Ainda lá está! Passei por ela, pela Bota, na sexta-feira. Ela lá estava, encostada ao rail, enegrecida e eterna. Pergunto-me: desde quanto ela lá está? Terá visto Salgueiro Maia na sua chaimite há trinta e poucos anos trás? Será a bota de algum PIDE? Ou ainda: será uma bota do Senhor das Botas?

Hoje, se a conseguir ver, procurarei o elástico. Disso e doutras maravilhosas coisas vos darei conta em breve, caros leitores.

terça-feira, outubro 24, 2006

Sabedoria Desportiva

"O bom jogador nunca ganha mal, mesmo quando o faz por falta de comparência do adversário!"

Eis uma pérola da imensa sabedoria deste vosso criado, que, sem qualquer modéstia, incita o leitor a visitar o Alverca-X (blog dedicado ao Xadrez).

quarta-feira, outubro 18, 2006

O Desafio da Bota

Há pelo menos dois dias que uma bota desafia a massa de automóveis que cruza a segunda circular no sentido Sul-Norte, logo a seguir ao viaduto do Campo Grande. Está encostada ao separador central e ali se tem mantido esta semana. Desafiadora, atrevida, mágica até! Logo à tardinha, vou passar por ela e meditar, como fiz nestes últimos dias, sobre o sentido da Vida. Até que o carro da frente possa andar e, atrás dele, ande eu.

terça-feira, agosto 29, 2006

Quem Quer Ser Invisível?

Parte segunda em jeito de "Blogue Atento e Sabichão":

No título faço uma pergunta a que tu, leitor, poderás tentar responder. Possivelmente viste os filmes ou, na melhor das hipóteses, leste os livros e convenceste-te que seria sobejamente proveitoso deitares as mãos ao anel número um, o da invisibilidade. Falo, claro está, do imaginário Tolkien.

Então, para quê ser invisível? Mesmo as mais evidentes vantagens têm, pelo menos, gosto duvidoso! Poderás levar a cabo pequenos furtos, é certo, com magros riscos corridos. É uma vantagem para alguns, mas não é chávena de chá ao gosto de todos (não te esqueças do estilo asssumido em epígrafe: é suposto usar algumas expressões anglo-saxónicas... por escrúpulo traduzo-as). Talvez um apalpão furtivo a uma nádega distraída, ou a um seio atrevidote, alvitrarás tu, lascivo leitor! Umas viagens à borla no intercidades será sugestão alternativa, menos carnal... Talvez alguém se lembrasse de entrar no cinema ou no teatro de graça... mas, sinceramente, poucas vantagens, para além das já citadas, me ocorrem.

Quanto a desvantagens, há-as a esmo e não são de desprezar: se um tipo se distrai, facilmente é colhido por um camião com as naturalmente nefastas consequências... imagina tu, leitor, que se solta a mão do resto do corpo do portador do anel no processo de esmagamento! Que dirão os transeuntes? Que dirão os bombeiros, de saco plástico em punho, em busca da mão do cadáver? Era maneta, concluirão ao cabo de algumas horas! E o que sucederá à mão que, ainda de anel no dedo, se manterá invisível? Apodrecerá, será comida por um cão que porventura a levará para casa mesmo nas barbas do dono... Os cães vão lá pelo cheiro e raramente são vistos a ler Tolkien!

Há ainda um aspecto social importante. Gastam as pessoas o seu salário em vistosas roupas, em adornos e atavios brilhantes com o fito único de a si chamar as atenções... e tudo para quê? Com o anel, tanto faz trazer fato de treino preto, verde e lilás (indumento vistoso e distinto) como um par de calças de boa fazenda e um pull-over aos losangos bem quentinho!

segunda-feira, agosto 28, 2006

Invisibilidades

Por apenas 60,00 € podes aquirir o anel da invisibilidade! O estojo é grátis!
(Portes não incluídos)

Introdução à "Blogue Intimista":

Há dezasseis ou dezassete anos atrás, quando li o "Hobbit" de Tolkien, estava eu de férias na praia com os meus pais, achei que o anel que o hobbit roubara ao bicharoco dava realmente muito jeito. Depois de ler esse livro fiquei, claro, viciado e não descansei enquanto não pus as mãos na triologia "Senhor dos Anéis" que li, acto contínuo, avidamente. Ao devorar essa grande aventura, algo de intrigante me assolou como se de um vento de Mordor se tratasse (lembro-me também de ouvir à data os infames "Running Wild", banda de heavy metal alemã, e a sua potente malha "Mordor"): para que raio se afadigou toda aquela gente em busca de um miserável anel cujo único poder era o de fazer invisível aos olhos dos mortais comuns o seu portador? Nem sequer o escondia do Senhor do Mal! Só dos anões, gnomos, homens e restante bicharada!

Já na altura me encontrava munido de sagaz espírito crítico, passando a minha habitual imodéstia, e achei tudo aquilo demasiado postiço. O aparato literário, muito visual, a criação de ambientes fabulosos e fortemente apelativos mais que compensava, não obstante, a notável fraqueza do argumento e a tibieza da mensagem. Em suma, Tolkien deu demasiada importância à invisibilidade, desequilibrando assim uma obra majestosa e de enorme beleza narrativa. Um portento da imaginação humana, não obstante, e o suporte para um imaginário imperecível de árvores que andam e elfos que são muito poderosos e belos quando lhes apetece.

Consultei para a primeira parte deste "Invisibilidades" a TPTS, a "Sociedade Tolkieniana das Filipinas" por a julgar fonte digna e à altura deste Meia Livraria.

(Em breve: "Quem quer ser invisível?")

terça-feira, agosto 22, 2006

Organização da Biblioteca e Cartas de Editoras

O leitor vai achar que, para uma livraria, este espaço está muito mal organizado. E tens razão, leitor. No entanto, combaterei esse suave caos com determinação e esmero e, em breve, terás todos os livros devidamente colocados nas suas prateleiras. Mantém-te, por isso, atento à coluna da esquerda do Meia Livraria.

Também nessa coluna aparecerão as editoras que me enviaram e-mails com os seus catálogos! Como deves ter reparado, leitor, o endereço electrónico deste espaço é meialivraria@portugalmail.com e, por artes que desconheço, o mesmo foi descoberto pela sagaz gente que faz os livros. Sagaz e sagrada. Se eu pudesse, caríssimos editores, comprava todos os vossos livros. Uns guardava, outros não, claro. Talvez queimasse alguns, como nos bons velhos tempos!

segunda-feira, agosto 21, 2006

Exercício Radiofónico

Shakira, a mulher com ancas sinceras!

Experimenta, leitor, o seguinte exercício: ao viajares no teu carro, em qualquer ponto do nosso país, tenta descobrir uma estação de rádio em que, no preciso momento em que empreendes este interessante exercício, se ouça a colombiana Shakira. Descobrirás, espantado, que em qualquer que seja a hora, o dia da semana ou a região do país que atravesses, não terás de testar mais que meia dúzia de postos! Tê-la-ás trinando "my hips don't lie!" e também tu, culto leitor, trautearás a doce melodia e gingarás as ancas, escudado na casca metálica que te oculta. Fica ainda sabendo, leitor, que, caso o desejes, podes viajar de Vila Real de Santo António a Caminha sempre acompanhado pela bomba colombiana! Non stop! Basta rodar o botão!

domingo, agosto 20, 2006

Técnicas de Atracção

Falar do Papa João Paulo II, já falecido, de concursos "miss t-shirt molhada", da feira do sexo de Barcelona, do Dan Brown e do seu código "da Vinci"... São formidáveis técnicas de atracção blogueira! O pavão estende o seu leque de penas coloridas e a pavoa, que pode fazer para além de se render?

