quarta-feira, março 29, 2006

Perseguindo Aquilino: O Malhadinhas

Nesta famosa obra de Aquilino Ribeiro se conta a vida do Malhadinhas, homem da Beira Alta, almocreve de profissão. Do berço à cova, todas as suas aventuras são contadas em estilo galhardo e solto, recorrendo a expressões populares bem pesadas pela mão do mestre. Aliás, a dose certa é o que mais impressiona nesta obra: quer na velocidade dos eventos, quer na ponderação do discurso, ora popular, ora erudito. Nuinca deixa Aquilino de escrever magistralmente, temperando sempre o verbo com o sal da terra e dos costumes e das gentes.

Há um grande debate moral em toda a história. Talvez seja esta a mensagem da obra, a relativização dos conceitos morais e civilizacionais: o gesto bárbaro que, circunstancialmente se torna aceitável (lembro-me da violação daquela que viria a ser a mulher de Malhadinhas), em passos que trazem o cunho da verosimilhança. Excepção feita talvez ao exemplo que deixei entre parentesis: pelo que Aquilino deu da mulher de Malhadinhas antes do episódio do rapto, nada indicaria a conformação da mesma, registada no subsequente enredo, nem, muito menos, o amor que, pelo dado posteriormente, seria de solidez granítica.

Talvez resida aí, nessa excepção, uma intenção do autor em mostrar a vanidade dos conceitos românticos e lamechas: pode ser uma reflexão sobre a ligação entre o idealizado e o real, que por vezes trocam de papéis. Nem sempre é o real caminho para o ideal, transmutar-se-á amiude o que sucede, o real, em pré-sonhado. Assim se convencerão as almas trocadas, assim se acomodarão, naquele movimento eterno da alma humana, entre o sonho e o real, entre o real e o sonho. Talvez seja este episódio o mais significativo da obra, o tema fulcral.

É da Vida que trata a obra, mas dizê-lo é nada dizer. Dos pormenores, das subjectividades, dos valores, da resistência ao determinismo, de tudo isso, em partes distintas, pulsa o texto. A honra será pedra basilar da alma de Malhadinhas, mas a sua concepção do divino, pagã como a terra que é Portugal, fervorosa e beata também, manifesta-se com vulto. O padre, figura omnipresente neste Portugal, amigo de Malhadinhas, o casamento, tudo se espalma pelas páginas soberbas.

Mas resuma-se a acção. Malhadinhas nasce na aldeia do distrito de Viseu, com poucas ou nenhumas letras se faz almocreve. Nos caminhos e com os amigos que são muitos, aprende a lidar com a navalha e com o pau. Avança pelo tempo, e, entre voltas a Aveiro, joga ao pau com um brutamontes, encantando uma cachopa que, por amor a outra, prima direita ajuramentada, deixa ficar com o coraçãozinho em brasa.

Pouco depois, desconfiado da quebra de resistência da prima prometida, acossada pelos ataques de um abade novo e galã, embarca numa brutal aventura, raptando a renitente prima, fugindo a macho pelos campos, em busca do padre amigo que os casaria. Pelo caminho, viola a chorosa moça, marcando-a e isso mesmo revelando ao tio, que dela era pai, ao abade e à chusma que os perseguia assim que encurralado. Por artes de tiro e de manha, galopa até ao cura que lá os casou. E, reza o resto da história, viveram felizes para sempre.

Lá continuou Malhadinhas a sua vida de almocreve violento até que, pelas alminhas lhe pediu a mulher que deixasse a navalha e o pau em paz e que se fizesse homem sério. Já pai do primeiro de dezanove filhos, que era uma menina, penso eu, o homem bravo lá acedeu. Posto à prova por várias vezes, lá se foi amanhando, combatendo entre a jura e a honra, sempre se safando airosamente. Grande Malhadinhas!

Não podiam faltar as grandes amizades e também aqui, por entre aventuras heróicas se deu e recebeu no altar da fraternidade. Sempre crente e justo, sempre honrado e duro, sempre o Malhadinhas. A brutalidade inicial perdeu o seu fulgor com o avanço nas páginas sem nunca desaparecer por completo. Teve ainda fôlego para justiçar uma neta acossada, substituindo o relapso filho no papel de castigador: limpou o sarampo ao sacripanta.

Lidou com histórias de cornos, educou homens que deixavam as calças à porta, levando um tipo a sovar a mulher que, por isso mesmo, o passou a respeitar. Moralizou à sua maneira, envangelizando no são e puro a labregada.

Corajoso até à morte, às portas da qual, não fora a sageza da mulher e, mesmo aí, lhe rebentaria os miolos com uma espingarda para que dela não se gozasse ninguém após a sua ida. Monstruoso no fim como no princípio. Não o quis a sorte porque não morreu após o episódio, para durar mais uns anos em sossego.

