terça-feira, agosto 29, 2006

Quem Quer Ser Invisível?

Parte segunda em jeito de "Blogue Atento e Sabichão":

No título faço uma pergunta a que tu, leitor, poderás tentar responder. Possivelmente viste os filmes ou, na melhor das hipóteses, leste os livros e convenceste-te que seria sobejamente proveitoso deitares as mãos ao anel número um, o da invisibilidade. Falo, claro está, do imaginário Tolkien.

Então, para quê ser invisível? Mesmo as mais evidentes vantagens têm, pelo menos, gosto duvidoso! Poderás levar a cabo pequenos furtos, é certo, com magros riscos corridos. É uma vantagem para alguns, mas não é chávena de chá ao gosto de todos (não te esqueças do estilo asssumido em epígrafe: é suposto usar algumas expressões anglo-saxónicas... por escrúpulo traduzo-as). Talvez um apalpão furtivo a uma nádega distraída, ou a um seio atrevidote, alvitrarás tu, lascivo leitor! Umas viagens à borla no intercidades será sugestão alternativa, menos carnal... Talvez alguém se lembrasse de entrar no cinema ou no teatro de graça... mas, sinceramente, poucas vantagens, para além das já citadas, me ocorrem.

Quanto a desvantagens, há-as a esmo e não são de desprezar: se um tipo se distrai, facilmente é colhido por um camião com as naturalmente nefastas consequências... imagina tu, leitor, que se solta a mão do resto do corpo do portador do anel no processo de esmagamento! Que dirão os transeuntes? Que dirão os bombeiros, de saco plástico em punho, em busca da mão do cadáver? Era maneta, concluirão ao cabo de algumas horas! E o que sucederá à mão que, ainda de anel no dedo, se manterá invisível? Apodrecerá, será comida por um cão que porventura a levará para casa mesmo nas barbas do dono... Os cães vão lá pelo cheiro e raramente são vistos a ler Tolkien!

Há ainda um aspecto social importante. Gastam as pessoas o seu salário em vistosas roupas, em adornos e atavios brilhantes com o fito único de a si chamar as atenções... e tudo para quê? Com o anel, tanto faz trazer fato de treino preto, verde e lilás (indumento vistoso e distinto) como um par de calças de boa fazenda e um pull-over aos losangos bem quentinho!

12 comentários:

luis tavares disse...

Esta in-visibilidade de comentários a este texto é interessante!

Cláudio disse...

Com efeito, é empresa arriscada escrever sobre invisibilidades! Estes dois últimos artigos serão, porventura, do mais invisível que tenho feito!

luis tavares disse...

Tenho a impressão que há muito mais gente invisível do que eu pensava. E com o andar da carruagem...

Anónimo disse...

.

ginjasilver disse...

O último comentário foi feito por mim como invisível:)

luis tavares disse...

Isto começa a dar luta.

Mas há in-visibilidades e in-visibilidades.

«As coisas invisíveis são mais belas do que as visíveis.»

Platão

Perguntam-me: «Mas o que é que este gajo quer dizer com isto?» Respondo: «Não sei, não estou a ver...»

Dizem-me: «Platão é intemporal.» E eu retorquirei: «Mas isso, de se dizer que é intemporal, poderá ser uma forma mitigada (velada) de se pretender uma «invisibilidade» doutrinária (donde se chamar à teoria platónica das ideias:«doutrina platónica das ideias»).
Admiro imenso Platão. Mas no que me toca, tento ter cuidado com as doutrinas. Principalmente aquelas que in-visivelmente se insurgem, invisíveis, no pensamento. E pode acontecer também com Platão. Ela não dita tudo. E muito menos nos tempos de hoje, os nossos, com a «realidade virtual», simulacral, interfacial, etc. e consequentes formas de percepção e transformação do mundo e do real que isso implica. Justamente, novas formas de visibilidades e de invisibilidades.