Vou saber junto da equipa dos "Enresinados" se a técnica tem dado frutos! Vejam a lista dos seus "posts em destaque"! Brilhante! Nem as contas do défice lá faltam!

quarta-feira, agosto 16, 2006

Batota

O kit do moderno xadrezista!

A batota chegou ao nobre Jogo! Numa importante prova realizada nos Estados Unidos, houve quem ouvisse bem e usasse um auricular e, num quente dia de verão, vestisse uma pesada camisola. O árbitro, sagaz, pediu ao indivíduo que se deixasse revistar e ele... não deixou! Investigadas as suas partidas, descobriu-se que executou, numa delas, 25 lances que seriam exactamente os que um forte programa de computador jogaria se estivesse no seu lugar. Pelos vistos, estava!

domingo, julho 30, 2006

Caricaturas


Os Toranja são uma caricatura mal esgalhada do Jorge Palma. Do grande, enorme, genial, Jorge Palma. Têm a forma mas não têm o conteúdo. O ouvinte menos atento deixa-se enganar à primeira audição. Mas à segunda, ou, quanto muito, à terceira, dá-se com o constrangedor vazio: não há ali nada. Não há verdade nem sentir, não há sangue nem alma. Não há Palma.
Fazem-me lembrar um tema do Tom Waits: "I am big in Japan". Quem conhecer este tema percebe o que eu quero dizer. Quem não conhecer... bem... tanto faz!

sábado, julho 08, 2006

Até os Incêndios

Até os incêndios florestais pararam para ver Petit e companhia neste Mundial! Afastados sem glória, descarrilados à força pela reduzida dimensão física nacional e pelo nulo prestígio do país (só tínhamos prestígio emprestado por Scolari e Figo, que é deles e só deles), à frente de todos fomos assaltados e ninguém deu por nada. Nem os incêndios!

Foi com pena que assisti a mais uma derrota, desta vez frente à dupla Alemanha e Japão, reedição de vetustas alianças (já não bastava a outra, menos habitaul: Uruguai e França!) e a mais uma injustiça: vi a cerimónia da entrega das medalhas até ao fim e esperava ver no corredor humano de festejos a face risonha de Petit, com medalha ao peito, e a pequenita mas simpática figura do árbitro japonês... mas nada! Só alemães! Que injustiça, meus senhores!

domingo, junho 18, 2006

Mundial de Futebol e Audiências

O Meia Livraria não quer, nem pode, ficar de fora do grande fenómeno mediático e civilizacional que é, sem sombra de dúvida, o Campeonato Mundial de Futebol. Realizado na Alemanha, conta com a presença heróica da Selecção de Portugal, com o seu capitão Figo, o seu menino prodígio Cristiano Ronaldo (o favorito, disseram-me, de uma revista gay), o goleador Pauleta, enfim, os homens que fazem deste país algo do qual os seus habitantes se possam orgulhar.

Infelizmente, não disponho de fotos do Cristiano Ronaldo em poses atrevidas, nem do Figo, nem sequer do guarda-redes Ricardo. Sei que esse tipo de imagem teria agora um sucesso brutal na tremenda guerra de audiências, quer televisivas, quer blogosféricas. Aliás, o casal Cristiano Ronaldo e Merche Romero ocupou no coração dos portugueses o lugar de Lili Caneças e José Castelo Branco, dupla de sonhos, vinda de um mundo de coisas bonitas, de um mundo cheio de "glamour" e de bom gosto! Quem não vibrou com a plástica da Lili? Quem não se riu a bom rir da última tropelia do Zé? Mas agora há que dar o lugar às jóias que Cristiano comprou à Merche e aos fabulosos truques que o mágico da Madeira faz nos relvados alemães!

Que bonitos truques, aliás, são os de Ronaldo! Apesar de totalmente inconsequentes, de nada valerem para o resultado da equipa, apesar de ser um jogador a menos, é ele o eleito dos corações da petizada consumidora de Morangos com Açúcar e das senhoras de todas as idades e feitios, encantadas com a carinha laroca e físico atlético do moço! Ainda por cima, é politicamente correcto afirmarem-se dele fãs, mesmo em frente ao marido ou namorado que, cúmplice, não se importava que a patroa o traísse, desde que fosse com a boa rapaziada da Selecção!

No fundo, Ronaldo resume num homem só os dois maiores ícones dos últimos cem anos em Portugal, superando-os: tem a carinha laroca de um Tóni Carreira e o físico de um Tarzan Taborda! Grande Cristiano! Ditosa a pátria que tais filhos tem!

Para finalizar, uma palavrinha de apreço para o Scolari, o homem mais importante de Portugal. Foi graças a ele que Roberto Leal ressuscitou, forte e sadio, imaculado, e, com ele, a esperança renovada numa nação de gloriosos homens que, lá fora, enchem de honra o nosso país! E, acima de tudo, lhe dão, a ele, a Portugal, bom nome! Obrigado Scolari por ter desenterrado Leal! Não esqueceu esse homem o belo serviço que Roberto fez à sua pátria lusitana popularizando no Brasil cantigas tão nossas como "Uma casa portuguesa" e deixando no país irmão uma tão boa impressão de todos nós!

quinta-feira, junho 15, 2006

Coletes e Logística Avançada

Pela zona centro de Portugal, assiste-se nestes dias a uma nova invasão das hordas reflectoras: a berma da lendária nacional 1 transformou-se num imenso cordão humano, verde fluorescente, que se move como uma gigantesca lagarta da couve no sentido de Fátima. Vão visitar, novamente, Nossa Senhora de Fátima (NSF, doravante no texto)!

Os meus parcos conhecimentos de estatística permitiram-me, não obstante, calcular em cerca de meio milhão o número de almas encaixadas em coletes nesta estranha migração sazonal. O meu irrequieto e logístico espírito, sempre ávido pelo entender das coisas, apoquentava-me perguntando insistentemente: e onde fica esta gente aos serões? Caminharão sem parar, ad nausea, haverá oferta hoteleira que baste a este simpático exército à chinesa?

Encontrei a apaziguadora resposta nas minhas forçadas migrações, automobilizadas devo acrescentar, naquele canal cinzento escuro flanqueado pelas linhas verdes de que venho falando: a estrada nacional 1 entre Coimbra e Águeda. Cônscio da parca oferta hoteleira da região vi a luz em forma de carrinhas de 9 lugares, identificadas com papéis impressos ou escritos à mão com redonda caligrafia, onde se pode ler "Apoio a Peregrinos" e coisas quejandas. Pois é! Carregadinhas de sandes e sumos, essas sagradas carrinhas fazem da perigrinação uma espécie de lanche volante, aliviando o peregrino da pesada mochila com casqueiros e chouriçada! Nem o clássico e latiníssimo garrafão de vinho falta nesses abençoados veículos, porque esse tanto caminhar puxa pela pinga: verde tinto porque é Verão ou quase. E NSF não quererá as suas gentes sedentas e sem alegria!

Adivinho agora o resto da operação: munidos de um pau de giz ou de uma lata de tinta de marcação rodoviária, os motoristas em sagrada missão recolhem os seus 8 peregrinos (há que rentabilizar a viatura), escrupulosamente marcando no pavimento o exacto local em que as gentes em moderno auto-de-fé pararam de dar ao pedal, para usar uma engraçada expressão que também adivinho ser usada. Acto contínuo, lá rumarão os 9 em direcção à sua terra natal para regressar, no dia seguinte, ao ponto onde deixaram a santíssima caminhada.

