sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Ainda o Pina

Há, no entanto, uma abordagem ao blogue-diário bem diferente daquela com que o Pina generaliza a questão: Há muitos blogues essencialmente auto-centrados em que o autor ou autora expressa apenas os acontecimentos realmente notáveis da sua existência. Usa para tal um crivo próprio, muitas vezes bem calibrado, que torna a leitura interessante e que dilata a cosmovisão do leitor. Provavelmente, Pina conhece apenas os blogues vulgarotes e cheios de cotão de umbigo. Teve azar, o Pina.

Outros há ainda que versam o comum, em que os autores partilham a sua visão da coisa pública, dos eventos nacionais e internacionais, com maior ou menor habilidade e aptidão. Há-os bons e maus, também aqui. Pina não teve a sorte de os ler.

Há ainda os outros, que falam de música e de livros, de teatro e de cinema, de arte e cultura em geral. Talvez sejam estes os blogues técnicos a que Pina se refere.

Um outro grande grupo de blogues é aquele que contém a vatalhada: Uns coligem poemas de gente conhecida, em português, inglês ou francês. Raros são os que reproduzem poesia em alemão ou russo. Nesse grupo vive ainda um grupo sinistro de versejadores, com rima emparelhada ou cruzada, quadristas ao gosto popular, que expressam em verso a sua visão da bela e nobre arte da poesia, munidos de boa vontade, mas enfermando de grave falta do mais elementar bom gosto. Entre os blogo-poetas outros há que abordam o verso livre e a nova poesia com vetusta pós-modernice, trilhando os ultrapassados caminhos da violação do cânone, pensando ser nova a sua audácia, mas que cheira, nos melhores casos, a naftalina. No entanto, é o inconfundível cheiro a mofo que, na maior parte das vezes, perfuma a sua poesia.

5 comentários:

O Micróbio disse...

"No entanto, é o inconfundível cheiro a mofo que, na maior parte das vezes, perfuma a sua poesia"... cuidado com as generalizações! Bom fim de semana! :-)

Cláudio disse...

Na frase citada digo "na maior parte das vezes". Nunca se generaliza assim!

Musas Esqueléticas disse...

Ah, ainda bem, sempre poderei julgar-me a salvo do mofo na menor parte das vezes :) Escrevi poderei, não escrevi posso, o rigor da língua na dubitativa modéstia de um futuro sem futuro que é a poesia.

rduarte disse...

Passei por aqui sem querer mas não resisto a um pequeno comentário.

Acho o Pina um excelente profissional. Ouvi isso no Prazer dos Diabos e acho que o objectivo era apenas o humor.

No entanto, a minha opinião sobre este assunto serve para ambos:

Os blogs são simplesmente uma ferramenta para escrever. Pela sua facilidade vieram democratizar os meios de comunicação tradicionais: são de borla, fáceis de configurar, sem entrevistas de emprego, sem envio de textos para redacções, sem aprovações.

Um génio literário pode manter um blog, bem como um mecânico, um padeiro ou um informático (como no meu caso).

Não precisas de saber escrever crónicas como o Miguel Esteves Cardoso ou o V. P. Valente para poderes dar a tua opinião sobre o que quiseres, até porque muitos intelectuais ainda não perceberam que há muita gente que nem compreende essas crónicas.

Tudo isto é válido, e desde que não imponhas o que escreves a ninguém, ninguém te pode impor o que deves escrever.

Para muitos intelectuais isto pode parecer perigoso – concorrência desmedida! Esquecem-se do mais importante: só se tiveres algo interessante para dizer ou mostrar é que alguém vai ver o teu blog. A qualidade acaba sempre por sobressair - mesmo no meio de grande quantidade.

Se calhar os intelectuais ainda não realizaram que “os outros”, independentemente de saberem ou não escrever, também tem ideias, e que não existe relação entre a qualidade da escrita e a qualidade do pensamento.

- Eu até tenho um Moleskine - :)

Cumprimentos

Ricardo Duarte
www.contraditorio.com

Anónimo disse...

Excellent, love it! »