domingo, junho 18, 2006

Mundial de Futebol e Audiências

O Meia Livraria não quer, nem pode, ficar de fora do grande fenómeno mediático e civilizacional que é, sem sombra de dúvida, o Campeonato Mundial de Futebol. Realizado na Alemanha, conta com a presença heróica da Selecção de Portugal, com o seu capitão Figo, o seu menino prodígio Cristiano Ronaldo (o favorito, disseram-me, de uma revista gay), o goleador Pauleta, enfim, os homens que fazem deste país algo do qual os seus habitantes se possam orgulhar.

Infelizmente, não disponho de fotos do Cristiano Ronaldo em poses atrevidas, nem do Figo, nem sequer do guarda-redes Ricardo. Sei que esse tipo de imagem teria agora um sucesso brutal na tremenda guerra de audiências, quer televisivas, quer blogosféricas. Aliás, o casal Cristiano Ronaldo e Merche Romero ocupou no coração dos portugueses o lugar de Lili Caneças e José Castelo Branco, dupla de sonhos, vinda de um mundo de coisas bonitas, de um mundo cheio de "glamour" e de bom gosto! Quem não vibrou com a plástica da Lili? Quem não se riu a bom rir da última tropelia do Zé? Mas agora há que dar o lugar às jóias que Cristiano comprou à Merche e aos fabulosos truques que o mágico da Madeira faz nos relvados alemães!

Que bonitos truques, aliás, são os de Ronaldo! Apesar de totalmente inconsequentes, de nada valerem para o resultado da equipa, apesar de ser um jogador a menos, é ele o eleito dos corações da petizada consumidora de Morangos com Açúcar e das senhoras de todas as idades e feitios, encantadas com a carinha laroca e físico atlético do moço! Ainda por cima, é politicamente correcto afirmarem-se dele fãs, mesmo em frente ao marido ou namorado que, cúmplice, não se importava que a patroa o traísse, desde que fosse com a boa rapaziada da Selecção!

No fundo, Ronaldo resume num homem só os dois maiores ícones dos últimos cem anos em Portugal, superando-os: tem a carinha laroca de um Tóni Carreira e o físico de um Tarzan Taborda! Grande Cristiano! Ditosa a pátria que tais filhos tem!

Para finalizar, uma palavrinha de apreço para o Scolari, o homem mais importante de Portugal. Foi graças a ele que Roberto Leal ressuscitou, forte e sadio, imaculado, e, com ele, a esperança renovada numa nação de gloriosos homens que, lá fora, enchem de honra o nosso país! E, acima de tudo, lhe dão, a ele, a Portugal, bom nome! Obrigado Scolari por ter desenterrado Leal! Não esqueceu esse homem o belo serviço que Roberto fez à sua pátria lusitana popularizando no Brasil cantigas tão nossas como "Uma casa portuguesa" e deixando no país irmão uma tão boa impressão de todos nós!

quinta-feira, junho 15, 2006

Coletes e Logística Avançada

Pela zona centro de Portugal, assiste-se nestes dias a uma nova invasão das hordas reflectoras: a berma da lendária nacional 1 transformou-se num imenso cordão humano, verde fluorescente, que se move como uma gigantesca lagarta da couve no sentido de Fátima. Vão visitar, novamente, Nossa Senhora de Fátima (NSF, doravante no texto)!

Os meus parcos conhecimentos de estatística permitiram-me, não obstante, calcular em cerca de meio milhão o número de almas encaixadas em coletes nesta estranha migração sazonal. O meu irrequieto e logístico espírito, sempre ávido pelo entender das coisas, apoquentava-me perguntando insistentemente: e onde fica esta gente aos serões? Caminharão sem parar, ad nausea, haverá oferta hoteleira que baste a este simpático exército à chinesa?

Encontrei a apaziguadora resposta nas minhas forçadas migrações, automobilizadas devo acrescentar, naquele canal cinzento escuro flanqueado pelas linhas verdes de que venho falando: a estrada nacional 1 entre Coimbra e Águeda. Cônscio da parca oferta hoteleira da região vi a luz em forma de carrinhas de 9 lugares, identificadas com papéis impressos ou escritos à mão com redonda caligrafia, onde se pode ler "Apoio a Peregrinos" e coisas quejandas. Pois é! Carregadinhas de sandes e sumos, essas sagradas carrinhas fazem da perigrinação uma espécie de lanche volante, aliviando o peregrino da pesada mochila com casqueiros e chouriçada! Nem o clássico e latiníssimo garrafão de vinho falta nesses abençoados veículos, porque esse tanto caminhar puxa pela pinga: verde tinto porque é Verão ou quase. E NSF não quererá as suas gentes sedentas e sem alegria!

Adivinho agora o resto da operação: munidos de um pau de giz ou de uma lata de tinta de marcação rodoviária, os motoristas em sagrada missão recolhem os seus 8 peregrinos (há que rentabilizar a viatura), escrupulosamente marcando no pavimento o exacto local em que as gentes em moderno auto-de-fé pararam de dar ao pedal, para usar uma engraçada expressão que também adivinho ser usada. Acto contínuo, lá rumarão os 9 em direcção à sua terra natal para regressar, no dia seguinte, ao ponto onde deixaram a santíssima caminhada.

Trata-se de um interessantíssimo exercício de investigação operacional determinar os consumos de gasóleo, os quilómetros percorridos pelas carrinhas, os pneus deixados nas massas betuminosas, os metros cúbicos de CO2 e quejandos gases maléficos largados para a pobre atmosfera! O autor terá, e disso suspeitava já o leitor, a veleidade de alvitrar uns números, em jeito de bitaite.

Assumindo uma distância entre as localidades de origem e o destino de 100 km e que os caminhantes percorram 20 km diários... e que andem no processo um número de carrinhas que se estima em 1/8 do número de peregrinos. Assuma-se que temos 200 000 almas em colete e teremos 25 000 carrinhas (ou viagens de carrinha, o que para o efeito tanto faz). No primeiro dia percorrerão 1 000 000 km (40 km cada), no segundo dia 2 000 000 km, no terceiro, 4 000 000 km e assim sucessivamente até ao quinto dia. Ter-se-á um total de 1 + 2 + 4 + 8 + 16 = 31 000 000 km percorridos. Vá lá que cada carrinha gaste 12 l aos 100 km... e temos 3 720 000 l de gasóleo queimado!

Quase tanto como o volume de cera derretida nos rituais!