Trata-se de um interessantíssimo exercício de investigação operacional determinar os consumos de gasóleo, os quilómetros percorridos pelas carrinhas, os pneus deixados nas massas betuminosas, os metros cúbicos de CO2 e quejandos gases maléficos largados para a pobre atmosfera! O autor terá, e disso suspeitava já o leitor, a veleidade de alvitrar uns números, em jeito de bitaite.

Assumindo uma distância entre as localidades de origem e o destino de 100 km e que os caminhantes percorram 20 km diários... e que andem no processo um número de carrinhas que se estima em 1/8 do número de peregrinos. Assuma-se que temos 200 000 almas em colete e teremos 25 000 carrinhas (ou viagens de carrinha, o que para o efeito tanto faz). No primeiro dia percorrerão 1 000 000 km (40 km cada), no segundo dia 2 000 000 km, no terceiro, 4 000 000 km e assim sucessivamente até ao quinto dia. Ter-se-á um total de 1 + 2 + 4 + 8 + 16 = 31 000 000 km percorridos. Vá lá que cada carrinha gaste 12 l aos 100 km... e temos 3 720 000 l de gasóleo queimado!

Quase tanto como o volume de cera derretida nos rituais!

domingo, maio 28, 2006

Fotos de Canalizadores!

Um surto de buscas por Togo invadiu o Meia Livraria no dia de ontem! Mas foi a demanda pelo canalizador que me encantou! Vou procurar e, caso encontre, afixarei por cá uma imagem de um canalizador, um trolha, um electricista, um picheleiro (para as meninas e bichanos do Norte), um carpinteiro de toscos, um embalsamador, um matador de galos e cabritos, um domador de leões, um polícia, um ladrão, um deputado da nação, um autarca, um vendedor de automóveis, um baterista, um violoncelista, um chefe de estação, um ferroviário, um servente, um guitarrista, um bate-chapas, um jardineiro...

Com isto conto assegurar a chegada às 100 000 visitas neste mês que agora finda!


27 May, Sat, 15:38:28 Google: abanito maria
27 May, Sat, 16:38:36 Google: Curiosidades sobre o Togo
27 May, Sat, 19:20:09 Google: imagens de Togo
27 May, Sat, 20:01:33 Google: cofragem deslizante
27 May, Sat, 20:28:43 Google: historia do galho de barcelos
27 May, Sat, 20:30:28 MSN Search: morra o bispo e morra o papa
27 May, Sat, 20:37:19 Google: curiosidades do togo
27 May, Sat, 20:42:03 Google: Curiosidades de togo
27 May, Sat, 20:43:17 Google Images: sporting clube portugal
27 May, Sat, 22:08:15 Google: duplas famosas
27 May, Sat, 22:51:48 Google: HISTORIA DE TOGO
27 May, Sat, 23:06:24 Google: Um monstro como topalov
27 May, Sat, 23:37:03 Google: Curiosidades de Togo
28 May, Sun, 00:21:20 Google: Curiosidades de togo
28 May, Sun, 00:28:17 Google: resumo do livro as aventuras de Robin Hood
28 May, Sun, 02:34:02 Google: livraria
28 May, Sun, 03:30:38 Google: curiosidades sobre togo
28 May, Sun, 03:32:20 Google: "HOMENS FRANCESES"
28 May, Sun, 10:50:57 Google: IMAGENS OU FOTOS DE CANALIZADORES

terça-feira, maio 23, 2006

Bagdad

No sofá, sobre a protectora manta, o casal comentava as notícias que via na televisão. Um atentado em Bagdad com um bombista suicida a fazer-se rebentar na esquadra da polícia, levando com ele um par de dezenas de almas, ofuscava as outras, as de Alzira e Josué, levando-as a um transe de horror.

Já viste isto, Josué? O mundo está perdido! É verdade, Alzira! Estes árabes são maus como tudo, concordou Josué. Ai se esta gente cá chega! Não hão-de chegar! (Josué disse "hadem", mas destruiria o inegável interesse literário do Meia Livraria)

A notícia passou e, com ela, a preocupação naquelas almas. Olha lá, Alzira, já falaste com a tua prima? Já: ela vai a pé desde Sebornelho até Leiria e daí de joelhos até Fátima. Deus queira que lhe saia o euromilhões, concluiu Alzira.

terça-feira, maio 16, 2006

MORRA O BISPO E MORRA O PAPA

JORGE DE SENA
MORRA O BISPO E MORRA O PAPA
(De "Visão Perpétua")

Morra o bispo e morra o papa.
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras.
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde.
maila toda fidalgula.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco.
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos.
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher.
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante.
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente.
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
(1964)

sexta-feira, maio 05, 2006

Bela Safra!

03 May, Wed, 20:07:11 Google: livro As Aves de aristofanes
03 May, Wed, 20:23:07 Google: livraria em catu
03 May, Wed, 21:55:45 Google: Platano
03 May, Wed, 22:21:41 Google: "Por Terras de Sabugal"
03 May, Wed, 22:43:30 Google: togo e curiosidades
04 May, Thu, 00:10:25 Google: internel condominio
04 May, Thu, 00:58:03 Google: pedro boucherie mendes
04 May, Thu, 10:30:34 Google: Camus e o sentido da existência - filosofia 11º
04 May, Thu, 11:03:47 Google: malhadinhas
04 May, Thu, 15:12:06 Google: polux lisboa
04 May, Thu, 15:23:37 Google: galho de barcelos mito
04 May, Thu, 15:50:58 Google: curiosidades togo
04 May, Thu, 17:58:22 Google: fatima lopes leiria fucking
04 May, Thu, 19:14:44 Google: Manchester united e seus monumentos
04 May, Thu, 20:39:24 Google: meia livraria
04 May, Thu, 21:15:54 Google: conto o alma-grande de miguel torga análise
04 May, Thu, 21:19:05 Google: Meia
04 May, Thu, 22:44:43 Google: curiosidades sobre Togo

Esperando, ter, de alguma forma, ajudado, obrigado pela vossa visita e inabalável confiança na humilde mas firme sabedoria do Meia Livraria!

domingo, abril 30, 2006

Frases



O Tom Waits terá dito a seguinte frase: "Nunca vi um cão mijar na roda de um carro em andamento."

Há formas piores de entender a vida.

quarta-feira, abril 26, 2006

Latinos

Um português é, como todos sabemos, um espanhol sem aquela graça que eles têm, sem aquele "salero". Um português também é uma espécie de italiano sem brio, sem o esmero que eles aplicam em tudo o que fazem.

Um português, no entanto, sempre tem mais esmero que os espanhóis, que são ainda mais grosseiros que nós, e muito mais graça que os italianos, que não têm qualquer espécie de sentido de humor.

Afinal, ser português não é assim tão mau. Ainda que me lembre sempre de Almada Negreiros: "Eu nunca escolhi ser português..."

terça-feira, abril 25, 2006

Dia da Liberdade



Hoje é o dia da Liberdade!

Tal como registado por:

1.Perdido;
2.Abrigo de Pastora;
3.Abaixo de Cão;
4.Chez Maria;
5.Almocreve das Petas;
6.Banzai;
7.A Coluna Vertebral;
8.Fuga para a Vitória...

e tantos, tantos outros blogues que me vejo forçado a desistir da hercúlea tarefa de a todos listar aqui.

