quinta-feira, junho 15, 2006

Coletes e Logística Avançada

Pela zona centro de Portugal, assiste-se nestes dias a uma nova invasão das hordas reflectoras: a berma da lendária nacional 1 transformou-se num imenso cordão humano, verde fluorescente, que se move como uma gigantesca lagarta da couve no sentido de Fátima. Vão visitar, novamente, Nossa Senhora de Fátima (NSF, doravante no texto)!

Os meus parcos conhecimentos de estatística permitiram-me, não obstante, calcular em cerca de meio milhão o número de almas encaixadas em coletes nesta estranha migração sazonal. O meu irrequieto e logístico espírito, sempre ávido pelo entender das coisas, apoquentava-me perguntando insistentemente: e onde fica esta gente aos serões? Caminharão sem parar, ad nausea, haverá oferta hoteleira que baste a este simpático exército à chinesa?

Encontrei a apaziguadora resposta nas minhas forçadas migrações, automobilizadas devo acrescentar, naquele canal cinzento escuro flanqueado pelas linhas verdes de que venho falando: a estrada nacional 1 entre Coimbra e Águeda. Cônscio da parca oferta hoteleira da região vi a luz em forma de carrinhas de 9 lugares, identificadas com papéis impressos ou escritos à mão com redonda caligrafia, onde se pode ler "Apoio a Peregrinos" e coisas quejandas. Pois é! Carregadinhas de sandes e sumos, essas sagradas carrinhas fazem da perigrinação uma espécie de lanche volante, aliviando o peregrino da pesada mochila com casqueiros e chouriçada! Nem o clássico e latiníssimo garrafão de vinho falta nesses abençoados veículos, porque esse tanto caminhar puxa pela pinga: verde tinto porque é Verão ou quase. E NSF não quererá as suas gentes sedentas e sem alegria!

Adivinho agora o resto da operação: munidos de um pau de giz ou de uma lata de tinta de marcação rodoviária, os motoristas em sagrada missão recolhem os seus 8 peregrinos (há que rentabilizar a viatura), escrupulosamente marcando no pavimento o exacto local em que as gentes em moderno auto-de-fé pararam de dar ao pedal, para usar uma engraçada expressão que também adivinho ser usada. Acto contínuo, lá rumarão os 9 em direcção à sua terra natal para regressar, no dia seguinte, ao ponto onde deixaram a santíssima caminhada.

Trata-se de um interessantíssimo exercício de investigação operacional determinar os consumos de gasóleo, os quilómetros percorridos pelas carrinhas, os pneus deixados nas massas betuminosas, os metros cúbicos de CO2 e quejandos gases maléficos largados para a pobre atmosfera! O autor terá, e disso suspeitava já o leitor, a veleidade de alvitrar uns números, em jeito de bitaite.

Assumindo uma distância entre as localidades de origem e o destino de 100 km e que os caminhantes percorram 20 km diários... e que andem no processo um número de carrinhas que se estima em 1/8 do número de peregrinos. Assuma-se que temos 200 000 almas em colete e teremos 25 000 carrinhas (ou viagens de carrinha, o que para o efeito tanto faz). No primeiro dia percorrerão 1 000 000 km (40 km cada), no segundo dia 2 000 000 km, no terceiro, 4 000 000 km e assim sucessivamente até ao quinto dia. Ter-se-á um total de 1 + 2 + 4 + 8 + 16 = 31 000 000 km percorridos. Vá lá que cada carrinha gaste 12 l aos 100 km... e temos 3 720 000 l de gasóleo queimado!

Quase tanto como o volume de cera derretida nos rituais!

2 comentários:

Cláudio disse...

Terá reparado o leitor que aguentou o texto até ao fim que existe uma inconsistência nos números. Começo por dizer que são 500 000 os peregrinos e remato com 200 000. Aqueles que, entre vós, me conhecem, sabem que cultivo este tipo de imprecisão para dar um ar mais humano à minha imensa sabedoria e argutíssima alma. Além disso, este tipo de falha dá um ar pouco credível ao autor e ao texto o que, confesso, também me agrada. Detesto malta demasiado credível. Aborrecem-me.

spirito disse...

Interessante seria alargar o âmbito do bitaite, ao consumo vitivinícola, de chouriços e pão, que proporcionam a estas almas o conchego necessário no final de cada penosa jornada.

É uma linha de investigação emergente, e que me parece merecer toda a atenção.

Boa malha!

Escreve mais!