P.S.: Se me é permitida uma opinião, sem pretender ser juiz de nada, o teu texto está a suscitar outros comentários duplamente invisíveis e interessantes. Duplamente invisíveis porquê? 1º. : não há palavras num comentário, 2º.: Um comentador, para além de virtual (e portanto já com uma certa invisibilidade), como todos nós, internautas, é anónimo (sem nome, como o próprio «a» privativo indica: a-nonymous).
E este nauta: «Ginjasilver» deixou um comentário «não-comentário», usando algumas palavras com dois pontos «:» no fim deixando-nos na incognita.

E já agora, vem aí última a obra do «Senhor do Anéis» escrita pelo filho de J.R.R. Tolkien, Christopher Tolkien! Confesso que nunca peguei nesta obra. Mas começo a ficar curioso.

Um abraço a todos

olga disse...

Não sei porquê, mas acho que preferia a invisibilidade ao estar nos mundanos...
Vou tornar-se invisivel!!! É melhor que assim seja.

luis tavares disse...

Oh Olga, deixou de haver invisibilidade de comentários, mas agora é o blog do Claudio que começa a ser invisível. Mas o que é « algo começar a ser invisível»? Espero que esteja tudo bem contigo, Claudio Boino... No fundo, um dos encantos da vida é podermos brincar todos às escondidas como crianças, para sempre!

Walter Tarira disse...

Boa e interessante pergunta! «Quem quer ser invisível?» Pensa-se que ninguém quer ser o que já é. Digo pensa-se e não penso. E, continuando, pensa-se que o homem já é naturalmente invisível. Mais ou menos assim como uma cebola. Exactamente. Como uma cebola.

À cebola tira-se a primeira camada, depois a segunda, terceira e por ai fora. Quando se tira a última camada, e já com lágrimas saltando como um rio pela cara abaixo, a cebola já era. Não é mais cebola. Foi-se. Desapareceu.

Pensa-se que o homem, tal como a cebola, não se consegue ver. Ele próprio, há milhares e milhares de anos que procura ver-se e acaba morrendo sem o conseguir. Parece que isso se deve ao facto de passar toda a vida mascarado. Tem máscaras para tudo e para todas as ocasiões. Pensa-se que tem apenas dois momentos na vida em que se apresenta sem máscara. No momento em que nasce e no momento em que morre.

Walter Tarira disse...

Boa e interessante pergunta! «Quem quer ser invisível?» Pensa-se que ninguém quer ser o que já é. Digo pensa-se e não penso. E, continuando, pensa-se que o homem já é naturalmente invisível. Mais ou menos assim como uma cebola. Exactamente. Como uma cebola.

À cebola tira-se a primeira camada, depois a segunda, terceira e por ai fora. Quando se tira a última camada, e já com lágrimas saltando como um rio pela cara abaixo, a cebola já era. Não é mais cebola. Foi-se. Desapareceu.

Pensa-se que o homem, tal como a cebola, não se consegue ver. Ele próprio, há milhares e milhares de anos que procura ver-se e acaba morrendo sem o conseguir. Parece que isso se deve ao facto de passar toda a vida mascarado. Tem máscaras para tudo e para todas as ocasiões. Pensa-se que tem apenas dois momentos na vida em que se apresenta sem máscara. No momento em que nasce e no momento em que morre.

spirito disse...

Também eu me porto como um cão, raramente sou visto a ler um livro de Tolkien. Nunca experimentei, assim como nunca experimentei levar uma mão de outro para casa. A minha literatura de sonhos juvenis (não é menosprezo, é falta de outras palavras), dirig(e)ia-se mais para J. Verne e outros visionários.

Mas o que me traz aqui é a suspeita que tens andado demasiado embrenhado no duelo xadrezístico em curso, pelo que tens cuidado pouco deste blogue. E se, à semelhança do passado, nos explicasses, como só tu sabes fazer, o que se tem passado no mundo dos 64 quadrados e dos 32 bonecos aos saltinhos por cima.

Abraço.

spirito

luis tavares disse...

«Táctica é o que se faz onde e quando há alguma coisa para fazer. Estratégia é o que se faz quando não há nada para fazer.»

Kasparov in: jornal «Público», quinta-feira, 12 de outubro de 2006.