No fundo, Aquilino criou um animal selvagem que tentou segurar durante o texto, num genial exercício literário: Soltou a besta Malhadinhas nas primeiras linhas do texto e foi, a custo, segurando-a dentro dos limites aceitáveis nisto do viver dos bons homens, sem a manietar ou fragilizar. Manteve o demónio saltitante e a golpes de asa auto-impostos, conseguiu o mestre contar a história até ao fim, sem solavancos nem buracos na estrada. E fazê-lo está ao alcance de um limitadíssimo grupo de corpos celestes. Onde pontua Aquilino, cintilante, ao lado deste seu Malhadinhas: Afinal de contas, um bom diabo.

domingo, março 19, 2006

Aquilino Ribeiro

Eis um resumo da vida de uma das maiores figuras das letras portuguesas. E uma das mais injustiçadas:

1885 - Nasce no Carregal (concelho de Sernancelhe) em 13 de Setembro. É baptizado na Igreja Matriz dos Alhais (Concelho de Vila Nova de Paiva).

(Nota: Sendo filho de padre... foi a baptizar longe da paróquia própria.)

1895 - Frequenta o Colégio da Lapa. Faz exame de instrução primária.

1900 - Entra no Colégio Roseira, de Lamego. Estuda Filosofia em Viseu. Entra depois no Seminário de Beja.

1903 - Abandona o Seminário de Beja e fixa-se em Lisboa.

1904 - Regressa a Soutosa.

1906 - Vai para Lisboa. Convive com os meios literários e revolucionários e colabora em jornais.

1907 - É preso e acusado de bombista.

1908 - Evade-se da prisão e foge para Paris.

1910 - Estuda na Faculdade de Letras da Sorbonne. Vem a Portugal e regressa a Paris, onde conhecera Grete Tiedemann.

1912 - Reside alguns meses na Alemanha.

1913 - Casa com Grete Tiedemann e regressa a Paris. Publica o primeiro livro Jardim das Tormentas.

1914 - Nasce o primeiro filho Aníbal. Declarada a guerra Aquilino regressa a Portugal, sem ter terminado a licenciatura.

1915 - É colocado como professor no Liceu Camões.

1918 - Publica A Via Sinuosa.

1919 - Entra para a Biblioteca Nacional, a convite de Raul Proença. Convive com o chamado grupo da Biblioteca onde pontificam Jaime Cortesão e Raul Proença.
Publica Terras do Demo.

1921 - Integra a direcção da revista “Seara Nova”.

1922 - Publica O Malhadinhas integrado no livro Estrada de Santiago.

1927 - Entra na revolta de 7 de Fevereiro, em Lisboa. Exila-se em Paris. No fim do ano regressa a Portugal, clandestinamente. Morre a primeira mulher.

1928 - Entra na revolta de Pinhel. Encarcerado no presídio de Fontelo (Viseu), evade-se e volta a Paris.

1929 - Casa com D. Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado.
Em Lisboa é julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.

1930 - Nasce-lhe o segundo filho, Aquilino Ribeiro Machado.

1931 - Vai viver para a Galiza.

1932 - Volta a Portugal clandestinamente.

1933 - Recebe o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pelo seu livro As Três Mulheres de Sansão.

1935 - É eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

1946 - Publica Aldeia. Terra, Gente e Bichos.

1951 - Publica Geografia Sentimental.

1952 - Faz uma viagem ao Brasil onde é homenageado por escritores e artistas, na Academia Brasileira.

1957 - Publica A Casa Grande de Romarigães.

1958 - Publica Quando os Lobos Uivam. É nomeado sócio efectivo da Academia das Ciências.

1960 - É proposto para o Prémio Nobel da Literatura.

1961 - Vai a Londres e Paris.

1962 - Nasce-lhe a primeira neta, Mariana, a quem dedica O Livro da Marianinha.

1963 - É homenageado em várias cidades do país por ocasião dos cinquenta anos de vida literária. Morre no dia 27 de Maio. Nessa mesma hora, a Censura comunicava aos jornais não ser mais permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas.

1972 - É publicado o livro de memórias Um Escritor Confessa-se.

quinta-feira, março 09, 2006

O Cavalheiro

No restaurante, o cavalheiro que acabara o prato principal da refeição, chamou o empregado, sujeito muito simpático, e pediu-lhe, para sobremesa, uma laranja. O empregado, minutos depois, apareceu com uma laranja descascada e cortada às fatias, pedindo-lhe, acto contínuo, o cavalheiro um pacote de açúcar. O empregado, mantendo-se simpático, trouxe o pacote de açúcar mas advertiu que uma laranja daquelas, tão docinha, teria tanta necessidade de açúcar como de água o mar.

Assim advertido, o cavalheiro esboçou um sorriso e, ao ver as costas do empregado, provou uma pequena rodela do sumarento fruto. Amarguíssima, concluíu o cavalheiro que pegou sorrateiramente no pacote de açúcar e o espalhou com destreza sobre os discos de laranja.

Concluída a operação, ocultou o pacote vazio e, chamando de novo o empregado, pediu-lhe café. Chegada a chávena de café, que o cavalheiro bebeu sem açúcar, trocou os pacotes, pondo o vazio no pires do café e o cheio junto ao prato da laranja. Pedida a conta, comentou com o empregado: "Era, de facto, dulcíssima, esta laranja!"

