sexta-feira, janeiro 11, 2008

Olhos

Há pouco experimentei aquela sensação de plenitude, em que todo o universo se torna intelígivel. Em que não são os olhos da cara, mas o olho da alma quem vê. Tal como se andássemos numa cidade que conhecemos bem, falássemos com amigos de sempre ou visitássemos locais que em tempos nos foram familiares e que há muito não víamos. Sabe o leitor do que falo?
PS: Se o leitor, ao ler "olho da alma" se apercebeu da cacofonia e se lembrou do "olho do cu", sinta um abraço solidário e amigo.

4 comentários:

Nita disse...

LOL
bjs

Luís de Barreiros disse...

"Connaissez-vous quelque chose de plus outrageusement fécal
que l'histoire de dieu
et son être: Satan,
la membrane du coeur
la truie ignominieuse
de l'illusoire universel
qui de ses tétines baveuses
ne nous a jamais dissimulé
que le Néant?
(...)"

Antonin Artaud

Este é um excerto de um texto de Artaud que era para ser lido num programa radiofónico em 1947!
O tempo de antena não permitiu que fosse emitido. No entanto o que foi transmitido e que não era menos «escandaloso» teve um efeito estrondoso! O texto intitulava-se: «Pour en finir avec le jugement de dieu.»



Assumamos a merda que nós humanos deste planeta somos. Não a dissimulemos sob o ecrã imaculado e sem espessura. É por isso que, supondo-nos divinos à socapa, quais Prometeus, não passamos de merda. E, sem darmos por ela, somos aquilo que o grande Antonin Artaud que com toda a sua loucura e coragem pôs a nu.
Queremos esconder a merda e mostramo-la no seu esplendor fazendo a merda que estamos a fazer a este planeta e a esta sociedade.
Esquecendo que somos animais humanos, ainda mais somos animais. Mas do avesso. Por isso, irreconhecidamente acabamos por não ser o animal na sua pura essência. Essência aqui quer dizer: como o animal que, enquanto 'outro' por excelência, é o Outro cujo dejecto é o estrume frutificante como um elemento entre muitos outros do seu habitat.

Por isso mesmo gostei deste artigo. E re-lanço a palavra...

Luís Tavares

Luís de Barreiros disse...

"Connaissez-vous quelque chose de plus outrageusement fécal
que l'histoire de dieu
et son être: Satan,
la membrane du coeur
la truie ignominieuse
de l'illusoire universel
qui de ses tétines baveuses
ne nous a jamais dissimulé
que le Néant?
(...)"

Antonin Artaud

Este é um excerto de um texto de Artaud que era para ser lido num programa radiofónico em 1947!
O tempo de antena não permitiu que fosse emitido. No entanto o que foi transmitido e que não era menos «escandaloso» teve um efeito estrondoso! O texto intitulava-se: «Pour en finir avec le jugement de dieu.»



Assumamos a merda que nós humanos deste planeta somos. Não a dissimulemos sob o ecrã imaculado e sem espessura. É por isso que, supondo-nos divinos à socapa, quais Prometeus, não passamos de merda. E, sem darmos por ela, somos aquilo que o grande Antonin Artaud que com toda a sua loucura e coragem pôs a nu.
Queremos esconder a merda e mostramo-la no seu esplendor fazendo a merda que estamos a fazer a este planeta e a esta sociedade.
Esquecendo que somos animais humanos, ainda mais somos animais. Mas do avesso. Por isso, irreconhecidamente acabamos por não ser o animal na sua pura essência. Essência aqui quer dizer: como o animal que, enquanto 'outro' por excelência, é o Outro cujo dejecto é o estrume frutificante como um elemento entre muitos outros do seu habitat.

Por isso mesmo gostei deste artigo. E re-lanço a palavra...

Luís Tavares

Luís de Barreiros disse...

Poderemos acaso erguer uma torre de sossego
como se estivéssemos no interior do mundo? Nós somos descendentes dos répteis
e por isso amamos o letargo solar entre sombras vegetais
Poderíamos assim ouvir o rumor da ausência
como um rosto entre longínquas nascentes
e a pulsação das pedras o obscuro júbilo do fogo
o sorriso cintilante de um regato
Estaríamos na intimidade do olvido
como a pura ignorância de uma sombra lúcida
Seríamos uma erva escrita pela saliva da terra
numa adequação vibrante e sóbria
Veríamos ascender o obscuro em lâmpadas nuas
e toda a espessura seria dúctil e porosa
A identidade encontraria a origem numa flora leve
a hospitalidade de uma terra
nas constelações de argila basalto e esterco

António Ramos Rosa, Génese, Lisboa, Roma Editora, 2007, p.71

E agora vou p'ó campo.

Luís de Barreiros Tavares