Pelo menos na blogosfera, o "25 de Abril Sempre!" ainda faz sentido.

segunda-feira, abril 24, 2006

A Escola e o Malhadinhas

Naquele que é um dos meus favoritos passatempos _ cheirar o Extreme Tracker em busca das buscas que ao Meia Livraria trouxeram os leitores _ arregalei os olhos incrédulos ao perceber que uma bela fatia dos que visitam este espaço o fazem na demanda por "Malhadinhas". Investiguei e descobri que essa obra de Aquilino é leitura obrigatória nas escolas!


Introdução ao Estudo de O Malhadinhas — 10º/11º Anos
De Fernando Ferreira e Júlio Macedo: Leiam "mas é" estes senhores...






Tenho então uma farta comitiva de estudantes em busca de recensões ao "Malhadinhas", cifrando eles, porventura, nas cibernéticas inquirições a esperança de fazer a cadeira sem ler o livro. Alerto-os, no entanto, para a insuficiência desses esforços, recomendando a leitura da obra de Aquilino Ribeiro ou, esteja a vossa alma defesa a tal empresa, a continuação da demanda: O texto que aqui se encontra é inacadémico em sumo grado e não será seguramente ao gosto da vossa stôra. De qualquer forma, apareçam sempre!

sábado, abril 15, 2006

Sismo



Hoje assustei-me! O chão fugiu debaixo dos meus pés... Mas felizmente a coisa ficou por um empate a zero na Reboleira. Podia ter sido pior.

sexta-feira, abril 14, 2006

A Páscoa

Continuando a trabalhar na minha profunda e muito desejada análise do obra "A Peste", que prometo reatar, vou agora mudar de registo, adaptando assim o Meia Livraria ao carácter fragmentário do seu autor. Vou falar novamente da auto-estrada A1, que liga Lisboa ao Porto!

Sendo certo que esse tema é pedra basilar deste espaço, há muito que por cá não aparecia. O leitor perguntar-se-ia, intrigado: Será que o Cláudio ficou sem carta? Descanse o leitor, sempre ávido de histórias da A1, que ainda tenho a carta de condução, pesem embora duas contra-ordenações graves por excesso de velocidade, que exibo com orgulho parolo a quem quer que comigo fale de multas e polícias e brigadas e coisas quejandas.

Ombreando com o futebol, o tema "Estrada" é o tipo de conversa que desbloqueia os habitualmente entupidos canais de comunicação verbal entre os homens. "Então o nosso Sporting?" pergunta um. "Uma desgraça!" responde outro. "Não falemos disso então... Olha, sabes que há bocado, ali no nó da A13, estava um gajo encostado à berma! Os tipos da brigada vinham num BMW azul escuro carrinha!". E a conversa segue, trocando-se avistamentos de Audis pretos e radares ocultos em arbustos e rotundas sempre com a guarda à coca de balão em punho. "Quando um gajo bebe uns copos, o melhor é ir pelos cabos de Ávila..."

Não me esqueci do que ia a dizer sobre a mítica A1! Cá vai:

Ontem ao final do dia, ao rumar a Sul vindo de Coimbra, vi a Páscoa. Uma imensa lingua amarela, com centenas de quilómetros de comprimento. Dos pontos altos, vi-a claramente, longa e serpenteante, iluminando a noite que é sempre escura na A1! A língua movia-se silenciosamente levando os que fazem a vida ateia por terras de Lisboa e arrabaldes para a terra que se diz santa e onde a cruz aguarda, nas mãos do padre ou seminarista, pelos lábios, pintados uns, à sombra de bigodes outros, das nossas gentes. E essa língua longa, que se esconde por trás dos lábios que beijam a cruz, é, meus amigos, a Páscoa. É a morte de Cristo que veio para nos salvar.

terça-feira, abril 11, 2006

A Peste (Parte I)

“A Peste”, de Albert Camus

PARTE I

Nas primeiras linhas do texto, o autor, escrevendo no tempo presente, introduz a cidade onde se passa o caso que se conta, Orão na Argélia, e explica ao leitor como vai ser contada a história, apresentando a principal personagem, o médico Rieux. Originalmente, apelida-o de narrador e de historiador, acrescentando que, tal como os outros historiadores, este tem as suas fontes que necessariamente o suportarão na tarefa.

Já aos olhos deste narrador, surge o primeiro acontecimento insólito, a morte dos ratos, pressagiando o que aí viria e que o título da obra denuncia: A Peste. É, aliás, assim que termina a primeira parte da obra, com a declaração oficial do estado de peste em Orão. Isso após o surgimento dos primeiros casos em seres humanos e da rápida progressão dessas ocorrências. Na acção toma intensa e relevante parte o narrador Rieux que nos dá a sua visão e alguns juízos de valor, aqui se distanciando do papel “típico” de historiador, assumindo, ao fazê-lo, uma postura de Oliveira Martins que, suspeito, seria totalmente desconhecido para Camus.

Na primeira leitura que fiz do livro, em 1995, não tinha lido ainda “O Estrangeiro” (que li, salvo erro, imediatamente a seguir) e deixei escapar a primeira intertextualidade que detectei nesta segunda, a saber, a referência (na página 68 da minha edição “Livros do Brasil”) a um caso que fazia “barulho” em Argel: O assassinato de um árabe cometido por um jovem empregado de comércio. Sabe quem leu O Estrangeiro que essa é a face visível da obra, pelo menos de Orão. Esse assunto foi comentado por uma empregada da tabacaria, quando por lá passou Grand, um tipo estereotipado, ao jeito das personagens de Kafka: o conhecido amanuense ou mangas-de-alpaca. Com esse Grand, fez Camus trocadilhos à pata galharda, infelizmente perdidos na tradução portuguesa mas adivinháveis no original.

É Kafka quem aparece na segunda intertextualidade que encontrei: Cottard, um tipo suspicaz a quem Grand tirou da forca, lia num restaurante fino da cidade “O Processo”, facilmente identificável pelo enredo resumido com que Cottard explicou a obra a Rieux. Também essa intertextualidade me passou despercebida na leitura de 1995. Assim é a juventude!


Triunfo da Morte (1562), de Peter Bruegel.

segunda-feira, abril 10, 2006

Dúvidas e Certezas

Há mais de dois anos que mantenho este espaço. Pautei a minha produção por um elevado eclectismo, tentando, como sempre faço em tudo o que faço (é propositada esta duplicação), manter todas as portas abertas, não me limitando. Tentando que a minha dimensão a todos alcance, estico-me, alargo-me desmesuradamente. E nesse esforço impossível, desapareço na medianía, no nada conseguir. Querendo troianos e gregos, não terei nem uns nem outros. Primeira dúvida. Mas tenho-os, a vós, que me lêem agora. Primeira certeza. Porquê? Segunda dúvida.

Quase todos vós, os que visitam o Meia Livraria, me conhecem pessoalmente e fazem-no (conhecer-me) melhor que eu próprio. Lá saberão porque cá estão. Curiosidade, estima, amor, amizade, o que quer que seja, trá-los cá. Esta é a segunda certeza. Gosto de os ter cá, claro, mas isso é apenas um facto. Como e porquê prosseguir? Pouparia tempo aos que me querem se não mantivesse o Meia Livraria? Terceira dúvida.

