terça-feira, fevereiro 28, 2006

O Carnaval e a Graça de Deus

Hoje é Carnaval, dia de grande folia e rambóia, de compulsiva animação e imposto divertimento. Ao frio e à chuva dança-se o samba um pouco por todo o país. Felizmente estão bem identificadas as áreas onde tal sucede, para que não tope o passeante sempre incauto com semelhante auto de fé.

Com a crescente comunidade brasileira em Portugal, nasce um novo fenómeno: A incansável paródia nos apartamentos onde vivem! A inesgotável energia tropical, ao som de Daniela Mercury e Netinho! Eu, com a Graça de Deus, vivo num prédio que não tem brasileiros! Pude assim deixar passar, suave como água rápida em rio manso, a extraordinária Felicidade que o Carnaval traz.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

O Capablanca e os Blogues

O grande campeão mundial de Xadrez dos anos 20, o cubano José Raúl Capablanca, disse, algures na sua fase decadente, que o Xadrez se finaria. Teria os dias contados, reduzido a uma espécie de jogo do galo, onde o empate seria o resultado esperado entre os melhores jogadores.

O Tempo não lhe deu razão. Empata-se hoje menos que nos anos 30, o Xadrez é mais vivo e combativo. Nem os computadores, que seriam o novo canto do cisne do milenar Jogo, fizeram mossa que se visse no Xadrez.

Por isso sinto-me desconfiado sempre que julgo estarem os blogues condenados à mediocridade e desaparecimento. Lembro-me sempre do Capablanca. Nestas, e noutras, ocasiões.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Ainda o Pina

Há, no entanto, uma abordagem ao blogue-diário bem diferente daquela com que o Pina generaliza a questão: Há muitos blogues essencialmente auto-centrados em que o autor ou autora expressa apenas os acontecimentos realmente notáveis da sua existência. Usa para tal um crivo próprio, muitas vezes bem calibrado, que torna a leitura interessante e que dilata a cosmovisão do leitor. Provavelmente, Pina conhece apenas os blogues vulgarotes e cheios de cotão de umbigo. Teve azar, o Pina.

Outros há ainda que versam o comum, em que os autores partilham a sua visão da coisa pública, dos eventos nacionais e internacionais, com maior ou menor habilidade e aptidão. Há-os bons e maus, também aqui. Pina não teve a sorte de os ler.

Há ainda os outros, que falam de música e de livros, de teatro e de cinema, de arte e cultura em geral. Talvez sejam estes os blogues técnicos a que Pina se refere.

Um outro grande grupo de blogues é aquele que contém a vatalhada: Uns coligem poemas de gente conhecida, em português, inglês ou francês. Raros são os que reproduzem poesia em alemão ou russo. Nesse grupo vive ainda um grupo sinistro de versejadores, com rima emparelhada ou cruzada, quadristas ao gosto popular, que expressam em verso a sua visão da bela e nobre arte da poesia, munidos de boa vontade, mas enfermando de grave falta do mais elementar bom gosto. Entre os blogo-poetas outros há que abordam o verso livre e a nova poesia com vetusta pós-modernice, trilhando os ultrapassados caminhos da violação do cânone, pensando ser nova a sua audácia, mas que cheira, nos melhores casos, a naftalina. No entanto, é o inconfundível cheiro a mofo que, na maior parte das vezes, perfuma a sua poesia.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O Pina

O José de Pina, tipo careca e anguloso, jovem e secamente humorado, dono de uma voz pausada e de arrastos eloquentes com tendência a rachar, é o homem, ou um dos homens, do "Contra-Informação". Aparece agora muito pela pantalha, fazendo parte do elenco fixo de um programa da SIC Radical com o Alvim, ídolo de massas juvenis, e com outros que não conheço. Vi-o uma ou duas vezes e, numa delas, definiu os blogues como algo escrito por pessoas que "têm qualquer coisa cá dentro e querem contar ao Mundo".

Num tom jocoso, definiu o bloguista como alguém que conta aos outros que comeu uma sopinha muito saborosa no restaurante tal, que partilha com a blogosfera a dor de cabeça que o apoquentou na noite anterior, etc. Os exemplos que deu não foram estes, foram outros, mas a ideia é esta. Falou ainda dos blogues técnicos, como o dele (que não conheço), algo que se situa próximo da figura maior da "internet", o "site".

Concordo parcialmente com o Pina. Há por aí muito blogue virado para o umbigo, de gente que julga a sua vida particularmente interessante para a humanidade. Concordo até com o tom jocoso de Pina ao referir-se a essa malta que enferma, seguramente, de disfunções na capacidade de auto-posicionamento e que, por ignorância ou deformação do Eu, se considera suficientemente peculiar para que publique a sua vidinha na blogosfera.

Esse é, aliás, o conceito primeiro do blogue: Uma espécie de diário partilhado. Mas, não raro, evoluem as coisas para além do conceito inicial.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Deriva

Por ora fica o Meia Livraria à deriva. Até que veja, da gávea, eira ou beira que possa ter.