Satisfeito, o cavalheiro despediu-se do empregado, que lhe retribuíu o gesto cortês.

segunda-feira, março 06, 2006

Procura-se




Graças ao serviço prestado pela "eXTReMe Tracking" descobri que vem rapaziada ao Meia Livraria em busca de:

1. mapa almada velha rua afonso galo
2. livraria natal
3. nuno gomes fumador
4. vasco lourinho
5. efeito laranja nicolau breyner
6. "revista gina"
7. familia Solnado
8. pasteis Mangualde
9. a emigração após o 25 de abril até às decadas de 80
10. polux lisboa baixa
11. toni carreira data nascimento
12. EMBALSAMAR
13. marques dos leitões
14. judeus Angola Granada
15. GREVE DE 1907
16. polux loja
17. jacques brel amsterdam
18. toques para telemovel de morangos com açucar
19. carnaval da malveira da serra

Os meus favoritos são o 18, 19, 11 e, talvez o mais brilhante, o 3. Espero que os leitores que aqui buscaram respostas a estas questões as tenham encontrado neste humilde espaço! Sinto-me honrado por merecer a vossa confiança!

domingo, março 05, 2006

Teoria Política Avançada

Existe uma grande diferença entre os que são de esquerda e os que são de direita: Os últimos gastam o seu dinheiro dentro de casa; os primeiros, fora dela. E explica-se: Os de direita, como são muito importantes para-si, concentram-se no seu mundo particular, na sua capelinha, na sua casinha. Os de esquerda, relativizando a sua importância no mundo, dividindo-a com os outros, gastam os seus trocos em bens que possam partilhar com o resto do mundo. Partilhar, bem entendido, como fazia Robin dos Bosques, que roubava aos ricos para mostrar aos pobres.


Richard Greene foi o verdadeiro Robin Hood! Um autêntico Homem de Esquerda.

sábado, março 04, 2006

"Manifiesto por la Lectura"

Podemos comenzar diciendo con Brecht: ¡malos tiempos aquellos en los que hay que luchar por lo evidente! Lo evidente es que las personas somos habla, lenguaje, pensamiento, y que aquellos que crezcan sin el dominio de los recursos que han forjado siglos de cultura no serán ni siquiera hijos de este milenio. Estamos hablando, claro está, de la lectura.

En el sistema educativo, los alumnos que sean malos lectores tendrán dificultades para seguir las asignaturas, y no sólo las humanísticas. El enunciado de un problema de Física, la exposición de un teorema matemático, la descripción de un proceso biológico: todo es texto, texto que exige decodificación, comprensión, asimilación; en una palabra: lectura.

La escritura, en toda su complejidad (ortografía, construcción, puntuación, ...), tiene la mitad del camino recorrido en los alumnos lectores, que habrán absorbido naturalmente en el contacto con los textos los principios que habrán de guiar su producción escrita. La misma expresión oral, que en sus pausas y entonación debe transmitir la estructura del pensamiento, tiene en los buenos lectores una base eficaz: el texto bien leído es el trampolín de la palabra.

Forjar la habilidad de lectura en los ciudadanos del mañana es una responsabilidad compartida entre las familias y el sistema educativo, y de este último allá donde las familias no puedan llegar. Es en la escuela donde los más jóvenes van a tener que forjar sus habilidades lectoras, y los que salgan de ella sin haber adquirido un buen dominio de la lectura arrastrarán esa deficiencia el resto de su vida.

Saber leer bien implica en el adulto no sólo poder disfrutar una obra literaria (como de forma reduccionista suele pensarse) sino también --o sobre todo-- saber extraer la información de la prensa, de un contrato, de un texto técnico, de un manual... Una sociedad que exige de sus miembros la “formación a lo largo de la vida” no puede ignorar cuál es la vía privilegiada por la que van a llegar los conocimientos a sus ciudadanos...

Las tecnologías actuales han vuelto a situar la escritura en el centro de la comunicación: no sólo para la creación y el contacto entre personas (la pluma como “lengua del alma” en Cervantes), sino también para trabajar y colaborar en la distancia. De nuevo, los adultos lectores tendrán una clara ventaja.

Los últimos años han visto un esfuerzo sin precedentes para la democratización de la cultura a través de la Red: ¿tendremos las mejores bibliotecas del mundo a un clic de distancia y los ciudadanos no podrán acceder a ese tesoro?

Queremos escuelas que preparen a los ciudadanos del mañana através de la lectura.

Queremos escuelas donde se aprenda a leer textos de todo tipo: literarios, científicos y técnicos.

Queremos escuelas donde la lectura en voz alta prepare a los alumnos para tomar la palabra como ciudadanos.

Queremos escuelas que suministren en sus bibliotecas los elementos básicos para que todos los alumnos, con independencia de su situación familiar, puedan tomar contacto con los libros.

Amamos la lectura porque creemos, con Emilio Lledó, que “somos palabra, somos lenguaje”, y seremos ciudadanos incompletos si no dominamos la práctica que alimenta nuestra palabra interior y la despliega en el mundo.


Madrid, 30 de noviembre de 2005
(Asociación Nacional de Editores de Libros y Material de Enseñanza)