Mantendo a atitude dos últimos dois anos perderei a presença dos intelectuais, grupo a que não pertenço; dos sábios do futebol, onde, também me não incluo; dos que fazem da blogosfera um espaço de troca de banalidades de café, onde, já adivinharam, também não me incluo; daqueles que se interessam pelo que ganham os juízes e deputados, eu, confesso, não quero saber; daqueles que têm vidas tão interessantes que se sentem na obrigação de as partilhar com o mundo, não é também o meu caso; dos que escrevem poesia como Pessanha e não querem esperar pela editora, de Pessanha nada tenho... Qual é o meu lugar? Para que raio escrevo eu? Quarta dúvida.

Faz-me, no entanto, falta este espaço. Mesmo escrevendo "post" atrás de "post" sem qualquer comentário... Está lá, à minha espera, fiel e calmo. É uma rede que o meu peso não rompe. Terceira e última certeza. 4-3. Perderam as certezas.

domingo, abril 09, 2006

Alguém Sabe?

E, assim, encalhados a meia distância entre estes abismos e estes cumes, mais flutuavam que viviam, abandonados a dias sem sentido e a recordações estéreis, sombras errantes que só poderiam ter ganho força aceitando criar raízes na terra da sua dor.

sábado, abril 08, 2006

Ainda Aquilino: Andam Faunos Pelos Bosques


Fauno, aguarela de João Bugalho.


Em "Andam Faunos pelos Bosques" deu-nos Aquilino uma obra erudita, polvilhada com sabedoria clássica, com reflexões ancestrais, nunca concluídas, sempre por resolver. Fala-nos do belo e do divino e, veladamente, de eugenia até. Mas também nos fala da relação entre o homem e o desconhecido, campo verde onde pastam as ovelhas da fé e onde, ao contrário do habitual, pastam também pastores.

Retrata magistralmente um conjunto de sacerdotes da douta igreja, sacudindo-os e analisando-lhes as vidas e a fé. São eles, os padres, que carregam o peso da narrativa. É através deles que Aquilino nos conta a história, passada nas serras da Beira e parcialmente na cidade de Viseu, de um conjunto de estranhas ocorrências.

Micas Olaia, chorosa camponesa, chegou à aldeia relatando o que lhe acontecera: fora desmoçada por alguém, ou algo, que irresistivelmente dela fez mulher. Não lhe batera, não a confinara, não a forçara. Antes a subjugara de forma inexplicável, nada conseguindo o vigilante Eu da pobre menina contra o outro Eu, aquele que, sempre escondido, determina acções e vidas. O caso seria banal não fora a profusão de quejandos episódios nas redondezas, em tempos próximos. A coisa evoluía e a misteriosa criatura deixou o seu rasto imoral pelas pedregosas veigas da serra.

A todos foi tocando o conjunto insólito de eventos. Organizaram-se montarias, acções concertadas entre os valentes aldeões e os sacerdotes, muito se rezou e muita batida pelos ermos se fez. Para nada encontrar ou evitar. Os acontecimentos repetiam-se escolhendo sempre as mais belas moças para vítimas. Todas sucumbiram entre a sensual, irresistível e telúrica força. Às feias, às desengraçadas, a essas só Deus queria.

Numa das montarias organizadas para dar caça à criatura, se apresenta Jirigodes, homem na meia e experiente idade, retornado em glória das Africas que, senhor de grandes qualidades másculas, se encarregou de liderar a operação. Jirigodes estava enamorado por uma belíssima catraia, cheia de sensuais visões da fé, que se decidiu entregar em sacrifício às garras da criatura, após insistente chamamento divino, em sonhos, de que deu conta ao pároco local. Assim o fez uma noite, num dos fortíssimos momentos desta obra, saindo de sua casa em sagrada e sensual missão. Regressada do sacrifício veio mudada: Chegara à Terra o Inefável, que viria plantar a sua semente pura nos ventres das mais belas mulheres. A humanidade apodrecida e desviada, decadente, cheia de aleijões e mostrengos, seria varrida pela onda que se iniciara agora, enchendo-a de beleza.

O tal Jirigodes, homem de grande orgulho e vaidade, não se deixa convencer e vai para a serra, esperar o causador de tamanha afronta. Leva Barnabé, o maluquinho, que se torna na segunda estrela de um dos mais brilhantes firmamentos da nossa literatura: A espera de Jirigodes. Sabe o leitor o desfecho do episódio pelas conversas dos padres que se reunirão, na última parte do livro, em Viseu. Aparece então a teoria clássica que ressuscita a imagem do fauno. Aparece depois a católica teoria demoníaca. O duelo entre as duas "escolas", defendidas cada qual por um punhado de padres, acaba saldado por uma intervenção de um outro padre num discurso absolutamente formidável que constitui uma das mais claras e racionais definições de fé.

É neste último ponto que a obra descola do simples romance para alturas estratosféricas, de ar rarefeito e propícias a toda a sorte de vertigens: a falta de oxigénio e a distância ao solo esmagarão o mais sólido dos leitores.

quarta-feira, abril 05, 2006

Provérbios Modernos

1.Sempre que vires um suiço com carapinha bem escura e forte, morenaço, com farto bigode e cachecol do Benfica, fica de pé atrás. Pode ser um suisso. Ou um emigrante português.

2.O polícia nunca põe o radar em subidas.

3.Nunca confies num parquímetro avariado. Pode ter sido o tipo da EMEL a inutilizá-lo temporariamente, para te entalar.

terça-feira, abril 04, 2006

A Primeira Pedra

Quem nunca "arreou a giga" que atire a primeira pedra! E qual de vós nunca "foi aos arames" nem "cagou o tremoço"? Já para não falar dos onânicos apertos a pescoços de ganso... Também há necessidade, por vezes de "soltar a franga" ou "pintar a manta"!

Foi o que apeteceu fazer agora: "cagar umas postas de pescada"!

quarta-feira, março 29, 2006

Perseguindo Aquilino: O Malhadinhas

Nesta famosa obra de Aquilino Ribeiro se conta a vida do Malhadinhas, homem da Beira Alta, almocreve de profissão. Do berço à cova, todas as suas aventuras são contadas em estilo galhardo e solto, recorrendo a expressões populares bem pesadas pela mão do mestre. Aliás, a dose certa é o que mais impressiona nesta obra: quer na velocidade dos eventos, quer na ponderação do discurso, ora popular, ora erudito. Nuinca deixa Aquilino de escrever magistralmente, temperando sempre o verbo com o sal da terra e dos costumes e das gentes.

Há um grande debate moral em toda a história. Talvez seja esta a mensagem da obra, a relativização dos conceitos morais e civilizacionais: o gesto bárbaro que, circunstancialmente se torna aceitável (lembro-me da violação daquela que viria a ser a mulher de Malhadinhas), em passos que trazem o cunho da verosimilhança. Excepção feita talvez ao exemplo que deixei entre parentesis: pelo que Aquilino deu da mulher de Malhadinhas antes do episódio do rapto, nada indicaria a conformação da mesma, registada no subsequente enredo, nem, muito menos, o amor que, pelo dado posteriormente, seria de solidez granítica.

Talvez resida aí, nessa excepção, uma intenção do autor em mostrar a vanidade dos conceitos românticos e lamechas: pode ser uma reflexão sobre a ligação entre o idealizado e o real, que por vezes trocam de papéis. Nem sempre é o real caminho para o ideal, transmutar-se-á amiude o que sucede, o real, em pré-sonhado. Assim se convencerão as almas trocadas, assim se acomodarão, naquele movimento eterno da alma humana, entre o sonho e o real, entre o real e o sonho. Talvez seja este episódio o mais significativo da obra, o tema fulcral.

