domingo, dezembro 16, 2007

O Corão de Tavares

À porta dos correios de Rio Maior, um homem alto e corpulento, de pé, segurava perto dos olhos o mais recente livro de Miguel Sousa Tavares. Olhava para uma das suas páginas com ar devoto e lia em voz baixa, ou melhor, murmurava, o que Tavares escrevera sabe-se lá onde e para quê. Abanava ligeiramente a cabeça, ora aproximando-a, ora afastando-a do grosso volume. Dir-se-ia que lia o Corão. E talvez o lesse, nas entrelinhas do amontoado de tinta negra em alva folha lá deitada por Tavares.

6 comentários:

O Micróbio II disse...

UM FELIZ NATAL!!! :-))

Mar Arável disse...

A vida não é fácil

PiresF disse...

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga


Um Excelente Natal para ti e toda a família.

lbtavares disse...

O coirão do Sousa Tavares. Até pode haver a sua 'qualidade literária', tal como diz Saramago em relação a essa profusão de palavras e escritores que fazem muitas outras coisas. Todavia, alguma coisa não bate certo de tanto correr e de não bater. Dá a ideia que põem a escrita a correr como se tratasse de um filme. Mas a escrita não é isso. O Lobo Antunes também diz qualquer coisa desse género acerca desse pessoal, embora por outras palavras.
Serão eles escritores demasiado cinematográficos? E daí? Mas então que se tornem também cineastas. Mas seria muito difícil... Porque aí a porca torceria o rabo. A coisa mudaria de novo. É precisamente o jogo do câmbio da palavra que está em jogo. E esses moços parece-me estarem muito aquém disso...
Mas está bem. O seu público, em geral, "não é muito exigente", como diz Motta Cardôzo (conhecem?).
Boas festas para todos vós!

P.S.: E festas nas palavras. Sim... Acariciemos as palavras. Elas são uma moeda de troca muito especial. Não se semeiam às resmas e às paletes...

Barreiros

lbtavares disse...

Errata do comentário 4.

Onde se lê "como se tratasse", deve ler-se "como se se tratasse".
À parte isso, gosto sempre de um certo gaguejamento da palavra.

Bye bye. Bom Ano Novo para ti, Boino. E para todos os que colaboram no 'meialivraria'.
Já agora um bocadinho de marketing:
http://gramas.blogs.sapo.pt

Deixemos o corão/coirão do Sousa Tavares singrar.

Há tantas formas de singrar... Até um pardal...


"Um pardal pulou numa pedra"

O Zen de um dos meus avatares.

Barreiros

MalucaResponsavel disse...

eu li o ultimo de Tavares. nao gostei. e pagei 29euros. isso sim é mau. bj