terça-feira, abril 11, 2006

A Peste (Parte I)

“A Peste”, de Albert Camus

PARTE I

Nas primeiras linhas do texto, o autor, escrevendo no tempo presente, introduz a cidade onde se passa o caso que se conta, Orão na Argélia, e explica ao leitor como vai ser contada a história, apresentando a principal personagem, o médico Rieux. Originalmente, apelida-o de narrador e de historiador, acrescentando que, tal como os outros historiadores, este tem as suas fontes que necessariamente o suportarão na tarefa.

Já aos olhos deste narrador, surge o primeiro acontecimento insólito, a morte dos ratos, pressagiando o que aí viria e que o título da obra denuncia: A Peste. É, aliás, assim que termina a primeira parte da obra, com a declaração oficial do estado de peste em Orão. Isso após o surgimento dos primeiros casos em seres humanos e da rápida progressão dessas ocorrências. Na acção toma intensa e relevante parte o narrador Rieux que nos dá a sua visão e alguns juízos de valor, aqui se distanciando do papel “típico” de historiador, assumindo, ao fazê-lo, uma postura de Oliveira Martins que, suspeito, seria totalmente desconhecido para Camus.

Na primeira leitura que fiz do livro, em 1995, não tinha lido ainda “O Estrangeiro” (que li, salvo erro, imediatamente a seguir) e deixei escapar a primeira intertextualidade que detectei nesta segunda, a saber, a referência (na página 68 da minha edição “Livros do Brasil”) a um caso que fazia “barulho” em Argel: O assassinato de um árabe cometido por um jovem empregado de comércio. Sabe quem leu O Estrangeiro que essa é a face visível da obra, pelo menos de Orão. Esse assunto foi comentado por uma empregada da tabacaria, quando por lá passou Grand, um tipo estereotipado, ao jeito das personagens de Kafka: o conhecido amanuense ou mangas-de-alpaca. Com esse Grand, fez Camus trocadilhos à pata galharda, infelizmente perdidos na tradução portuguesa mas adivinháveis no original.

É Kafka quem aparece na segunda intertextualidade que encontrei: Cottard, um tipo suspicaz a quem Grand tirou da forca, lia num restaurante fino da cidade “O Processo”, facilmente identificável pelo enredo resumido com que Cottard explicou a obra a Rieux. Também essa intertextualidade me passou despercebida na leitura de 1995. Assim é a juventude!


Triunfo da Morte (1562), de Peter Bruegel.

3 comentários:

Anónimo disse...

Gostava de te ter conhecido no tempo da escola secundária, devias ser óptimo a fazer resumos dos livros que tinhamos que ler.
Na altura, certamente, os teus textos seriam mais rudimentares, mas já devias demonstrar grande aptidão para retirar os excertos mais importantes do conteúdo do livro, que faziam entender a "trama" sem grande esforço. Tu eras daqueles que liam os livros até ao fim, eu preferia os resumos, à excepção dos textos de teatro que sempre gostei. Porém, felizmente para mim, o passar dos anos levou-me a querer ler o importante e o acessório de cada obra literária. Deixei-me de resumos. Cresci, talvez.
Isto é um comentário...

lb

Cláudio disse...

É importante não confundir "crescer" com "envelhecer"!

Muito agradecido pelo comentário,

Cláudio

Bina Ladina disse...

Bolas!
Tu és do piorio!
Qualquer dia andas aí a incitar os pobres leitores a esse pecado de ler notícias e andar na internet.. já para não esquecer ver TV.
Mas olha, que com as m*** ... informação e conteúdos das nossas TV's públicas até eu acho pecado ver TV.. Pública!!
Boa Páscoa!