É da Vida que trata a obra, mas dizê-lo é nada dizer. Dos pormenores, das subjectividades, dos valores, da resistência ao determinismo, de tudo isso, em partes distintas, pulsa o texto. A honra será pedra basilar da alma de Malhadinhas, mas a sua concepção do divino, pagã como a terra que é Portugal, fervorosa e beata também, manifesta-se com vulto. O padre, figura omnipresente neste Portugal, amigo de Malhadinhas, o casamento, tudo se espalma pelas páginas soberbas.

Mas resuma-se a acção. Malhadinhas nasce na aldeia do distrito de Viseu, com poucas ou nenhumas letras se faz almocreve. Nos caminhos e com os amigos que são muitos, aprende a lidar com a navalha e com o pau. Avança pelo tempo, e, entre voltas a Aveiro, joga ao pau com um brutamontes, encantando uma cachopa que, por amor a outra, prima direita ajuramentada, deixa ficar com o coraçãozinho em brasa.

Pouco depois, desconfiado da quebra de resistência da prima prometida, acossada pelos ataques de um abade novo e galã, embarca numa brutal aventura, raptando a renitente prima, fugindo a macho pelos campos, em busca do padre amigo que os casaria. Pelo caminho, viola a chorosa moça, marcando-a e isso mesmo revelando ao tio, que dela era pai, ao abade e à chusma que os perseguia assim que encurralado. Por artes de tiro e de manha, galopa até ao cura que lá os casou. E, reza o resto da história, viveram felizes para sempre.

Lá continuou Malhadinhas a sua vida de almocreve violento até que, pelas alminhas lhe pediu a mulher que deixasse a navalha e o pau em paz e que se fizesse homem sério. Já pai do primeiro de dezanove filhos, que era uma menina, penso eu, o homem bravo lá acedeu. Posto à prova por várias vezes, lá se foi amanhando, combatendo entre a jura e a honra, sempre se safando airosamente. Grande Malhadinhas!

Não podiam faltar as grandes amizades e também aqui, por entre aventuras heróicas se deu e recebeu no altar da fraternidade. Sempre crente e justo, sempre honrado e duro, sempre o Malhadinhas. A brutalidade inicial perdeu o seu fulgor com o avanço nas páginas sem nunca desaparecer por completo. Teve ainda fôlego para justiçar uma neta acossada, substituindo o relapso filho no papel de castigador: limpou o sarampo ao sacripanta.

Lidou com histórias de cornos, educou homens que deixavam as calças à porta, levando um tipo a sovar a mulher que, por isso mesmo, o passou a respeitar. Moralizou à sua maneira, envangelizando no são e puro a labregada.

Corajoso até à morte, às portas da qual, não fora a sageza da mulher e, mesmo aí, lhe rebentaria os miolos com uma espingarda para que dela não se gozasse ninguém após a sua ida. Monstruoso no fim como no princípio. Não o quis a sorte porque não morreu após o episódio, para durar mais uns anos em sossego.

No fundo, Aquilino criou um animal selvagem que tentou segurar durante o texto, num genial exercício literário: Soltou a besta Malhadinhas nas primeiras linhas do texto e foi, a custo, segurando-a dentro dos limites aceitáveis nisto do viver dos bons homens, sem a manietar ou fragilizar. Manteve o demónio saltitante e a golpes de asa auto-impostos, conseguiu o mestre contar a história até ao fim, sem solavancos nem buracos na estrada. E fazê-lo está ao alcance de um limitadíssimo grupo de corpos celestes. Onde pontua Aquilino, cintilante, ao lado deste seu Malhadinhas: Afinal de contas, um bom diabo.

domingo, março 19, 2006

Aquilino Ribeiro

Eis um resumo da vida de uma das maiores figuras das letras portuguesas. E uma das mais injustiçadas:

1885 - Nasce no Carregal (concelho de Sernancelhe) em 13 de Setembro. É baptizado na Igreja Matriz dos Alhais (Concelho de Vila Nova de Paiva).

(Nota: Sendo filho de padre... foi a baptizar longe da paróquia própria.)

1895 - Frequenta o Colégio da Lapa. Faz exame de instrução primária.

1900 - Entra no Colégio Roseira, de Lamego. Estuda Filosofia em Viseu. Entra depois no Seminário de Beja.

1903 - Abandona o Seminário de Beja e fixa-se em Lisboa.

1904 - Regressa a Soutosa.

1906 - Vai para Lisboa. Convive com os meios literários e revolucionários e colabora em jornais.

1907 - É preso e acusado de bombista.

1908 - Evade-se da prisão e foge para Paris.

1910 - Estuda na Faculdade de Letras da Sorbonne. Vem a Portugal e regressa a Paris, onde conhecera Grete Tiedemann.

1912 - Reside alguns meses na Alemanha.

1913 - Casa com Grete Tiedemann e regressa a Paris. Publica o primeiro livro Jardim das Tormentas.

1914 - Nasce o primeiro filho Aníbal. Declarada a guerra Aquilino regressa a Portugal, sem ter terminado a licenciatura.

1915 - É colocado como professor no Liceu Camões.

1918 - Publica A Via Sinuosa.

1919 - Entra para a Biblioteca Nacional, a convite de Raul Proença. Convive com o chamado grupo da Biblioteca onde pontificam Jaime Cortesão e Raul Proença.
Publica Terras do Demo.

1921 - Integra a direcção da revista “Seara Nova”.

1922 - Publica O Malhadinhas integrado no livro Estrada de Santiago.

1927 - Entra na revolta de 7 de Fevereiro, em Lisboa. Exila-se em Paris. No fim do ano regressa a Portugal, clandestinamente. Morre a primeira mulher.

1928 - Entra na revolta de Pinhel. Encarcerado no presídio de Fontelo (Viseu), evade-se e volta a Paris.

1929 - Casa com D. Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado.
Em Lisboa é julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.

1930 - Nasce-lhe o segundo filho, Aquilino Ribeiro Machado.

1931 - Vai viver para a Galiza.

1932 - Volta a Portugal clandestinamente.

1933 - Recebe o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pelo seu livro As Três Mulheres de Sansão.

1935 - É eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

1946 - Publica Aldeia. Terra, Gente e Bichos.

1951 - Publica Geografia Sentimental.

1952 - Faz uma viagem ao Brasil onde é homenageado por escritores e artistas, na Academia Brasileira.

1957 - Publica A Casa Grande de Romarigães.

1958 - Publica Quando os Lobos Uivam. É nomeado sócio efectivo da Academia das Ciências.

1960 - É proposto para o Prémio Nobel da Literatura.

1961 - Vai a Londres e Paris.

1962 - Nasce-lhe a primeira neta, Mariana, a quem dedica O Livro da Marianinha.

1963 - É homenageado em várias cidades do país por ocasião dos cinquenta anos de vida literária. Morre no dia 27 de Maio. Nessa mesma hora, a Censura comunicava aos jornais não ser mais permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas.

1972 - É publicado o livro de memórias Um Escritor Confessa-se.

quinta-feira, março 09, 2006

O Cavalheiro

No restaurante, o cavalheiro que acabara o prato principal da refeição, chamou o empregado, sujeito muito simpático, e pediu-lhe, para sobremesa, uma laranja. O empregado, minutos depois, apareceu com uma laranja descascada e cortada às fatias, pedindo-lhe, acto contínuo, o cavalheiro um pacote de açúcar. O empregado, mantendo-se simpático, trouxe o pacote de açúcar mas advertiu que uma laranja daquelas, tão docinha, teria tanta necessidade de açúcar como de água o mar.

Assim advertido, o cavalheiro esboçou um sorriso e, ao ver as costas do empregado, provou uma pequena rodela do sumarento fruto. Amarguíssima, concluíu o cavalheiro que pegou sorrateiramente no pacote de açúcar e o espalhou com destreza sobre os discos de laranja.

Concluída a operação, ocultou o pacote vazio e, chamando de novo o empregado, pediu-lhe café. Chegada a chávena de café, que o cavalheiro bebeu sem açúcar, trocou os pacotes, pondo o vazio no pires do café e o cheio junto ao prato da laranja. Pedida a conta, comentou com o empregado: "Era, de facto, dulcíssima, esta laranja!"

Satisfeito, o cavalheiro despediu-se do empregado, que lhe retribuíu o gesto cortês.

segunda-feira, março 06, 2006

Procura-se




Graças ao serviço prestado pela "eXTReMe Tracking" descobri que vem rapaziada ao Meia Livraria em busca de:

1. mapa almada velha rua afonso galo
2. livraria natal
3. nuno gomes fumador
4. vasco lourinho
5. efeito laranja nicolau breyner
6. "revista gina"
7. familia Solnado
8. pasteis Mangualde
9. a emigração após o 25 de abril até às decadas de 80
10. polux lisboa baixa
11. toni carreira data nascimento
12. EMBALSAMAR
13. marques dos leitões
14. judeus Angola Granada
15. GREVE DE 1907
16. polux loja
17. jacques brel amsterdam
18. toques para telemovel de morangos com açucar
19. carnaval da malveira da serra

Os meus favoritos são o 18, 19, 11 e, talvez o mais brilhante, o 3. Espero que os leitores que aqui buscaram respostas a estas questões as tenham encontrado neste humilde espaço! Sinto-me honrado por merecer a vossa confiança!

domingo, março 05, 2006

Teoria Política Avançada

Existe uma grande diferença entre os que são de esquerda e os que são de direita: Os últimos gastam o seu dinheiro dentro de casa; os primeiros, fora dela. E explica-se: Os de direita, como são muito importantes para-si, concentram-se no seu mundo particular, na sua capelinha, na sua casinha. Os de esquerda, relativizando a sua importância no mundo, dividindo-a com os outros, gastam os seus trocos em bens que possam partilhar com o resto do mundo. Partilhar, bem entendido, como fazia Robin dos Bosques, que roubava aos ricos para mostrar aos pobres.


Richard Greene foi o verdadeiro Robin Hood! Um autêntico Homem de Esquerda.

sábado, março 04, 2006

"Manifiesto por la Lectura"

Podemos comenzar diciendo con Brecht: ¡malos tiempos aquellos en los que hay que luchar por lo evidente! Lo evidente es que las personas somos habla, lenguaje, pensamiento, y que aquellos que crezcan sin el dominio de los recursos que han forjado siglos de cultura no serán ni siquiera hijos de este milenio. Estamos hablando, claro está, de la lectura.

En el sistema educativo, los alumnos que sean malos lectores tendrán dificultades para seguir las asignaturas, y no sólo las humanísticas. El enunciado de un problema de Física, la exposición de un teorema matemático, la descripción de un proceso biológico: todo es texto, texto que exige decodificación, comprensión, asimilación; en una palabra: lectura.

La escritura, en toda su complejidad (ortografía, construcción, puntuación, ...), tiene la mitad del camino recorrido en los alumnos lectores, que habrán absorbido naturalmente en el contacto con los textos los principios que habrán de guiar su producción escrita. La misma expresión oral, que en sus pausas y entonación debe transmitir la estructura del pensamiento, tiene en los buenos lectores una base eficaz: el texto bien leído es el trampolín de la palabra.

Forjar la habilidad de lectura en los ciudadanos del mañana es una responsabilidad compartida entre las familias y el sistema educativo, y de este último allá donde las familias no puedan llegar. Es en la escuela donde los más jóvenes van a tener que forjar sus habilidades lectoras, y los que salgan de ella sin haber adquirido un buen dominio de la lectura arrastrarán esa deficiencia el resto de su vida.

Saber leer bien implica en el adulto no sólo poder disfrutar una obra literaria (como de forma reduccionista suele pensarse) sino también --o sobre todo-- saber extraer la información de la prensa, de un contrato, de un texto técnico, de un manual... Una sociedad que exige de sus miembros la “formación a lo largo de la vida” no puede ignorar cuál es la vía privilegiada por la que van a llegar los conocimientos a sus ciudadanos...

Las tecnologías actuales han vuelto a situar la escritura en el centro de la comunicación: no sólo para la creación y el contacto entre personas (la pluma como “lengua del alma” en Cervantes), sino también para trabajar y colaborar en la distancia. De nuevo, los adultos lectores tendrán una clara ventaja.

Los últimos años han visto un esfuerzo sin precedentes para la democratización de la cultura a través de la Red: ¿tendremos las mejores bibliotecas del mundo a un clic de distancia y los ciudadanos no podrán acceder a ese tesoro?

Queremos escuelas que preparen a los ciudadanos del mañana através de la lectura.

Queremos escuelas donde se aprenda a leer textos de todo tipo: literarios, científicos y técnicos.

Queremos escuelas donde la lectura en voz alta prepare a los alumnos para tomar la palabra como ciudadanos.

Queremos escuelas que suministren en sus bibliotecas los elementos básicos para que todos los alumnos, con independencia de su situación familiar, puedan tomar contacto con los libros.

Amamos la lectura porque creemos, con Emilio Lledó, que “somos palabra, somos lenguaje”, y seremos ciudadanos incompletos si no dominamos la práctica que alimenta nuestra palabra interior y la despliega en el mundo.


Madrid, 30 de noviembre de 2005
(Asociación Nacional de Editores de Libros y Material de Enseñanza)

terça-feira, fevereiro 28, 2006

O Carnaval e a Graça de Deus

Hoje é Carnaval, dia de grande folia e rambóia, de compulsiva animação e imposto divertimento. Ao frio e à chuva dança-se o samba um pouco por todo o país. Felizmente estão bem identificadas as áreas onde tal sucede, para que não tope o passeante sempre incauto com semelhante auto de fé.

Com a crescente comunidade brasileira em Portugal, nasce um novo fenómeno: A incansável paródia nos apartamentos onde vivem! A inesgotável energia tropical, ao som de Daniela Mercury e Netinho! Eu, com a Graça de Deus, vivo num prédio que não tem brasileiros! Pude assim deixar passar, suave como água rápida em rio manso, a extraordinária Felicidade que o Carnaval traz.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

O Capablanca e os Blogues

O grande campeão mundial de Xadrez dos anos 20, o cubano José Raúl Capablanca, disse, algures na sua fase decadente, que o Xadrez se finaria. Teria os dias contados, reduzido a uma espécie de jogo do galo, onde o empate seria o resultado esperado entre os melhores jogadores.

O Tempo não lhe deu razão. Empata-se hoje menos que nos anos 30, o Xadrez é mais vivo e combativo. Nem os computadores, que seriam o novo canto do cisne do milenar Jogo, fizeram mossa que se visse no Xadrez.

Por isso sinto-me desconfiado sempre que julgo estarem os blogues condenados à mediocridade e desaparecimento. Lembro-me sempre do Capablanca. Nestas, e noutras, ocasiões.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Ainda o Pina

Há, no entanto, uma abordagem ao blogue-diário bem diferente daquela com que o Pina generaliza a questão: Há muitos blogues essencialmente auto-centrados em que o autor ou autora expressa apenas os acontecimentos realmente notáveis da sua existência. Usa para tal um crivo próprio, muitas vezes bem calibrado, que torna a leitura interessante e que dilata a cosmovisão do leitor. Provavelmente, Pina conhece apenas os blogues vulgarotes e cheios de cotão de umbigo. Teve azar, o Pina.

Outros há ainda que versam o comum, em que os autores partilham a sua visão da coisa pública, dos eventos nacionais e internacionais, com maior ou menor habilidade e aptidão. Há-os bons e maus, também aqui. Pina não teve a sorte de os ler.

Há ainda os outros, que falam de música e de livros, de teatro e de cinema, de arte e cultura em geral. Talvez sejam estes os blogues técnicos a que Pina se refere.

Um outro grande grupo de blogues é aquele que contém a vatalhada: Uns coligem poemas de gente conhecida, em português, inglês ou francês. Raros são os que reproduzem poesia em alemão ou russo. Nesse grupo vive ainda um grupo sinistro de versejadores, com rima emparelhada ou cruzada, quadristas ao gosto popular, que expressam em verso a sua visão da bela e nobre arte da poesia, munidos de boa vontade, mas enfermando de grave falta do mais elementar bom gosto. Entre os blogo-poetas outros há que abordam o verso livre e a nova poesia com vetusta pós-modernice, trilhando os ultrapassados caminhos da violação do cânone, pensando ser nova a sua audácia, mas que cheira, nos melhores casos, a naftalina. No entanto, é o inconfundível cheiro a mofo que, na maior parte das vezes, perfuma a sua poesia.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O Pina

O José de Pina, tipo careca e anguloso, jovem e secamente humorado, dono de uma voz pausada e de arrastos eloquentes com tendência a rachar, é o homem, ou um dos homens, do "Contra-Informação". Aparece agora muito pela pantalha, fazendo parte do elenco fixo de um programa da SIC Radical com o Alvim, ídolo de massas juvenis, e com outros que não conheço. Vi-o uma ou duas vezes e, numa delas, definiu os blogues como algo escrito por pessoas que "têm qualquer coisa cá dentro e querem contar ao Mundo".

Num tom jocoso, definiu o bloguista como alguém que conta aos outros que comeu uma sopinha muito saborosa no restaurante tal, que partilha com a blogosfera a dor de cabeça que o apoquentou na noite anterior, etc. Os exemplos que deu não foram estes, foram outros, mas a ideia é esta. Falou ainda dos blogues técnicos, como o dele (que não conheço), algo que se situa próximo da figura maior da "internet", o "site".

Concordo parcialmente com o Pina. Há por aí muito blogue virado para o umbigo, de gente que julga a sua vida particularmente interessante para a humanidade. Concordo até com o tom jocoso de Pina ao referir-se a essa malta que enferma, seguramente, de disfunções na capacidade de auto-posicionamento e que, por ignorância ou deformação do Eu, se considera suficientemente peculiar para que publique a sua vidinha na blogosfera.

Esse é, aliás, o conceito primeiro do blogue: Uma espécie de diário partilhado. Mas, não raro, evoluem as coisas para além do conceito inicial.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Deriva

Por ora fica o Meia Livraria à deriva. Até que veja, da gávea, eira ou beira que possa ter.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Alegre PRD

Alguém notou que os votos do Alegre são da mesma natureza que os do extinto PRD? Pomposos e vazios?

domingo, janeiro 22, 2006

Comemoração

O Meia Livraria faz hoje, dia 22 de Janeiro de 2006, 2 anos e 12 dias de vida! São 742 dias de existência! É sabido que estas datas especiais devem ser sempre comemoradas (lembrar uma das andanças do demónio de Jorge de Sena, a "Comemoração" do Gustavo Dores) e por isso mesmo aqui fica a nota e a expressa alegria do autor deste humilde blogue pela vossa assídua visita ao longo destas mais de 15000 horas de presença blogosférica. Contas feitas, com mais de 30000 visitas, temos um leitor de meia em meia hora. E o resto é conversa!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

O Regresso

Já repararam que a baixa pombalina corre para o rio? E que se fragmenta em mil pedaços, sem ligação aparente, a Norte? Nunca repararam que a Rua da Madalena é uma espécie de fosso que separa a cidade de Pombal e a outra, a verdadeira? E, por último: Onde está a fábrica da seda das Amoreiras?

Então porque raio sonhamos todos com o regresso do Marquês de Pombal? E, porque raio nos congratulamos, povo sério e pesado, com o seu anunciado regresso já no próximo domingo?


É para isto que o queremos de volta?

sábado, janeiro 14, 2006

Barreiros, Lagartos e Fragateiros

Na sequência do caso Teatro Dona Maria II, Zita Seabra opinou sabiamente, num acto que a todos surpreendeu! Sagaz, pegou a dissidente nas intenções de Isabel Pires de Lima e seus acólitos e sugeriu Quim Barreiros para director do citado Teatro. E boa lembrança teve a Zita, se é dramaturgia nacional e boas receitas de bilheteira que quer o governo, o autor de "Quero Cheirar Teu Bacalhau" seria o homem indicado.

O Lagarto tem a mania que é intelectual, terá pensado Isabel Pires de Lima, o Quim Barreiros é muito caro, talvez nem os 6000 euros lhe chegassem, e há aquele rapaz, o Fragateiro, que é baratucho, trabalha pelo mesmo que Ricardo Pais, e é homem para encher a casa! Afinal de contas, o que importa é isso mesmo: apoiar a dramaturgia nacional e encher os cofres do estado! Ainda hoje Isabel Pires de Lima se interroga: Por que raio estão esses artistas tão revoltados?

Zita sugeriu Barreiros. Ninguém se lembra do La Féria?


"Será que ninguém me compreende?"

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Pérolas

Mário Soares foi a Gondomar. Chamou Lourenço ao Loureiro e despromoveu-o: era Major, Soares fê-lo Capitão. Como ficasse o de Gondomar agastado, subiu-lhe Soares a patente ao despedir-se: Adeus senhor Comandante, disse.

Agradecido, Loureiro ofereceu-lhe 2% dos eleitores portugueses.

Obrigado Loureiro e obrigado Soares!

terça-feira, janeiro 03, 2006

Os Galardões do Almocreve

Uma vez mais, lá fui ao Almocreve, em busca dos seus galardões. Esperançoso, escrutinei com nervosismo as famigeradas distinções, para descobrir, novamente, que o Meia Livraria estava de fora do grupo de blogues eleitos. Ainda não foi desta, pensei. Preparava-me para voltar a esta humilde casa, indistinta, quando apanhei um inesperado susto: O Almocreve retirara-me da sua lista de blogues! Falso alarme, apenas, concluí: Os nervos tinham-me traído! Aliviado e feliz, regressei ao Meia Livraria e escrevi este artigo.

Equaciono agora a hipótese de criar aqui um "top" de blogues. Nele exluirei, evidentemente, o Meia Livraria, e, magnânimo como sempre, incluirei em lugar de destaque o Almocreve das Petas!


Assim se sentem os excluídos! (Roubado ao próprio Almocreve)

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Bom 2006!

Ora aqui está um "post" à borla! Sem conteúdo, sem imaginação, sem trazer nada de novo, sem qualquer esforço e, no entanto, útil e necessário: Bom 2006 para todos os leitores do Meia Livraria!